Os recados de Adail

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Diz um ditado popular: “para quem sabe ler, pingo é letra”. Essa premissa da sabedoria popular é usada para os casos em que alguém quer dizer que há intenções por trás das palavras e foi esse dito popular que ficou batucando na minha cabeça quando li a entrevista do ex-prefeito do município de Coari, Adail Pinheiro, preso no Quartel de Cavalaria, desde fevereiro do ano passado, acusado de chefiar uma rede de exploração sexual de crianças e adolescentes naquela cidade. Sobre Adail pesam ainda várias acusações de crimes administrativos.

Na entrevista concedida pelo ex-prefeito ao jornal A Crítica, para quem sabe ler, alguém que passou anos convivendo com os caciques da política local e seus jogos de poder, os “pingos” são até mais do que letras, são verdadeiros recados de Adail Pinheiro. Mensagens veladas onde a figura do ex-governador e ex-prefeito Amazonino Mendes não passa de cortina de fumaça para atingir outros personagens nessa história. Com uma raiva contida, própria do universo político onde não há lugar para esse tipo de sentimento declarado, Adail demonstra estar se sentindo abandonado e traído.

Ele aponta para Amazonino, mas quer atingir Braga quando fala da campanha de 2006. Uma visível cobrança de fatura de uma eleição onde Adail já disse a interlocutores que fez de tudo – sabe lá o que é esse de tudo, né mesmo? – para Braga ser reeleito governador. Adail diz que deseja e apela para a quebra de sigilo de seus processos e, mesmo sem dizer uma palavra, declara publicamente: “Aí todo mundo vai ficar sabendo que não é só meu nome que está lá”.

E, no meio dos alvos de suas mensagens criptografadas, há “endereços” invisíveis a olho nu até mesmo de gente do Judiciário sobre quem, em confissões apenas sussurradas com pessoas próximas, Adail aponta como “integrantes de um círculo fechado de amigos íntimos a quem fazia todos os tipos de agrados” – que agrados seriam esses, hein gente?

No mesmo diapasão se diz perseguido pela imprensa local, sobre a qual já confidenciou para membros do seu grupo – e logicamente foi transmitido para as antenas do Radar – que enriqueceu muita gente. Adail não abriu a boca, mas mandou seu recado para certas figuras da mídia que posam de vestais da moral: “Como ousam falar de mim, se paguei milhões para esses caras?”

Para seu vice, agora prefeito de Coari, Igson Monteiro, o recado é mais contundente. A declaração de guerra não é velada. Ele o coloca como adversário político, dizendo que desde que ele (Igson Monteiro) assumiu tem agido como seu inimigo e perseguido os membros de seu grupo político. Para quem conhece Adail Pinheiro, com seu vice vem chumbo grosso! E o Radar captou que a entrevista de Adail Pinheiro deixou muita gente sem dormir e pedindo a tudo que é santo pra que esse texto não tenho novas edições e tudo fique apenas nos recados, com envelopes bem lacrados. (Any Margareth)