Onças da Amazônia vivem em árvores durante um terço do ano, mostra estudo

Foto: YouTube/Reprodução

As onças-pintadas que vivem dentro da RDSM (Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá), no Amazonas, chegam a viver até cerca de quatro meses por ano sobre as árvores, no período em que o rio Amazonas inunda a região e a floresta pode ficar de 0,5 metro a 7 metros debaixo d’água. Onças podem nadar e subir em árvores -são bichos extremamente habilidosos-, mas essa é a primeira vez que cientistas observam felinos com um porte tão grande passarem um tempo longo nas alturas, totalmente adaptados para sobreviverem nas condições da Amazônia. Ali, mesmo cercadas pela água, elas se alimentam, se reproduzem e criam seus filhotes.

O comportamento dos animais de Mamirauá foi descrito por pesquisadores brasileiros na revista científica Ecology em um artigo publicado em janeiro deste ano. A RDSM ocupa uma área de mais de 11 mil quilômetros quadrados na região de Tefé (cidade a cerca de 522 km de Manaus). Ela foi a primeira reserva de desenvolvimento sustentável implantada no Brasil. Ali, pesquisa científica e conservação convivem com as populações locais, que usam os recursos naturais da reserva seguindo planos de manejo sustentável.

Foi o contato com os moradores locais que primeiramente alertou os cientistas do IDSM (Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá), que faz pesquisas na área, com relação ao comportamento incomum das onças, conta Emiliano Ramalho, biólogo, diretor técnico-científico do instituto e um dos autores do artigo na Ecology. “Uma área inteiramente de várzea como Mamirauá, com florestas que alagam todos os anos, é um ambiente peculiar, e os animais que vivem ali têm de ser adaptáveis, assim como as pessoas”, diz Ramalho. “Animais de chão não conseguem sobreviver”, completa.

Seguindo os relatos dos moradores, os cientistas resolveram monitorar os animais para saber se eles não davam uma escapadinha para áreas secas durante as inundações. Com esse objetivo, os pesquisadores capturaram algumas onças e colocaram coleiras com rastreadores em cada uma delas. No estudo está descrito o comportamento de oito animais, machos e fêmeas. Com o rastreamento, os cientistas notaram que nem as fêmeas largaram Mamirauá durante as cheias, que podem durar cerca de quatro meses. Ou seja, o ciclo de vida dos animais está todo adaptado à região, mesmo com os alagamentos sazonais.

“Não existia a descrição de uma população inteira de onças capaz de sobreviver em cima de árvores por um período desses. É um comportamento inédito para felinos desse porte”, afirma o biólogo. As onças da Amazônia têm diferenças físicas que facilitam a sobrevivência na região. Quando comparadas às do Pantanal, por exemplo, os animais da mesma espécie que vivem na Amazônia são menores, podendo ter até metade do peso de uma onça pantaneira.

“A onça do Pantanal dificilmente sobreviveria na Amazônia; por ser maior, ela precisaria de muito mais comida. A seleção natural escolheu os animais menores para viverem na floresta amazônica, onde ser grande não é uma vantagem”, diz Ramalho.

Os animais amazonenses pesam entre 50 e 70 quilos, enquanto as onças do Pantanal podem chegar a 120 quilos. Assim, bichos menores que vivem nas árvores, como as preguiças e os macacos-bugios (ou guariba), satisfazem as onças durante os alagamentos. No fim das contas, o ambiente de Mamirauá e a dieta que as onças têm ali parecem fazer muito bem. A quantidade de animais da espécie na reserva floresceu: Ramalho estima que existam dez onças a cada 100 quilômetros quadrados em Mamirauá, enquanto em outras partes da Amazônia a quantidade de onças para uma mesma área ficaria entre duas e quatro.

“Apesar de ser um ambiente difícil para se viver, é também muito produtivo. Quando a água seca, o barro com os nutrientes fertiliza o solo. Uma quantidade muito grande de espécies vivem na região”, diz Ramalho. Se hoje a população de onças é grande, o biólogo alerta que o cenário de conservação na área pode mudar rapidamente ao passo que as áreas protegidas sofrem degradação. No mês de março, o desmatamento na Amazônia foi o maior dos últimos seis anos, segundo dados do Deter, sistema de monitoramento de desmate do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Para Ramalho, o investimento em pesquisa na Amazônia deve ser contínuo para proteger a floresta. “Só assim teremos conhecimento para implementar estratégias de conservação”, afirma.