O fim de uma união estável de 20 anos

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A história política no Brasil tem se transformado, nos últimos anos, num espetáculo tragicômico que a gente num sabe se ri ou se chora – tem vezes que ficamos mortificados de vergonha! – ao ver certas cenas.

Essa é a conclusão a que chego ao estar diante de um vídeo em que o presidente de uma Nação, no caso a República Federativa do Brasil, aparece ao lado de um senador da República, Chico Rodrigues (DEM), seu vice-líder no Senado, acusado de desviar dinheiro da saúde pública do seu Estado (Roraima) e, mais precisamente, recursos para combater a pandemia de Covid-19, que já levou milhares de pessoas a morte. Dinheiro sujo, literalmente falando, já que foi retirado de dentro da cueca do senador – daquela parte que o povão chama de “fundilhos” – por agentes federais durante a Operação Desvid-19.

Até aí, pode-se dizer que tudo bem do presidente da República aparecer em um vídeo com um senador, né gente? Afinal vários presidentes posaram ao lado de agentes públicos que foram acusados e até presos por corrupção, né mesmo? Mas, a questão que enoja e envergonha, mas ao mesmo tempo faz até a gente rir de tão bisonha – isso não é novidade no atual governo – é o que diz Messias Bolsonaro.

No vídeo, num encontro entre o presidente e o senador, Chico Rodrigues agradece ao “seu amigo” Bolsonaro e lembra de uma convivência de 20 anos na Câmara Federal, nos tempos em que Bolsonaro era deputado federal. Bolsonaro interrompe a fala de Chico Rodrigues pra dizer que eles têm “quase uma união estável”.

Os fatos são prova incontestável dessa união estável entre Messias Bolsonaro e Chico Rodrigues. Chico Rodrigues deu um cargo de mais de R$ 22 mil/mês para o sobrinho de Bolsonaro, Léo Índio, em seu gabinete no Senado. Coincidentemente – será meu povo? – Chico Rodrigues está no chamado “Top 10” dos senadores que mais recebeu dinheiro em emendas por parte do governo de Messias Bolsonaro. Em 2020, Bolsonaro já liberou mais de R$ 15 milhões em emendas para Chico Rodrigues.

A resposta, no vídeo, para a fala de Bolsonaro sobre a tal “união estável”, por vezes olhando nos olhos, por parte do senador que foi flagrado pela polícia escondendo dinheiro na cueca, é a seguinte: “Fico muito feliz Jair com essa sua caminhada, com o seu patriotismo, pela sua luta em defesa do Brasil, pelos princípios e valores da família (…)absorvendo todo esse sentimento do brasileiro de retomada da moralidade, praticas na verdade republicanas para que possamos dar exemplo a essa juventude que será com certeza o futuro do nosso País”. Aff! Que patriotismo, valores da família e exemplo pros mais jovens é esse, né mesmo?

Mas, agora, Léo Índio já pediu demissão, Chico Rodrigues já foi destituído do cargo de vice-líder do governo Bolsonaro no Senado e o presidente Messias está pregando pra Deus e todo mundo que Chico Rodrigues nunca fez parte de seu governo.

E esse fim para uma “quase união estável” realmente é novidade, não foi batom na cueca, mas flagra de dinheiro nos fundilhos. Será que ainda dá pra “passar a limpo” essa relação?