Os riscos diplomáticos do convite da Coreia do Norte ao presidente sul-coreano

O líder da Coreia do Norte, Kim Jon-un, convidou o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, a visitar Pyongyang, no que seria a primeira visita em mais de uma década envolvendo chefes de Estado dos dois países.

Mas o convite coloca Moon Jae-in em situação delicada, já que os Estados Unidos, um de seus principais aliados, enxergam com desconfiança a aproximação entre os dois países e as intenções de Kim Jon-un em melhorar a relação diplomática com a Coreia do Sul.

O convite para a visita a Pyongyang foi feita por meio de um bilhete escrito à mão e entregue pessoalmente por Kim Yo-jong, a influente irmã do líder norte-coreano, ao presidente sul-coreano, durante uma reunião no palácio presidencial de Seul, após a abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, sediados na cidade de PyeonChang.

O envio de uma delegação norte-coreana para competir nos jogos foi um forte gesto de aproximação. E as delegações das duas coreias marcharam juntas na abertura da Olimpíada, carregando uma bandeira com o mapa dos dois países unidos.

Quais os riscos diplomáticos do convite?

Mas o convite feito à Coreia do Sul pode causar embaraços a Moon Jae-in, já que ocorre após uma série de testes com mísseis realizados ao longo de 2017 pela Coreia do Norte e de ameaças trocadas entre Kim Jon-un e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Enquanto Coreia do Sul e Coreia do Norte se aproximam, a relação entre os EUA e o governo norte-coreano continua a se deteriorar.

Recentemente, em seu primeiro discurso sobre o “Estado da União”- fala anual do presidente americano a parlamentares, integrantes das Forças Armadas e ministros da Suprema Corte- Trump provocou a Coreia do Norte ao homenagear um desertor do regime.

Ji Seong-ho, que escapou da Coreia do Norte em 2006, ocupou um lugar de destaque na tribuna, perto de onde estava a primeira-dama Melania Trump, enquanto o presidente contou sua história aos congressistas. Trump ainda classificou o regime norte-coreano de “depravado” e prometeu “máxima pressão” contra o programa nuclear do país asiático.

Aliada próximo dos Estados Unidos, a Coreia do Sul fica em situação diplomática delicada com o governo norte-americano se aceitar o convite para visitar Pyongyang. Por outro lado, uma rejeição pode ser encarada como ofensiva pelos norte-coreanos.

Por enquanto, o presidente sul-coreano respondeu apenas que os dois países devem “realizar isso, criando condições adequadas (para a visita)”, conforme relato do porta-voz da Presidência da Coreia do Sul, Kim Eui-kyeom. Moon também pediu que a Coreia do Norte aceite dialogar com os Estados Unidos.

Segundo fontes da Casa Branca, o governo norte-americano está “preocupado” que Seul ceda à ofensiva diplomática da Coreia do Norte durante os Jogos Olímpicos de Inverno.

A irmã de Kim Jon-un esteve perto do vice-presidente norte-americano Mike Pence na cerimônia de abertura dos jogos- os dois foram colocados para sentar em fileiras próximas. Mas não foi marcada qualquer reunião para que ambos discutissem a relação entre Coreia do Norte e Estados Unidos.

Na sexta, Pence disse que os EUA não permitiriam que a “charada propagandística” da Coreia do Norte ocorresse “sem questionamentos no palco mundial”. “O mundo não pode fechar os olhos à opressão e às ameaças do regime de Kim”, disse o vice-presidente.

E qual a importância e influência de Kim Yo-jong?
Mensageira do convite ao presidente sul-coreano, Kim Yo-jong é uma das figuras mais influentes da Coreia do Norte. E certamente nenhuma mulher ocupa posição mais alta na hierarquia do governo.

“Ela é a principal guardiã de Kim Jong-un. Se alguém quer repassar uma mensagem (ao líder norte-coreano), ela é a pessoa que pode viabilizar isso”, explica Michael Madden, diretor do Observatório sobre a Coreia do Norte, do Instituto EUA-Coreia do Norte, baseado em Washington.

A irmã de Kim Jon-un se encarrega da agenda do governo de Pyongyang, o que a confere um papel chave. “Ela seria como o chefe de Gabinete da Casa Branca”, esclarece Michael Madden.

Além disso, Kim Yo-jong dirige o Departamento de Propaganda do regime, essencial para manter o culto à liderança de Kim Jon-un.

Ela gerencia, portanto, a imagem de Kim Jon-un junto à população. Acredita-se que a irmã do líder norte-coreano tem cerca de 30 anos.