No mesmo dia – e no mesmo Diário Oficial – em que demitiu professores e médicos de Coari, Iran Medeiros, fecha contrato de R$ 35 milhões com empreiteira, velha conhecida em Coari e no Estado

PLACA E IRAN

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Após concessão de liminar pelo desembargador Rafael Romano em seu favor, o vereador Iran Medeiros, menos de 24 horas depois de ter sido eleito por 8 dos 15 vereadores da Câmara Municipal de Coari – entre esses 8 está ele próprio – e, consequentemente, conseguir chegar a ser prefeito do município, assinou apenas dois atos. No primeiro deles, Iran Medeirosassinou decreto, na manhã do dia seguinte a sua eleição, dia 19 de março,  “encerrando todos os contratos administrativos referentes à contratação temporária de pessoal e exonerou todos os cargos de provimento em comissão da Prefeitura Municipal de Coari e Autarquias Municipais”, o que significa dizer que estão demitidos cerca de 3.500 servidores públicos, entre eles todos os 890 professores contratados após processo seletivo realizado com ordenamento e fiscalização do Ministério Público do Estado (MPE-AM) – ler promotor de Justiça de Coari, Felipe da Cunha Fish – assim como cerca de 30 médicos contratados pela Prefeitura de Coari, inclusive os especialistas como ortopedistas, obstetras e cirurgiões.

Em seu segundo ato já como prefeito “eleito”, na mesma manhã do dia seguinte (19), – parece até deboche gente (!) já que as publicações estão uma colada na outra no Diário Oficial – Iran Medeiros decidiu fechar um contrato no valor de R$ 35 milhões com a empresa Conserge Construção e Serviços Gerais Ltda diz que para “construção e recuperação da estrutura viária do município de Coari” – êta asfaltozinho caro (!), né gente, já que um contrato semelhante fechado com a mesma empresa, a Conserge, em 2011, tinha o valor de R$  6 milhões (conforme imagem da placa da obra que está no início da matéria). Vale lembrar que antes de decidir entrar com mandado de segurança e conseguir liminar para ser eleito prefeito por seus colegas vereadores, Iran Medeiros estava ocupando o cargo de secretário de Obras da administração anterior, da qual decidiu ser oposição e travar guerra jurídica após ser exonerado do cargo.

E, causou ainda mais estranheza, Iran Medeiros, justificar demissões em massa em Coari dizendo em entrevista ao jornalista Antonio Paulo, do jornal A Crítica, que a dispensa dos servidores públicos ocasionará uma economia de R$ 1,2 milhões. E o Radar pergunta: quer dizer que professor e médico vale menos que asfalto, é isso mesmo? E, chega-se à conclusão que, o que menos interessa, é se escola vai ficar sem professor e hospital e Unidades Básicas de Saúde (UBSs) ficarão sem médicos, afinal é muito mais importante tapar buraco, né gente? – ainda mais se for aqueles “buracos” que são feitos pra ganhar eleição, né mesmo?

O Radar tentou contato desde sexta-feira passada (20) com o vereador – presidente da Câmara – prefeito em exercício, Iran Medeiros pelos telefones (97) 98175 XX 11 e (92) 9394XX78  mas, ou deu fora da área de serviço, ou não completou a ligação.

Ação ilimitada

E como a turma aqui do Radar adora captar o máximo de informações possíveis – afinal nossos leitores merecem, né gente? – fomos atrás de saber afinal que empresa é essa, a Conserge, e o que captamos é que, apesar de se denominar Conserge Construção e Serviços Gerais Ltda. (limitada) seu raio de ação é ilimitado.

Ela aparece em várias matérias dos nossos companheiros blogueiros como “muito conhecida no item financiamento de campanha”. Suas atividades durante a administração do ex-prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, iam desde a coleta de lixo, passando por obras e serviços de limpeza de prédios públicos. Esses mesmos colegas blogueiros denunciaram que a empresa sempre era beneficiada pelo então prefeito Amazonino com dispensas de licitação, fato que levou a irritação até mesmo da então secretária municipal de Educação, hoje vereadora professora Terezinha Ruiz, que criticou a dispensa de licitação de R$ 1, 2 milhão para serviços de limpeza e conservação das escolas da rede municipal de ensino, beneficiando a Conserge. Logo depois, Terezinha Ruiz acabou pedindo demissão, mas a Conserge ficou.

Foi uma das empreiteiras contratadas em 2013 pelo Governo do Estado (administração Omar Aziz) para obras da Copa, mais precisamente pela Unidade de Gestão Metropolitana, época em que seu nome ocupou espaço na imprensa nacional por causa da morte do operário José Antonio da Silva Nascimento, de 49 anos, que enfartou enquanto trabalhava nos serviços de limpeza e terraplanagem do Centro de Convenções, ao lado da Arena da Amazônia.

Em Coari, seu nome aparece em contratos assinado por seguidos prefeitos, como por exemplo, Arnaldo Mitouso, para os mesmos “serviços de pavimentação das vias do município” que estão no contrato firmado por Iran Medeiros – com a diferença de vários milhões a menos, né gente – viu aí na placa com informações do contrato? Segundo a matéria do próprio site Transparência da Prefeitura de Arnaldo Mitouso , nesse pacote de R$ 6 milhões, R$ 2,2 milhões eram destinados ao asfaltamento da estrada Coari Itapeuá. Mas, esse serviço nunca aconteceu porque a estrada continua do mesmo jeito dos tempos de Arnaldo Mitouso.

A empresa também foi a contratada para a construção da Praça de Esportes e Cultura de Coari, com verbas oriundas do PAC, do Governo Federal. A praça nunca saiu do papel. A Conserge também ganhou contratos nas administrações de Adail Pinheiro e de Igson Monteiro e agora consegue um de R$ 35 milhões, bem em época de “cortes de gastos” usados como justificativa por Iran Medeiros para demitir professores e médicos.

A Conserge também espalha seus serviços por diversas prefeituras do interior do Estado, com destaque em pesquisa feita nos Diários Oficiais dos Municípios dos últimos anos– pra checar é só apelar pro São Google, tá gente? –  para diversos negócios com a prefeitura de Rio Preto da Eva.

Assim como sua capacidade ilimitada de fazer os mais variados negócios, a Conserge Construção e Serviços Gerais Ltda também parece ter ilimitados representantes. Corre a boca miúda, seja na capital ou no interior, que a empresa é ligada a um ex-prefeito de um município do Amazonas.  No site da Receita Federal é só colocar o CNPJ da empresa para ficar sabendo que ela está em nome de, Paulo Roberto da Silva Coimbra e José Manuel Henrique – perguntei de jornalistas, passando por deputados e até de assessores de secretarias de Finanças do Estado e do município, mas todo mundo disse desconhecer quem são os empresários.

Dois vereadores que não fazem parte do grupo dos aliados de Iran Medeiros contaram ao Radar que “representantes da empresa”, dos quais só citaram os primeiros nomes, Hildo e Sérgio, fizeram contato pedindo votos para Iran Medeiros na eleição em que ele virou presidente da Câmara e prefeito. (Any Margareth)

Diário Oficial Coari - 19-03-2015

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