Negócios sociais podem aliar lucro e propósito, defendem líderes

As empresas conseguem gerar impacto positivo e obter retorno financeiro? Há quase dez anos trabalhando com a aceleração de negócios sociais, o Quintessa afirma que sim, essa visão se tornou realidade.

E para comprovar, a organização realiza a série de debates História que Só o Quintessa Pode Contar, que teve sua estreia na quarta-feira (8), em São Paulo. “O evento reúne gestores e líderes do Quintessa e empreendedores sociais”, afirmou na abertura. “O objetivo aqui não é falar sobre conceito, mas mostrar casos.”

Esses exemplos vêm dos mais de 50 negócios apoiados, que já impactaram mais de 6 milhões de pessoas, como a Boomera, fundada por Guilherme Brammer, o Courrieros, que tem Victor Castello Branco como um dos seus idealizadores, e a 4You2, de Gustavo Fuga, integrante da Rede Folha.

Os três foram os protagonistas do encontro mediado pela jornalista Celia Rosemblum. Eles fizeram um breve relato de sua história, compartilharam as dificuldades e também as conquistas.

Fuga, por exemplo, se tornou empreendedor social aos 18 anos, quando fundou a 4You2 para democratizar o acesso a cursinhos de inglês nas periferias de São Paulo. Algo que começou com sua experiência de nunca poder pagar por aulas além das obrigatórias nas escolas, nem fazer um intercâmbio no exterior.

“A desigualdade na educação é patente e latente”, disse. “O mercado [de escolas de idiomas] cresce, mas não além dos 5% [que conseguem pagar pelos cursos]. São sempre os mesmos 5% e os filhos desses 5%.”

Já Victor teve a oportunidade de estudar fora do país, onde se viu infeliz. Ao entrar em contato com seu amigo de infância, André Biselli, chegaram à conclusão da possibilidade de negócio: entregas por bicicletas, um mercado que não tinha operação estruturada no Brasil quando a Courrieros foi fundada, em 2012.

“O motoboy da empresa demorava mais que uma pessoa de bike”, afirmou. “A bike é uma ferramenta de impacto social. É um jeito mais simpático à cidade e a quem entrega.”

E Guilherme Brammer contou sobre como se tornou empreendedor ao se definir como o chato do cafezinho -sempre reclamando da vida e que a missão da empresa, uma multinacional, era mentira. Motivado pelos aprendizados da faculdade de engenharia de materiais, que ensina seus alunos a criarem produtos que melhorem a sociedade, ele fundou a Boomera.

“[A Boomera] conecta empresas com resíduos complexos para reciclar com muita tecnologia”, explicou. “Temos mais de 5.000 cooperados no Brasil”, falou o empreendedor sobre o trabalho que envolve, por exemplo, a logística reversa de cápsulas de café, que voltam para os fazendeiros e servem de recipiente para um novo produto.

BARREIRAS

Entre os desafios trazidos pelos empreendedores, o reconhecimento do negócio e a compreensão de sua missão estão entre os mais comuns. “Poucas empresas de logística olham para bike como meio de transporte”, disse Victor. “Ainda é apenas lazer.”

Brammer falou da implantação da lógica de startup em grandes empresas, de entender o problema que vai resolver. “Hoje a gente pode não atender só quem quer cumprir a lei, mas quer resolver um problema de verdade. Já recusamos um fundo por conflito de valores”, exemplificou.

Sobre a sustentabilidade financeira, Fuga explicou que define a mensalidade paga por seu aluno tendo como teto 10% do salário mínimo. “Pode não parecer muito, mas para uma família que ganha um salário mínimo, isso tem um valor enorme”, afirmou. “Prefiro ter quatro alunos pagando R$ 79 do que apenas um aluno. É alinhar retorno com ganho”.