O juiz esqueceu a poesia que declamou e o governador que ele cassou, desta vez, inocentou

henrique-veiga-na-miraEm janeiro desse ano, quando o governador professor José Melo (PROS) foi cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) por compra de votos e conduta vedada a agente público, a declaração de voto pela cassação de um dos juízes da Corte de Justiça Eleitoral do Estado foi, no mínimo, diferente daquelas que se vê nos tribunais, contrastando com a formalidade habitual das cortes de Justiça e chegando a emocionar determinadas pessoas presentes – euzinha que estava lá que o diga!

O juiz Henrique Veiga usou “poesia do cancioneiro popular” – frase dita pelo magistrado – pra falar da corrupção eleitoral que teria ocorrido nas eleições de 2014 com o uso de dinheiro público para a compra de votos à reeleição do governador, assim como para justificar seu voto pela cassação já que não poderia, segundo ele, ficar indiferente ao que tinha acontecido.

O voto do magistrado veio em forma de poesia ao declamar parte da canção “Vai Passar”, de Chico Buarque de Holanda. “Dormia, a nossa Pátria Mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída, em tenebrosas transações”, poetizou o magistrado.

Naquela ocasião, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Amazonas, então presidido pela desembargadora Socorro Guedes, rejeitou os recursos (Embargos de Declaração) da defesa do governador e cassou por unanimidade de seus membros – seis votos a favor e nenhum contra – o mandato de Melo e de seu vice, Henrique Oliveira.

Além de surpreender os presentes com o que se poderia chamar de “voto poético” a favor da cassação do governador, o juiz Henrique Veiga, foi enfático ao dizer que “chamava a atenção a contratação de uma empresa (ANS&D de Nair Blair) por R$ 1 milhão que não existia no endereço informado, para executar um serviço em um evento que já tinha ocorrido e a pessoa nomeada para ser o perito do serviço acabou dizendo nos autos do processo que não era expert naquela matéria”.

O juiz deixou claro que a alegação de serviço executado e os recursos repassados à empresa de Nair faziam parte de um engodo para fins de utilizar dinheiro público para a compra de voto.

Nesta quarta-feira (26), no julgamento de mais um, entre os vários processos com pedido de cassação do governador, por uso da máquina pública, abuso de poder político e compra de votos, o “placar” final foi 4 votos pela absolvição de Melo – incluindo o voto de minerva do presidente do TRE  – e três pela cassação de mandato.

Entre os votos dos juízes que inocentaram o governador, lá estava o juiz Henrique Veiga, que desta vez não lembrou da “poesia do cancioneiro popular”. No julgamento de ontem a “Pátria Mãe” foi “subtraída em tenebrosas transações”, e inda teve que ouvir que as “transações” financeiras de campanha eleitoral do governador, com apreensão de dinheiro pela PF era “pequena” diante do milhão que Nair Blair recebeu.

E aí só me veio à mente o nome da música de Chico “Vai Passar” e, fazendo uma analogia, Melo “passou” inocente de todas as acusações pela Corte de Justiça Eleitoral do Estado, com o total silêncio do juiz poeta, sem precisar de verso ou prosa. (Any Margareth)