Pesquisadores que previram a segunda onda de Covid-19 dizem que Prefeitura de Manaus está ignorando a terceira onda

Foto: Jonne Roriz/Bloomberg via Getty Images

Na última quarta-feira (3), o site de jornalismo independente The Intercept Brasil, de abrangência nacional e internacional, publicou uma matéria afirmando que a Prefeitura de Manaus, na figura do prefeito David Almeida (Avante), tem ignorado os alertas de pesquisadores sobre uma possível terceira onda da Covid-19 na capital. A publicação tem como base, o depoimento do biólogo Lucas Ferrante, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa).

Assinada por Sérgio Bispo, a matéria diz que no dia 21 de janeiro, o biólogo Lucas avisou pessoalmente David Almeida sobre o risco iminente de uma terceira onda de contaminação pela covid-19 na capital do Amazonas. Na oportunidade, o prefeito chegou a sinalizar que poderia adotar o lockdown para salvar vidas. Mas o discurso logo mudou, e o aviso do cientista foi ignorado.

Lucas e outros sete pesquisadores elaboraram um modelo epidemiológico a partir das taxas de transmissão da nova variante do vírus no Amazonas, da reinfecção por perda de imunidade apresentada em pacientes após seis meses e dos cenários de vacinação e isolamento social do estado. O estudo está em fase de revisão e aponta para uma terceira onda de contaminação mais longa e que, potencialmente, pode causar mais mortes do que a observada em 2020.

Logo após o encontro com Ferrante, em 21 de janeiro, o prefeito de Manaus, David Almeida, chegou a declarar que poderia adotar lockdown. Mas ao ser novamente questionado sobre o assunto, mudou de ideia e descartou a adoção das medidas indicadas pelos pesquisadores. “A prefeitura não pode falar em lockdown, essa é uma decisão do governador do Amazonas”, nos informou o prefeito via assessoria de imprensa.

Sobre a vacinação em massa, o argumento é que “não há vacina suficiente”. “A prefeitura está vacinando seguindo o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, elaborado pelo Ministério, no qual estão estabelecidos os grupos prioritários. Não há condições de falar sobre vacinação em massa apenas em Manaus porque não há vacina suficiente no mundo”.

Até esta quarta-feira, 2, o estado do Amazonas tinha vacinado um pouco mais de 63,5 mil pessoas, ou seja, 1,5% da população. O intercept questionou o governo do Estado sobre a possibilidade de adoção de um lockdown. A eles, responderam que “neste momento, o decreto de restrição de circulação de pessoas por um período de 24 horas, permitindo o funcionamento apenas de serviços essenciais em horários também restritos, foi considerada a melhor medida a ser adotada na fase atual de enfrentamento da pandemia”.

Sobre a previsão dos cientistas a respeito da terceira onda da pandemia, o governoignorou e não respondeu, declarando somente que “os esforços” estão voltados para o cenário atual, que mostra a presença da nova variante do vírus na maioria dos casos de novas infecções.

O Radar Amazônico entrou em contato com a Prefeitura Municipal de Manaus para saber o posicionamento do prefeito David diante da matéria do Intercept e como a prefeitura tem atuado para cessar as contaminações na capital.

Por meio de nota, a PMM disse, sem mencionar o posicionamento de David com relação ao Intercept, que tem investido na ampliação da rede de atenção básica, aumentado a estrutura de atendimento de casos confirmados e suspeitos de síndromes gripais e Covid-19 para 22 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e está recebendo, também, 108 médicos para o reforço no atendimento, em parceria com o Ministério da Saúde.

Sobre vacinação, o Executivo municipal afirmou que, em Manaus, de 19 a 31 de janeiro, eram 15.627 vacinados e de 31 de janeiro a 3 de fevereiro o total de imunizados saltou para 18.853, totalizando 34.480 pessoas vacinadas na capital. Segundo a prefeitura, Manaus possui dez postos de vacinação, e aguarda o repasse de mais vacinas do Ministério da Saúde para que mais pessoas de grupos prioritários possam ser vacinados.

Acertos

Ainda segundo apuração do Intercept, o estado teve em janeiro um aumento de 632% na média móvel de mortes por covid-19, maior aumento no país. Na última semana de 2020, a média diária de óbitos pela doença foi de 19 pessoas. No domingo, 31 de janeiro, foram 139 mortes. Exatamente como Ferrante e os pesquisadores previram – e avisaram – as autoridades.

No novo estudo, a previsão é ainda mais dura: uma terceira onda poderá se arrastar até 2022 e terá Manaus como epicentro mundial. “Se não for tomada nenhuma iniciativa, como ocorreu no passado, a terceira onda será mais longa e matará muito mais gente. A alternativa é lockdown com mais de 90% de isolamento e vacinação de toda população de Manaus”, diz Ferrante.

“Na época [da publicação do primeiro estudo], fomos desacreditados e nenhuma medida mais racional foi tomada. Acertamos data, hora e local da segunda onda”, reclama o cientista. Por questão de confidencialidade, o pesquisador não pode divulgar mais detalhes antes da publicação do novo artigo, mas adianta que uma das previsões é a alta taxa de internação. “As internações não serão muito maiores, mas ocorrerão de forma contínua e mais prolongada”, explicou em entrevista ao Intercept.

Fonte: The Intercept Brasil