Operação em Coari, deduragens e interesses…

Têm duas coisas que são de conhecimento público. A primeira é o quanto fui ferrenha opositora de Adail Pinheiro e, a segunda, é o quanto tenho profundo respeito pelos órgãos de controle externo das administrações públicas. Tanto acredito, quanto escrevo – até porque só “gasto” palavras com aquilo que acredito – que homens públicos são falhos e o que faz a diferença é a fiscalização e a punição no caso de culpabilidade. Mas há coisas que me incomodam nessa questão de Coari e a Operação Patrinus do Ministério Púbico do Estado (MPE), e que me causam a mesma sensação de estranheza de grande parte das ações da Operação Lava Jato – aquele pé atrás próprio dos repórteres.

Por causa da minha formação familiar e profissional me incomoda ver o poder que passaram a ter os dedos-duros nesse País, também chamados de delatores, que ainda recebem “prêmios” pra dedurar os outros, a denominada delação premiada. No caso da minha formação familiar, o único prêmio dado pela minha saudosa mãe, cabocla semianalfabeta, mas com uma sabedoria que não se aprende no banco de escola, quando um dos doze filhos dedurava o irmão, era uma peia daquelas de ficar com lombo doído. “Tu vai apanhar porque, se tu tá dizendo a verdade, teu irmão fez coisa errada mas tu deixou, e ainda veio dedurar”, dizia Dona Iracildes, minha mãe, que ficaria horrorizada se estivesse viva e visse como palavra de dedo-duro nesse País se transformou na manifestação da mais pura verdade.

Se reportando agora à minha formação profissional, juristas e advogados com quem convivi nessa minha lida de repórter, costumavam falar a seguinte frase: “a testemunha é a prostituta das provas”. Pelo que entendi, eles queriam dizer, que as testemunhas não são confiáveis porque podem estar sendo pagas ou recebendo algum benefício para dar testemunho contra alguém. O dedo-duro nada mais é do que uma testemunha e, no caso das investigações no Brasil, uma testemunha que assume praticar corrupção, mas ainda é premiada por isso.

Dando apenas um exemplo, os irmãos Joesley e Wesley Batista, donos de 44 marcas empresariais – desde gêneros alimentícios até havaianas – assumiram praticar corrupção, apontaram o dedo sujo pra um monte de gente, inclusive pra Lula, foram premiados pela Lava Jato, continuam bilionários com direito a levar até o cachorrinho pra morar nos Estados Unidos.

No caso de Coari, empresários reconhecidamente de oposição ao prefeito, que tiveram interesses contrariados foram aqueles que fizeram delações ao MPE. Quatro vereadores, também de oposição a Adail Filho, chegaram inclusive a reconhecer, tanto no MPE, quanto em entrevista à Rede Amazônica, que recebiam “mensalinho” e, se recebiam, então extorquiam, né mesmo? Ou seja, assumem que embolsavam dinheiro público e estão livres e no exercício normal de suas funções de parlamentar, pagos também com dinheiro público? E essas são as testemunhas confiáveis?

Mas tem algo que aperreia ainda mais meu juízo. Toda vez que ouço um certo dono de rádio esculhambar alguém, eu sempre digo cá com meus botões: Tem algo de podre no reino da Dinamarca! O cara num fica sequer com a cara vermelha de vergonha de mostrar visivelmente que tem interesse na situação!? Em sua falação na rádio, misturou operação do MPE com pesquisa de opinião pública pra prefeito de Coari. Disse que os dados do Instituto Pontual, que mostrou Adail Filho em primeiro lugar, com uma intenção de voto de mais da metade dos eleitores e com uma aceitação pública de mais de 70% , não eram verdadeiros. Nessa mesma pesquisa, seu sobrinho está em terceiro lugar.

O empresário da comunicação disse que vai publicar uma pesquisa de intenção de voto em Coari, segundo ele, com “dados verdadeiros”, feita pela sua empresa – aquela mesma empresa que deu empate técnico entre Arthur Neto e Marcelo Ramos em 2016 e Arthur ganhou por mais de 124 mil votos de diferença, lembram? Num precisa nem ser vidente, pra antever que nessa pesquisa, seu sobrinho estará em primeiro lugar ou pelo menos próximo de Adail Filho.

E nos próximos dias esse vai ser assunto recorrente do dono de rádio que adora achincalhar pessoas e suas famílias, que tenta destruir pessoas, como fez com um funcionário do Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM), que persegue colegas jornalistas, ameaça e processa quando alguém de maneira apenas técnica ou jornalística, cita seu processo junto ao Ministério Público Federal (MPF). O mesmo processo, que segundo documentação que está no Radar, passou em brancas nuvens pelo MPE, quase foi arquivado e por interferência do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) foi repassado ao MPF.