Os verdadeiros patriotas estão morrendo

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Através do WhatsApp veio a notícia que transformou o último final de semana, já carregado de emoções fortes pra quem é cristão e vive a Páscoa com todas as dores do martírio e crucificação de Cristo, num dos mais difíceis da minha vida. Confesso, fiquei tão esgotada emocionalmente que não conseguia escrever. Só conseguia ficar ali prostrada tentando, muitas vezes inutilmente, levar a mente pra um lugar distante que me lembrasse dias felizes.

A notícia veio primeiro por um amigo e depois foi confirmada por um post nas redes sociais da vice-presidente do Sindicato dos Médicos, Patrícia Sicchar. “A Classe Médica do Amazonas amanheceu de luto! Perdemos três grandes guerreiros!”, comunicava Sicchar, terminando ainda a nota culpando o “governo inescrupuloso” pela morte dos seus amigos e companheiros de profissão, os médicos Altamir Bindá, Raimundo Ferreira e Renato Coimbra. Os três médicos, segundo a sindicalista, morreram na linha de frente do combate ao novo coronavírus.

Primeiro, me veio uma profunda tristeza como se essas pessoas fossem da minha família, porque de certa forma realmente são, raça humana na verdadeira expressão da palavra humanidade. Em plena Páscoa, estes homens deram o exemplo de Cristo, morrendo para salvar seus semelhantes. A estes sim devemos dar honrarias e fazer homenagens como verdadeiros patriotas.

Tão na moda nos tempos atuais por muitos que batem no peito e se dizem patriotas – virou até nome de partido político -, bom lembrar que a palavra patriota significa, “pessoa que ama sua pátria, que se esforça para ser útil, agindo em seu favor ou em sua defesa”.

E foi pensando nisso que me veio um segundo sentimento que me deixou prostrada neste final de semana, a raiva, algo que eu não sentia há muito tempo, já que tenho a consciência que é um sentimento que não contribui em nada e só faz mal pra quem sente.

Mas não tive como fugir desse sentimento menor diante da constatação de que, enquanto os verdadeiros patriotas lutam e morrem tentando salvar a Pátria, os patriotas de fachada, aqueles que na verdade pensam em si e não na Nação, boicotam o único “exército” que temos pra nos salvar, a comunidade médica e científica.

O Messias presidente dá voltinha nas ruas a passeio, aglomera gente, limpa o nariz com o braço e aperta mãos. O aclamado maior “patriota” do País, Messias Bolsonaro, chama pandemia de “gripezinha”, continua postando vídeo conta o isolamento social, desmobiliza pessoas pondo em risco a vida do povo que ele jurou defender e desrespeitando a Constituição que ele jurou honrar.

Seus asseclas fazem passeatazinhas – dentro do carro porque na rua nem pensar, né mesmo? – e colocam o Hino Nacional bem alto pra animar o “gado” a ir pro matadouro por eles, por seus estilos de vida e suas gordas contas bancárias.

Do alto de seus apartamentos de luxo – deve ser o que eles chamam de “isolamento vertical”-, os que dizem amar a Pátria usam a ignorância e a necessidade do povo pra manter o discurso de “normalidade”. E enquanto isso, os verdadeiros patriotas estão nos hospitais, lutando numa guerra em que até a vitória será sofrida por causa daqueles que não poderão ser salvos.

E canto agora o Hino Nacional para os verdadeiros patriotas, lembrando deles mais ainda quando diz a letra: “Verás que um filho teu não foge à luta. Nem teme, quem te adora, a própria morte. Terra adorada”.