Outubro Rosa: conheça a batalha contra a 2ª doença que mais mata mulheres no Amazonas

O Radar conversou sobre a doença com vítimas do câncer, um especialista e organizações sociais.
Foto: Ilustrativa

Sentada na entrada da FCecon (Fundação Centro de Oncologia do Amazonas) e comendo um saquinho de banana frita, após sua terceira sessão de quimioterapia, foi assim que Suany Lima, de 49 anos, começou a contar ao Radar a sua trajetória de luta contra o câncer de mama. A batalha contra a segunda doença que mais mata mulheres no Amazonas começou no final de 2020, no município de Maués, e segue na capital.

Ela é uma das 480 mulheres que descobriram a doença no Estado durante o ano passado, conforme aponta o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Apesar de ser o câncer mais frequente entre as mulheres do Brasil, muitas ainda não sabem como funciona o processo de prevenção e cuidado. Em 2021, a previsão é que mais de 400 mulheres sejam diagnosticadas com a doença.

Suany era uma delas. Ela também não conhecia as etapas para os exames preventivos e quase não realizava o autoexame. O alerta para a doença só aconteceu porque a filha viu umas marcas estranhas na região da mama direita dela, durante um banho.

“Eu estava tomando banho de porta aberta e a minha filha chamou atenção para a região do meu mamilo. Quando olhei com mais calma, percebi que ele estava com um aspecto muito estranho, como se tivesse sido ‘sugado’”, revelou.

Após isso, ela procurou um especialista no município localizado a 257 quilômetros de Manaus. E foi através de uma ultrassonografia mamária que o médico constatou algumas anomalias. Ele a orientou a fazer uma mamografia. Três meses depois de fazer o exame, ela descobriu que estava com câncer. No fim do ano passado, Suany veio a Manaus iniciar a luta contra a doença.

O processo de descoberta provocou um choque muito grande na amazonense.

“Fiquei mal, chorei bastante, mas depois pensei em caminhar em frente”, contou.

Suany em uma das vezes que precisou se medicar no pronto-socorro da FCecon.
Foto: arquivo pessoal

Cerca de 5 meses após a descoberta, ela fez a cirurgia para retirada das células malignas que causam o câncer. Atualmente, Suany realiza sessões de quimioterapia para filtrar as células malignas que podem estar circulando em sua corrente sanguínea.

“As sessões de quimioterapia começaram bem tranquilas, só a partir da terceira que começou a me deixar abatida. Fico enjoada e cansada”, revelou ao Radar.

E foi em uma dessas sessões que a reportagem do Radar esbarrou na história de luta e superação de Suany. Agora, no processo pós operatório e no estágio de quimioterapias, ela ressalta a importância de ter descoberto a doença em um estágio reversível.

“Fico feliz de ter dado certo. Não vejo a hora de voltar para a minha cidade, minha casa. E que meu caso sirva de alerta para outras mulheres. Se cuidem! O autoexame é simples e salva vidas!”, pontuou.

Mesmo após as sessões de quimioterapia, Suany deverá fazer um acompanhamento de cinco anos para averiguar se a doença não vai se alastrar por outros órgãos. 
Foto: arquivo pessoal

Além dela, centenas de mulheres lutam diariamente contra essa doença que, apesar de muito comentada, não fica muito clara na cabeça da população feminina, tendo em vista que muitas pensam que o processo de descoberta só é feito quando está em estágio avançado.

Como o câncer se desenvolve

Na realidade, o câncer de mama possui estágios, que vão se acentuando ao longo do tempo e causando mais riscos à mama e à vida.

Infográfico: Radar Amazônico

 

Além disso, muitas não sabem onde fazer os exames e como funcionam os diagnósticos. Nesse sentido, o Radar conversou com o médico mastologista e diretor-presidente da FCecon, Gerson Mourão. Antes de citar os processos nas unidades de saúde, ele destacou a importância do autoexame.

O Radar esteve na FCecon para conversar com Gerson Mourão, diretor da fundação há quatro anos.
Foto: Geovane Leite/ Radar Amazônico

De acordo com o médico, é essa ação que vai ser responsável por toda a trajetória de diagnóstico e tratamento nas unidades de saúde municipais e na fundação.

“Assim que descobrir qualquer caroço, a mulher tem que ir ao médico, pois assim ela poderá descobrir o estágio do câncer e se curar”

 

O autoexame de mama é uma técnica de prevenção usada na tentativa de identificar estágios iniciais do câncer de mamas    /Foto: ilustrativa

O que fazer em caso de sintomas suspeitos

E para ter esse acompanhamento, após a descoberta de um nódulo ou aparência estranha da mama, Gerson Mourão diz que a mulher precisa realizar exames. Segundo ele, o processo funciona de maneira mais rápida e prática, diferente de alguns anos atrás quando a mulher chegava a esperar em torno de oito meses para conseguir fazer todo o processo de encaminhamento  até o atendimento na FCecon. Atualmente, a mulher pode fazer o exame de mamografia em diversas policlínicas municipais.

“A mulher não fica mais ‘perdida’ dentro do sistema de saúde. Ela encontra um caroço, procura um médico das policlínicas da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), em seguida, o especialista solicita uma mamografia. Caso não consiga identificar a complexidade para realizar a biópsia, ele encaminha o caso à fundação”, explica.

Foto: Geovane Leite/ Radar Amazônico

Após a mulher chegar à FCecon, ela passa por uma triagem interna com as chamadas “enfermeiras navegadoras”. Essas profissionais são responsáveis por acompanhar o processo de exames da paciente na fundação e, em torno de 20 dias, as pacientes conseguem realizar os exames necessários para iniciar o tratamento.

Mulheres em superação 

As mulheres, que conseguem descobrir a doença e começam a se tratar, passam por uma série de situações que comprometem a saúde psicológica, como o processo de descoberta, aceitação e a mudança na autoestima, principalmente, quando elas começam a perder o cabelo e, em casos mais sérios, retiram a mama.

E foi pensando nessa situação de vulnerabilidade emocional, que algumas mulheres que sofreram com a retirada da mama criaram, em 2009, a Organização Não Governamental (ONG) Grupo de Apoio às Mulheres Mastectomizadas da Amazônia. A ONG busca desenvolver um trabalho de apoio e reabilitação (física, estética e emocional).

“Nosso objetivo é resgatar a esperança, qualidade de vida e dignidade através de atividades lúdicas, palestras, eventos e campanhas de mobilização”, revelam as organizadoras.

As participantes do grupo buscam dar apoio a outras mulheres através do compartilhamento de experiências.                    /Foto: arquivo pessoal/Gama

Cláudia Alencar de 57 anos, uma das participantes que está em processo final de tratamento, informou que algumas das atividades realizadas na entidade são: criação de banco de perucas e lenços para resgatar a autoestima de pacientes em tratamento de Câncer; promoção de bazar para auxiliar a renda da ONG e para ajudar pacientes em situação de vulnerabilidade; e campanhas de mobilização e atividades esportivas e culturais para destacar o tema.

Atualmente, Claudia realiza palestras de apoio e alerta às mulheres da capital e do interior.            Foto: arquivo pessoal

A Gamma fica localizada na Rua Francisco Orellana, no bairro Dom Pedro. Quem quiser apoiar a causa, pode realizar doações através do pix (transferência instantânea): 16.776.160/0001-67 (CNPJ) ou se voluntariando indo à sede da ONG.

Alerta e prevenção

A previsão do Inca é que 450 novos casos sejam diagnosticados no Amazonas somente em 2021. Por isso, o diretor-presidente da FCecon reforça o alerta para que as mulheres passem a ter o hábito de realizar o autoexame. Em caso de descoberta de algum nódulo, que elas procurem imediatamente atendimento médico. Quanto antes descobrir, mais chances de sobreviver.

A doença também pode ser prevenida através da realização de atividades físicas para manter o peso corporal saudável, redução no consumo de bebidas alcoólicas e, no caso das mães, manter a amamentação de forma exclusiva até o 6° mês de vida do bebê. Essas atitudes podem salvar vidas. O Inca ressalta que 28% dos casos podem ser evitados através de hábitos de vida saudáveis.