Pandemia da crueldade: um dos textos mais difíceis de escrever da minha vida

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Foto: Reprodução

Se alguém puder, quer me dizer por favor, como pode ofender e enraivecer alguém cruzes fincadas na areia de uma praia pra homenagear pessoas que eram importantes e amadas por suas famílias e amigos e que morreram de Covid-19? A que nível de crueldade e falta de respeito com seu semelhante chega um indivíduo que vai até o local e arranca as cruzes? Como pode essa onda de monstruosidade ter se abatido sobre o Brasil?

Essas são perguntas que nunca querem calar na minha cabeça, durante esses dias de pandemia, em que nós que trabalhamos com a notícia nos deparamos com palavras e atos terríveis demais e até inimagináveis de se conceber em outros lugares do mundo, que dirá no Brasil, esse país cantado em verso e prosa pelo mundo por seu povo alegre, gentil e amoroso. Como ainda não perdi a capacidade de me indignar, em muitos momentos, me pego entre a tristeza desoladora e a raiva que cega.

No dia 10 de junho, membros da Organização Não Governamental Rio de Paz, abriram 100 covas rasas nas areias da praia de Copacabana, com cruzes fincadas, junto com bandeiras do Brasil como forma de homenagear os cidadãos deste país que morreram por Covid-19 e cobrar mais ações dos governos para evitar mais mortes. Esse é um ato de protesto como outros semelhantes que a ONG já realizou, como por exemplo, fincar as mesmas cruzes na praia em respeito e solidariedade às famílias que perderam parentes vítimas da violência policial.

Mas, desta vez, na quinta-feira (11), surgiu uma aberração, – me nego a chamar aquilo de gente – um infeliz ser das trevas, velho até na alma, com certeza infeliz e mal amado, para derrubar as cruzes como se elas significassem um desrespeito ao Messias que eles idolatram – nem lembram que idolatria é pecado e eles se dizem cristão – o presidente Bolsonaro que passou – e ainda passa – o período de pandemia boicotando todas as ações para conter os níveis de infecção pela Covid-19, passou todo esse tempo fazendo campanha contra o isolamento social, incentivando pessoas a irem às ruas matar seus semelhantes, infectando os outros com o coronavírus ou se contaminando com o vírus.

Agora que o Brasil já atingiu mais de 40 mil mortos, Messias Bolsonaro, num ato indescritível de falta de respeito com os mortos e desumanidade com suas famílias, além de nunca ter feito nenhuma manifestação de consolo aos parentes e amigos desses cidadãos brasileiros, ainda quer tratá-los com se fossem serem invisíveis, que nunca existiram, números de uma estatística de mortes por Covid-19 que ele trata como mentirosos, em sua cabeça doentia, mais uma teoria da conspiração criada pela imprensa que ele tanto odeia por não respaldar suas mentiras.

Voltando nosso olhar de volta para as cruzes da praia de Copacabana, por lá passava Marcio Antônio do Nascimento Silva, 55 anos, que perdeu o filho de 25 anos, vítima de Covid-19, no dia 18 de abril. O homem saiu ficando as cruzes de volta nos lugares e, com a voz embargada de dor e revolta, gritava: “Meu filho morreu com 25 anos. Ele era saudável. Respeitem a dor das pessoas. Respeitem, grupo de fascistas”.

E o que me restou foi me unir a ele na tristeza e na revolta, em mais um dia da pandemia de crueldade de um Brasil que eu nunca pensei que iria existir.