O efeito retardado do prefeito de Manaus (ver vídeo)

Confesso, eu também sofro do chamado efeito retardado, mas felizmente, muito raramente isso acontece. As poucas vezes em que isso já aconteceu, foi porque preferi apertar o “botão” do efeito retardado – no meu caso ele também leva o nome de “botão do fod….” – do que perder tempo com gente deplorável e infeliz. Pra quem não sabe o que significa o tal efeito retardado, é quando a gente fica sem palavras, com cara de paisagem, sem esboçar reação alguma diante de uma situação. Mas, nunca tive efeito retardado ao me deparar com injustiças ou com a defesa de interesses coletivos.

Fiquei fazendo essas conjecturas sobre o dito efeito retardado enquanto via um vídeo do prefeito David Almeida – e olha que ele é do Avante! – fazendo um apelo para que a população do Amazonas “em matéria de saúde, não ouça o seu líder religioso, nem sua preferência política, cuide da sua família, cuide da sua saúde, cuide da sua vida”.

O apelo do prefeito para que os cidadãos parem de dar ouvidos a políticos e religiosos negacionistas que se baseiam em teorias da conspiração ou demoníacas, vem depois de um ano do começo da vacinação, quando muita gente já morreu por acreditar exatamente nesses arautos da desgraça alheia que, na verdade, têm como única missão na vida acumular riqueza e poder com a dominação de gente simples e sem acesso a educação.

Exatamente nessa mesma época, em janeiro do ano passado, David Almeida, um líder político recém-eleito prefeito de Manaus, poderia estar mobilizando a população na luta contra o negacionismo, em defesa das medidas sanitárias, em favor da ciência e pressionando o governo federal para que priorizasse a vacinação.

Porém, nessa mesma época, David Almeida estava mesmo era dizendo “amém” – (assim seja) e batendo continência para o general Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde, que estava em Manaus, pra entupir nossas UBSs com remédios sem eficácia para o tratamento da Covid-19, ao invés de trazer oxigênio para livrar nosso povo da morte. Vacina não tinha pros caboclos do Amazonas, mas cloroquina tinha a rodo – sabe lá quantos cidadãos da nossa terra não morreram após servirem de cobaias para uso de cloroquina sem autorização das famílias por médicos (e monstros) sulistas trazidos pelo Ministério da Saúde negacionista de Messias Bolsonaro.

Nesses tempos David Almeida, assim como outra figura que sofre de “efeito mais do que retardado”, o governador Wilson Lima, do Partido Social Cristão – tenho pavor desses cristãos – não botaram pra cima dos autodenominados salvadores da Pátria do governo federal pra arrumar pelo menos oxigênio, já que não arrumavam vacina e ainda faziam campanha contra a imunização. Nesse tempo, David Almeida, posava pras fotos com a “preferência política”, o Messias negacionista, que hoje em dia o prefeito apela pro povo não ouvir.

Nessa época, David Almeida, que é Adventista do Sétimo Dia, bem que poderia ter desqualificado as pregações de alguns líderes religiosos que chegavam ao absurdo de chamar a vacina de a “marca da besta”, ligando a vacina a dominação do demônio – na verdade o demônio são eles. Quantos cristãos não devem ter morrido por seguir cegamente seu líder religioso?

Mas, nesse tempo, o prefeito achou mais cômodo, tanto religiosamente quanto politicamente, ficar calado, enquanto alguns homens públicos e grande parte da imprensa brasileira levava xingamento de todo lado, agressões, ameaças e perseguições dos robôs de parafuso frouxo na cabeça da turma dos negacionistas da República Bolsonarista.

David Almeida vem fazer o apelo pro povo ouvir a voz dos sábios da ciência quando o Brasil já tem mais de 621 mil mortos por Covid-19 e o Amazonas já perdeu quase 14 mil vidas.

Esse é um novo “efeito retardado”, é o retardadíssimo, que eu nem sei se existe esse superlativo, mas se não existir, acabo de criar para classificar a conveniente e óbvia declaração do prefeito de que a vacina salva vidas.