O que Moro tem a ver com minha mãe?

Foto: Lula Marque/AGPT

“Desconfie dos heróis, minha fia!”, dizia minha véia mãe cabocla, semianalfabeta, mas com a sabedoria própria de quem aprendeu com o passar dos anos e com as agruras da vida. Ela dizia pra ficar com um pé atrás quando homens posassem de deuses, de senhores da justiça e vestais da moral. “Esses são os piores”, vaticinava minha mãe. Até com os filhos – doze biológicos e uma adotiva – ela agia assim. Sempre tinha, aquilo que os mais velhos chamavam de “olhar comprido”, aquele de canto de olho, quando todos tinham feito uma traquinagem e algum de nós vinha posando de bom menino e falando manso. “Tu já tá com a tua sonsice, né?”, questionava ela.

Tenho certeza, que há quem esteja se perguntando, porque estou escrevendo sobre essas coisas. A resposta é que, por algum motivo que hoje eu sei, essas opiniões da minha mãe batucavam na minha cabeça toda vez que eu via o então juiz da Lava Jato, herói nacional, Sérgio Moro, com aquela sua pose de deus (propositalmente com letra minúscula) da Justiça e vestal da moral. Eu notava nele a mesma voz que não mudava de tom e o mesmo olhar distante dos meus irmãos quando estavam de sonsice. E Moro estava mesmo!

Na maioria das vezes Moro dizia uma coisa, mas sua voz e sua cara sem expressão diziam outra. Um exemplo disso, é quando ele disse em palestra, em 2016, que se “irritava” quando perguntavam sobre suas “estratégias de investigação”. Ele lembrou que o juiz “deve cultivar essas virtudes passivas”. E arrematou: “vejo críticas infundadas ao meu trabalho, dizendo que sou juiz e investigador”. Mas, cadê a tal da irritação na cara de Moro? A cara era a mesma sempre, nenhuma ruga de irritação. E o olhar mirava sempre o horizonte como se não tivesse naquele lugar. E na minha mente lá vinha a voz da minha mãe: “Tá na cara que está mentido, fia!”.

E num é que o herói nacional estava mentindo mesmo! As conversas divulgadas pelo site The Intercept Brasil entre o então juiz Sérgio Moro e o chefe dos procuradores do Ministério Público, Deltan Dallagnol, mostram que Moro mandava nos acusadores da Lava Jato, afinal até mesmo “sugeriu” mudanças de fase na Lava Jato, cobrou a realização de novas operações do MPF , mandou simular denúncia anônima, ou seja, mandou o MPF mentir, mandou um procurador de Justiça, Carlos Fernando dos Santos Lima, editar uma nota para contestar a defesa do ex-presidente Lula, indicou testemunhas que ainda não tinham feito contato com o MP, antecipou decisão judicial e pediu pra não “melindrar” o ex-presidente Fernando Henrique “cujo apoio é importante”, ou seja, blindou um ex-presidente e fez o que podia e não podia pra prender outro!

E a cada divulgação de novas conversas de Moro com Deltan, o herói nacional fica mais próximo das desconfianças da minha mãe que preferia os filhos mais declaradamente traquinas como euzinha – pra minha sorte, né gente? – do que algum dos meus irmãos com suas sonsices e dissimulações. E se ela tivesse aqui acharia muito pouco o castigo da palmatória e do joelho no milho pra quem deliberadamente rasgou a Constituição e mentiu pra todo um País.