Peste negra pode ter começado no Quirguistão, mostra análise de DNA

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A peste negra, pandemia que pode ter matado cerca de metade da população da Europa no século 14, provavelmente surgiu a partir de um surto no atual Quirguistão, na Ásia Central.

O DNA da bactéria causadora da doença foi identificado nos restos mortais de pessoas enterradas na região a partir do ano de 1338, menos de uma década antes que a peste negra chegasse ao território europeu.

O material genético do micróbio do Quirguistão é praticamente idêntico ao encontrado em vítimas da pestilência na Europa, mostra a pesquisa sobre o tema que acaba de sair na revista científica Nature. E as inscrições nos túmulos asiáticos sugerem que já se tratava de uma epidemia -boa parte das mortes dessa época no local parece ter sido causada pela infecção.

O trabalho foi coordenado por Maria Spyrou e Johannes Krause, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionista, na Alemanha, e Philip Slavin, da Universidade de Stirling (Reino Unido).

Combinando os novos dados genômicos com o que já se sabia sobre os aspectos arqueológicos e a história da peste negra, o estudo tem potencial para encerrar o longo debate sobre as origens da doença, considerada a pandemia mais devastadora da história humana.

“Fazia muito tempo que já sabíamos da existência desses cemitérios cristãos do Quirguistão, no qual foram achados materiais epigráficos [inscrições] maravilhosos”, contou Slavin em entrevista coletiva online.

No século 14, embora a região estivesse sob o domínio do Império Mongol, a comunidade cristã local adotava o idioma siríaco (próximo do aramaico, que era a língua nativa de Jesus e dos apóstolos) em seus textos.

A lápide de um dos túmulos, com a imagem de uma cruz, diz o seguinte: “Ano 1649 [equivalente a 1338 no nosso calendário], o Ano do Tigre [‘Bars’ na língua turca]. Este é o túmulo do fiel Sanmaq. Ele morreu de ‘mawtana’ [pestilência, em siríaco]”. Referências semelhantes aparecem em dois cemitérios contemporâneos na região do lago Issyk-Kul, perto das montanhas na atual fronteira com o Cazaquistão.

Essa pista já apontava para o território quirguiz como uma possível fonte da peste negra, cujos primeiros registros na Europa remontam a 1346, na região da Crimeia (hoje disputada pela Rússia e pela Ucrânia). Os genomas da bactéria Yersinia pestis encontrados nas tumbas cristãs pelos pesquisadores têm exatamente as características que se esperariam de um ancestral comum próximo das bactérias que começariam a dizimar os europeus poucos anos mais tarde.

De quebra, cepas muito parecidas do micróbio ainda circulam nas populações de roedores selvagens (marmotas) do Quirguistão. Os bichos são considerados o reservatório natural da bactéria -hoje em dia, seres humanos só são infectados quando entram em contato com os animais.

Se o lugar hoje pode parecer relativamente remoto e desconhecido, é importante lembrar que a situação durante o fim da Idade Média era muito diferente.

“Estamos falando de uma comunidade de mercadores que tinha conexões de longa distância com muitos lugares diferentes, a julgar pelos artefatos encontrados por arqueólogos na região”, lembra Slavin.

A lista inclui objetos oriundos das costas do Pacífico e do Mediterrâneo, da China (relativamente próxima dos cemitérios) e do Oriente Médio. E o próprio grupo cristão ao qual pertenciam os mortos, a Igreja Nestoriana, estava espalhada por uma área ampla da Eurásia, chegando até a Índia. A presença unificadora do Império Mongol também facilitava o comércio.

Ou seja, essas conexões podem muito bem ter facilitado o espalhamento do surto inicial rumo ao Ocidente. O momento exato em que a pandemia foi desencadeada, porém, é um pouco mais complicado de explicar.

“De certa maneira, é uma tempestade perfeita que reúne vários fatores casuais”, diz Johannes Krause. “Um elemento importante é que fazia vários séculos que uma epidemia de peste bubônica não afetava a Europa, o que significa que, no século 14, a bactéria passa a infectar uma população que não tinha defesas naturais contra ela.”

Outro fator central é, claro, a porquice dos europeus e outros povos de então. A principal forma de transmissão da doença era a picada das pulgas carregadas por ratos. Ou seja, cidades imundas e cheias de gente convivendo com ratos por causa da falta de higiene eram prato cheio para a disseminação da doença.

“Na verdade, as pulgas só acabavam sugando o sangue dos seres humanos quando os ratos morriam em peso. Ou seja, as pessoas eram só dano colateral causado por uma pandemia de roedores, em certo sentido”, explica Krause.

Os principais sinais da doença eram os chamados bubões, grandes inflamações dos nódulos linfáticos na virilha, pescoço e axilas. Os infectados tinham febre alta, vomitavam sangue e morriam em poucos dias. Embora casos esporádicos aconteçam até hoje, a imensa melhora nas condições de higiene e a existência de antibióticos acabaram com os surtos de peste bubônica, ao menos por enquanto.