Pegar Covid duas ou mais vezes ao ano pode ser comum com a ômicron, indica estudo; especialistas analisam

Homem tem amostra de saliva coletada para teste de Covid-19 em Pequim, na China, na segunda-feira (16). — Foto: Noel Celis / AFP

Ter Covid uma, duas ou até três vezes ao ano pode ser uma realidade concreta para pessoas que seguirem expostas sem barreiras à variante ômicron e suas subvariantes. O cenário é traçado por especialistas que conduziram um estudo na África do Sul e confirmado também pela experiência prática de médicos brasileiros.

Na África do Sul, pesquisadores da Universidade Stellenbosch analisaram quase 3 milhões de testes positivos de laboratório registrados até janeiro deste ano. Em artigo publicado na revista científica “Science”, eles apontam que reinfecções eram eventos raros, quase nulos, nas ondas provocadas pelas variantes beta e delta. Entretanto, depois de 31 de outubro de 2021, com o aparecimento da ômicron, a pesquisa localizou indivíduos que tiveram até três casos de reinfecção.

“A culpada foi a variante Ômicron que surgiu rapidamente, com múltiplas mutações na proteína spike. A principal vantagem dessa variante é sua capacidade de evitar a imunidade adquirida naturalmente (por infecção anterior)”, apontam os pesquisadores.

Nas ondas pré-ômicron da pandemia, casos de reinfecção eram raros e investigados: estudo na “The Lancet” associava as ocorrências pontuais à queda da imunidade após seis meses da imunidade adquirida. No recente estudo africano, as reinfecções foram verificadas em intervalos menores: 90 dias (três meses).

Total de infecções possíveis

Os dados da África encontram respaldo na experiência de médicos brasileiros que também se deparam com casos seguidos de reinfecção desde a chegada da variante.

“O número de vezes que uma pessoa pode ter Covid a gente ainda não sabe – provavelmente, infinitas vezes. Já tem pessoas com três, quatro infecções relatadas. Ou seja, não há imunidade duradoura na Covid – assim como para outras doenças respiratórias, como rinovírus”, explica Alberto Chebabo, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.
Alguns motivos tornam possível ter Covid várias vezes:

As vacinas que temos hoje nos protegem contra casos graves da Covid, mas não contra a infecção pelo coronavírus. Além das máscaras, uma possibilidade de defesa seriam as vacinas nasais, que ainda estão sendo testadas;
A variante ômicron, que é a dominante no Brasil, tem capacidade de escapar, em parte, à proteção que é concedida pelas vacinas.
Algumas subvariantes da ômicron, mais contagiosas, também passaram a circular, facilitando as reinfecções.

Mas nem tudo está perdido: se, de um lado, os casos de Covid mostram sinais de aumento, a tendência é de que não tenhamos uma onda de mortes e hospitalizações como as vistas nos últimos dois anos.

Um outro ponto é que as máscaras continuam sendo as principais aliadas para quem busca proteção contra a infecção no atual momento.

Ter Covid uma, duas ou até três vezes ao ano pode ser uma realidade concreta para pessoas que seguirem expostas sem barreiras à variante ômicron e suas subvariantes. O cenário é traçado por especialistas que conduziram um estudo na África do Sul e confirmado também pela experiência prática de médicos brasileiros ouvidos pelo g1.

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Na África do Sul, pesquisadores da Universidade Stellenbosch analisaram quase 3 milhões de testes positivos de laboratório registrados até janeiro deste ano. Em artigo publicado na revista científica “Science”, eles apontam que reinfecções eram eventos raros, quase nulos, nas ondas provocadas pelas variantes beta e delta. Entretanto, depois de 31 de outubro de 2021, com o aparecimento da ômicron, a pesquisa localizou indivíduos que tiveram até

três casos de reinfecção.

“A culpada foi a variante Ômicron que surgiu rapidamente, com múltiplas mutações na proteína spike. A principal vantagem dessa variante é sua capacidade de evitar a imunidade adquirida naturalmente (por infecção anterior)”, apontam os pesquisadores.

Nas ondas pré-ômicron da pandemia, casos de reinfecção eram raros e investigados: estudo na “The Lancet” associava as ocorrências pontuais à queda da imunidade após seis meses da imunidade adquirida. No recente estudo africano, as reinfecções foram verificadas em intervalos menores: 90 dias (três meses).

Total de infecções possíveis

Os dados da África encontram respaldo na experiência de médicos brasileiros que também se deparam com casos seguidos de reinfecção desde a chegada da variante.

“O número de vezes que uma pessoa pode ter Covid a gente ainda não sabe – provavelmente, infinitas vezes. Já tem pessoas com três, quatro infecções relatadas. Ou seja, não há imunidade duradoura na Covid – assim como para outras doenças respiratórias, como rinovírus”, explica Alberto Chebabo, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.
Alguns motivos tornam possível ter Covid várias vezes:

As vacinas que temos hoje nos protegem contra casos graves da Covid, mas não contra a infecção pelo coronavírus. Além das máscaras, uma possibilidade de defesa seriam as vacinas nasais, que ainda estão sendo testadas;
A variante ômicron, que é a dominante no Brasil, tem capacidade de escapar, em parte, à proteção que é concedida pelas vacinas.
Algumas subvariantes da ômicron, mais contagiosas, também passaram a circular, facilitando as reinfecções.

Mas nem tudo está perdido: se, de um lado, os casos de Covid mostram sinais de aumento, a tendência é de que não tenhamos uma onda de mortes e hospitalizações como as vistas nos últimos dois anos.

Um outro ponto é que as máscaras continuam sendo as principais aliadas para quem busca proteção contra a infecção no atual momento.

Novas subvariantes

Se, por um lado, é positivo que as vacinas continuem funcionando apesar do escape parcial das variantes, as “novas versões” do vírus não precisam ser capazes de driblá-las completamente para causar uma nova infecção.

As subvariantes da ômicron, por exemplo, têm se mostrado ainda mais contagiosas do que a sua versão inicial – que, por sua vez, já era mais contagiosa do que o vírus original, que apareceu em Wuhan em 2020.

Em Nova York, a subvariante BA.2.12.1, que já se tornou dominante no estado, é um desses casos. Mais recentemente, no dia 12, o Centro de Controle de Doenças da Europa (ECDC) classificou as subvariantes BA.4 e BA.5, detectadas na África do Sul no início do ano, como de preocupação.”A gente sabe que várias dessas subvariantes da ômicron têm escape imune em quem teve a infecção pela ômicron em janeiro. A BA.4 e BA.5, que estão circulando na África do Sul, e essa variante que está circulando nos Estados Unidos, BA2.12.1, são variantes que a gente sabe que têm escape imune”, lembra Alberto Chebabo, da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Para o médico, as novas ondas da doença trazidas pelas modificações no vírus verão menos casos graves, mas poderão trazer aumento de internação e óbitos em grupos mais suscetíveis, como idosos e pessoas imunodeprimidas. Isso porque quanto mais o vírus circula, maior é a chance de que chegue em uma pessoa que não criou uma boa resposta imune, mesmo com a vacina (como é o caso desses grupos).

Se a chance de internação e morte diminuiu, de forma geral, graças às vacinas, o impacto de se infectar (ou reinfectar) com o vírus nas novas ondas também não pode ser ignorado – porque mesmo um caso leve de Covid pode levar a um quadro de Covid longa, lembra Salmo Raskin, de Curitiba.

“Cada vez mais pessoas têm a Covid longa – se você tem uma, duas, três, quatro infecções, a chance de ter Covid longa é maior. Não estamos falando de um aumento exagerado do número de mortes, mas sim da qualidade de vida”, reforça.

Ethel Maciel, da Ufes, concorda. “O Brasil acabou dividindo em recuperados e mortos. Acaba ficando invisibilizado quem ficou com sequela”, lembra.

“A Covid é uma doença nova. A gente acabou criando uma correlação da Covid com a gripe – é uma doença ‘leve’, ‘a ômicron é mais leve’. E não é. É uma nova doença. A gente está vendo agora hepatite [em crianças], que [tem] uma das hipóteses [de causa] o Sars-CoV-2”, completa a pesquisadora.