Pantanal da novela da Globo é mais seco e menos verde que o da Manchete dos anos 90

Foto: divulgação

O Pantanal voltou ao horário nobre em março, quando estreiou a nova edição da novela, um clássico dos anos 1990, agora feita pela TV Globo. A história de Juma Marruá, Jove e José Leôncio foi ao ar pela primeira vez na TV Manchete há 32 anos e fez um enorme sucesso.

A nova edição conta mais uma vez essa história, com um novo elenco – mas não foram só os atores que mudaram. O Pantanal, que é a maior planície alagada do mundo, vai aparecer mais seco na Globo do que na Manchete.

“Eu nunca tinha visto tão seco assim”, diz a bióloga Edna Scremin-Dias, que é professora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e trabalha ali desde 1982.

Ela conta que os meses de janeiro e fevereiro são época da cheia e que os campos do Passo do Lontra, região que ela mais frequenta, ao sul, deveriam estar alagados e salpicados de lagoas.

“As lagoas estão secas em pleno março, quando o pico da seca costuma ser em julho, agosto. A maioria dos campos não alagaram.”

Ela também tomou um susto ao ver o rio Abobral ficar sem água. “O rio está parcialmente interrompido. Já tinha visto as águas baixas, mas, desse jeito, foi a primeira vez.”

Dados e imagens de satélite mostram que a superfície coberta pela água está diminuindo significativamente no Pantanal.

 

Ilustração

A imagem acima à esquerda mostra em diferentes tons de azul as partes do Pantanal que estavam em algum momento cobertas por água (sua área inundada) em 1990, quando a novela foi ao ar pela primeira vez.

À direita, a área inundada em 2020 – ano mais recente do monitoramento feito pelo projeto MapBiomas.

A iniciativa, uma cooperação entre universidades, empresas e ONGs, mapeia as mudanças no uso do solo no Brasil a partir da análise computadorizada de imagens de satélite.

Esses dados mostram que a média histórica da área inundada do Pantanal caiu 26% nos últimos 30 anos.

A média foi calculada pela BBC News Brasil com base nos dados da série histórica do MapBiomas, que começa em 1985.

Foi levada em conta a soma da área coberta por rios e lagoas e também os campos alagados e pântanos. Os dois juntos representam a área inundada do Pantanal.

Eduardo Rosa, responsável no MapBiomas pelo monitoramento do Pantanal, explica que analisar essa área de inundação toda, em vez de apenas um dos dois elementos sozinhos, mostra melhor como a superfície de água variou na região.

Por sua vez, a escolha pela média amenizou as oscilações anuais da área de inundação que são naturais do ciclo do Pantanal.

Há anos em que ele enche mais e em outros, menos. Por isso, comparar dois anos isolados não reflete o quanto o Pantanal perdeu de água ao longo desse tempo.

Mas a tendência de queda fica clara na evolução tanto da área de inundação total quanto da média ao longo dos últimos 30 anos.

“A água devolve a vida ao Pantanal. A fauna e a flora se desenvolvem, se renovam, mas o Pantanal alaga cada vez menos”, diz Rosa.

Ao mesmo tempo que a área máxima coberta pela água registrada a cada ano está diminuindo, a área mínima também está ficando cada vez menor.

Em alguns dos anos mais recentes no gráfico acima, o nível máximo de inundação chegou a ficar abaixo do mínimo registrado no começo dos anos 1990.

O rio Paraguai atingiu em outubro do ano passado o segundo menor nível em 121 anos de medição na cidade de Ladário, no Mato Grosso do Sul – esse índice tem inclusive nome próprio: régua de Ladário.

As cheias também estão ficando mais curtas, diz Felipe Dias, diretor-executivo do Instituto SOS Pantanal, uma organização sem fins lucrativos dedicada à proteção do bioma.

“No passado, o Pantanal ficava três, quatro, até cinco meses inundado, hoje diminuiu para um, dois meses”, afirma Dias.

Isso é especialmente crítico em um ecossistema que tem sua essência nesse vai-e-vem das águas – e que depende disso para sua preservação.

A água tem no Pantanal um papel que vai além de regenerar o ecossistema. A inundação também é uma barreira natural para o homem.

As áreas que ficam alagadas por muito tempo não servem para a pecuária ou a agricultura e mantêm essas atividades econômicas nas bordas da região.

Um Pantanal mais seco é, portanto, um Pantanal mais propício à expansão da agropecuária – e também mais vulnerável ao desmatamento e aos incêndios, que causaram em 2020 a maior tragédia ambiental em décadas, quando 30% do Pantanal queimou.

Mudança na cobertura do solo no Pantanal entre 1990 e 2020

A imagem acima à esquerda mostra em amarelo a área do Pantanal que era ocupada pelo homem em 1990, ao lado da mesma imagem em 2020.

É possível ver o avanço do homem sobre a natureza no Pantanal.

Embora o Pantanal seja considerado um dos biomas mais conservados do país, Felipe Dias, da SOS Pantanal, ressalta que a área desmatada no Pantanal dobrou nos últimos 30 anos.

“Os 16% que temos hoje eram 8% nos anos 1990”, afirma Dias.

Desmatamento inclui aqui não só árvores derrubadas, mas também os lugares onde a grama nativa dos campos da região foi substituída por outra mais propícia para a criação de gado.

O índice está estacionado mais ou menos neste patamar nos últimos dez anos, diz o pesquisador, mas isso deve mudar porque a última cheia do Pantanal foi há quatro anos.

“Com esta seca dos últimos anos, acredito que o desmatamento voltou a aumentar. Estão plantando muitas plantas exóticas no lugar das nativas, e a soja, que ainda está fora dos limites do pantanal, está chegando perto das bordas”, avalia Dias.

A água que abastece o Pantanal

Para entender o que está acontecendo no Pantanal, os cientistas dizem que é preciso olhar para fora dele, especialmente para a Amazônia e o Cerrado, de onde vem a maioria da água que alaga o Pantanal.

“Os níveis de chuva são baixos no Pantanal, de 70% a 80% da água vem de fora”, afirma Dias – e tem chegado menos água ali.

Eduardo Rosa, do MapBiomas, aponta que um dos motivos está nos rios que descem do planalto do Cerrado.

“Diminuiu a quantidade de água que eles trazem porque teve uma perda muito grande de vegetação no planalto, e isso deixa os rios assoreados. Houve muito rio e nascente que passaram por cima para fazer campo e pasto”, diz Rosa.

Outra parte da água chega ao Pantanal pelo ar. Ela é lançada no ar pelas árvores da Amazônia e é carregada pelos ventos, formando um corredor de umidade conhecido como rio voador, que passa sobre o Pantanal a caminho do sul do Brasil.

Os sinais não são bons também nesse caso, diz a meteorologista Renata Lisbonati dos Santos, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordena o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais.

A pesquisadora destaca que a umidade do ar no Pantanal caiu 25% desde 1980.

“Vários estudos apontam que o desmatamento na Amazônia alterou o ciclo de água da floresta e afetou esse fluxo de umidade. Pode estar vindo menos umidade ou essa umidade pode estar sendo direcionada para outro lugar”, afirma a cientista.

Por outro lado, tudo isso pode ser parte do ciclo natural do Pantanal.

Enquanto os monitoramentos mais modernos datam dos anos 1980, os dados da régua de Ladário percorrem mais de um século.

Eles mostram que já houve períodos de seca tão intensa quanto agora – o último deles na década de 1960.

Mas tem uma diferença importante aí: o clima mudou nos últimos anos. O Pantanal ficou não só mais seco, mas também mais quente

Lisbonati aponta que a temperatura média na região aumentou pouco mais de 2ºC nos últimos 30 anos. “Foi mais do que a média global”, diz a meteorologista, “mas a gente ainda não sabe o porquê disso”.

Ao mesmo tempo, as chuvas estão ficando mais esparsas e intensas, o que não é ideal. Porque o calor faz mais água evaporar do solo, e para que ele volte a alagar as chuvas precisam ser mais constantes.

“Se tem uma chuva hoje e outra só daqui a 20 dias, vai demorar a encharcar ou nem chega a isso”, diz Felipe Dias.

Assim, tudo vai ficando mais seco – e, a cada pedaço que seca, o Pantanal perde um pouco daquilo que faz dele o Pantanal.