O coronavírus, os patriotas e a culpa do capeta!

O pior do isolamento social – logicamente estou falando da minha experiência pessoal – não tem sido apenas estar apartada do que tanto gosto, do convívio com as pessoas, do bate papo na mesa de um bar, de cantar pela madrugada a dentro ou sair vida a fora, tomar banho de rio e sentindo o cheiro que vem da floresta e tantas coisas que a gente só nota o valor que tem quando não pode fazê-las. Mas, pra quem tem levado parte da vida com um computador e as palavras como únicas companhias, então fica mais fácil de suportar esse distanciamento do mundo lá fora.

Mas o pior dessa pandemia, pra quem tem a característica pessoal e até o dever profissional de observar muito e pensar outros tanto, é chegar a conclusão que o coronavírus fez aflorar outras doenças não menos cruéis que a Covid-19 e, pelo que parece, tão invisíveis para grande parte da população como o vírus.

É só ver do que são capazes muitos dos que se autodenominam patriotas e se autointitulam cristãos! Os patriotas, irmãos em Cristo e fiéis seguidores de Jair Messias Bolsonaro, num estavam nem ai se estavam morrendo milhares pelo mundo – ontem à noite passavam de 70 mil pessoas – e iam às ruas pedir “a volta à normalidade”, a reabertura do comércio e a reativação da indústria. Mas, nem pensar de fazer manifestação a pé, lado a lado, de braços dados como antes, mesmo pregando aos quatro cantos do país que a pandemia é só uma gripezinha.

Esses patriotas pareciam achar pouco o número de mortos no Brasil que nesse domingo chegava a quase quinhentas pessoas e, gravem bem o que eu digo, se no Brasil quem realmente está lutando contra a pandemia conseguir conter os níveis de contaminação pelo vírus, eles ainda vão continuar insistindo que era “só uma gripezinha senão teria morrido mais gente”.

Mas, onde estão os patriotas agora que a coisa apertou e os números só estão aumentando? Saíram dos seus carros e foram se isolar nos seus apartamentos, defensores que são do isolamento vertical: “eu fico aqui na minha cobertura e tu te lasca ai embaixo, meu gado!”.

Um desses patriotas bolsonaristas, um deputado federal do Amazonas, policial militar, que fazia questão de se mostrar à frente das carreatas pró-Bolsonaro e de apoio às suas medidas de combate a “gripezinha”, sumiu, desapareceu, escafedeu-se – deve estar no isolamento vertical né mesmo! Ele aparece em vídeo, feito em casa, mostrando que está cumprindo o isolamento social. Mas não era só um resfriadinho que o vírus causava? Então pra quê tá trancado em casa? Vem pra rua!

No caso do outro deputado federal ligado a igreja Assembleia de Deus seu irmão aparece em vídeo – eu tenho se alguém quiser tirar dúvida – incitando os “irmãos em Cristo” a irem para a igreja, “não fica em casa coisa nenhuma, vem adorar a Deus aqui! Põe um álcool gel na mão, glória a Deus vem pra cá. Traz um vidrinho de álcool gel aqui, passa na mão e cumprimenta o teu irmão, vamos orar e Deus vai guardar o povo dele. Há uma investida satânica para distanciar o marido da mulher, o avô da neta”.

Mas, pelo que parece, mesmo a culpa sendo do capeta e o pastor tendo poderes dados por Deus de afastar o mal do “rebanho da igreja”, eles preferiram acreditar mesmo foi no ministro Mandetta e não em Bolsonaro de quem eram fiéis seguidores.

Essas coisas nos fazem ver que há mais do que coronavírus nessa história da pandemia, pena que assim como não se consegue ver o vírus muita gente não consegue enxergar o que está acontecendo a sua volta e o quanto está sendo usada para interesses escusos. E isso me faz tanto ou mais mal que o isolamento social!