Olimpíadas de Tóquio: As lições que elas deram ao mundo

Há muito tempo que o esporte faz o contraponto entre sentimentos superiores e sentimentos mesquinhos, impondo derrotas a gente estúpida e desumana. Quem não se lembra de Jesse Owens, um atleta norte-americano, nascido no Alabama, neto de escravos e sétimo filho de uma família de colhedores de algodão, que impôs a Hitler e a Alemanha nazista sua primeira grande derrota no mundo.

O jovem de 23 anos, pobre e negro, desconstruiu o discurso de Hitler e sua intenção de usar a olimpíada de 1936, em Berlim, para provar a superioridade física e mental da denominada raça ariana formada por indivíduos, altos, fortes, brancos e nascidos de famílias da nobreza europeia. Hitler teve que engolir calado e assistir de camarote, num estádio lotado, um negro ganhar quatro medalhas de ouro e bater recordes olímpicos.

Nessa Olimpíada de 2021, em Tóquio, no Japão, o esporte continua fazendo história, mas o protagonismo tem sido das mulheres com lições de empatia, solidariedade, união e, acima de tudo, muita coragem.

O que aconteceu nas disputas do skate street nessas olimpíadas foi lindo de ver! Meninas aplaudindo outras meninas, sem a dureza se certas competições onde têm atletas que parecem ter raiva de seus oponentes. No esporte não precisa ter guerra e que vença o melhor, na paz.

Lembro da skatista Rayssa Leal, de 13 anos, nossa medalhista de prata, a mais nova atleta olímpica de todos os tempos a ganhar uma medalha, dançando e cantando ao lado da amiga Margielyn Didal, das Filipinas, antes das manobras. Na atitude de uma menina, a lição da elegância e da leveza com as “batalhas” da vida.

As skatistas brasileiras, Pamela e Leticia, que não se classificaram passaram a ser torcedoras de Rayssa, entendendo que nada na vida, nenhuma disputa, precisa trazer dor e sofrimento, apenas ensinamentos e vontade de recomeçar.

E pra ter este tipo de atitude precisa ter coragem em tempos em que vemos tantos exemplos de falta de elegância, ausência de empatia e o egoísmo. Em que não importa o que se tenha que fazer, o importante é ganhar seja de que jeito for.

E por falar em coragem, essa palavra é sinônimo delas, Rebeca Andrade e Simone Biles.

Biles, a ginasta mais premiada da história dos Estados Unidos, com quatro medalhas de ouro na Olimpíada do Rio de Janeiro e 25 medalhas em mundiais, chegou a Tóquio como favorita, mas desistiu de competir. Disse que não estava bem mentalmente e mostrou que isso não era mimimi de mulherzinha. A questão mental fazia com que ela não conseguisse controlar o próprio corpo e estava preocupada que isso acontecesse em meio a um de seus saltos e assim ela poderia estar correndo perigo de vida. Atletas não são deuses, são seres humanos tão somente. Biles fez o que muitos atletas têm vontade, mas ainda não tinham tido coragem!

Outra ginasta, dessa vez a brasileira Rebeca Andrade, deu lições para não serem esquecidas. Logo após sua medalha de prata na disputa do individual geral, Rebeca fez um discurso de apoio as ginastas alemãs que dispensaram o tradicional collant e usaram calças como forma de se posicionarem contra a sexualização feminina no esporte. As mulheres, sejam elas quem forem, inclusive ginastas, têm o direito de vestir o que se sintam bem. Se os homens têm o direito de escolher suas roupas, por que as mulheres não têm. Todas concordamos com Rebeca.

E Rebeca não parou por aí desafiando apenas paradigmas machistas e sexistas. Rebeca frustrou o preconceito de quem só aceita a ginástica com a “nobreza” das apresentações com músicas clássica. A ginasta negra levou o som da favela para a ginástica artística, rebolou em meio a movimentos obrigatórios da ginástica de solo, e deve ter feito conservadores, racistas e gente desse tipo passar mal.

Essas mulheres maravilhosas foram muito além das conquistas de medalhas, suas lições podem mudar o mundo.