“A piscina encheu de ratos, suas ideias não correspondem aos fatos”, diz Chico Preto sobre Braga

Seu nome é Marco Antonio Souza Ribeiro da Costa, mas tem gente que não ligará esse nome a pessoa. Se falar Chico Preto, seu nome político, todo mundo sabe quem é. Chico Preto teve três mandatos de vereador, foi presidente da Câmara Municipal de Manaus e está no seu segundo mandato de deputado estadual. Nessa legislatura, Chico Preto tem ocupado o cargo de líder da Maioria, uma função que significa lidar com nada menos que 21 dos 24 deputados do Legislativo Municipal – apenas três parlamentares são de oposição na Casa. Nesta entrevista ao Radar, Chico diz abdicar desse cargo para alçar voos maiores e sem trava na língua, responde todo tipo de questionamento:

Radar – O senhor disse que no ano de 2014 não estará mais na liderança da Maioria na ALE por conta de um quadro político onde não há mais espaço para Chico Preto e suas intenções eleitorais. Isso já está definido ou ainda vai pensar.

chico 1Chico Preto – Isso já está definido. Entrego algo que por mim já está noticiado. Por razões muito claras. Não tem bom senso eu exercer um cargo de líder de maioria, que é um cargo eminentemente governista nessas atuais condições. Quem tem um objetivo traçado de enfrentar a construção de um palanque para o Governo do Estado precisa ter a liberdade necessária para reconhecer os acertos e trabalhar em cima dos desafios que ainda precisam ser enfrentados. Na hora em que você é líder da bancada majoritária, em que você começa a entoar essa toada de vamos consertar isso, precisamos ser mais ousados naquilo, você pode criar algum desconforto, então antes de haver o desconforto, eu pretendo não criá-lo, porque na hora que crio, também posso sofrer o mesmo desconforto de chegarem pra ti e dizer: – olha Chico, saí aí cara, não está mais dando certo! Então, tendo essa noção é melhor eu nem sofrer por consequência, e nem criar o desconforto para os outros deputados que compõem a bancada.

Radar – O senhor tem falado de um pacto contra as drogas, que pacto é esse?

Chico Preto – A sociedade está ansiosa por um pacto, um pacto pela vida, pelo futuro, pelas famílias, de um assunto que tá aí e não adianta mais a gente negar, as crianças de seis a 12 anos, que estão entrando na fase tecnicamente definida como adolescência, estão tendo contato com a droga, estão consumindo, estão se tornando dependentes, e aí? Esse é um assunto não só de Governo Federal. O Governo Federal está tentando reagir. Mas esse é um assunto que bate às nossas portas no dia a dia, e como tal eu penso que é possível movimentar as engrenagens do Governo do Estado, os recursos que são do povo do Amazonas, para que nós construamos um pacto onde é imprescindível a participação de engrenagens da sociedade como as igrejas, que são aquelas engrenagens com maior poder de mobilização, sejam elas católicas e evangélicas, e que já até trabalham essa questão.

Radar – O que muda com esse pacto?

Chico Preto – A nossa atitude perante isso. Por que, qual é a nossa atitude hoje perante esse problema? Apenas diagnósticos, e a profilaxia? E a ação? O que nós estamos fazendo? O que nós estamos fazendo é incipiente. Precisamos resgatar isso com uma ação prática no dia a dia. Vamos ampliar o Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas), levar o Proerd pra dentro das igrejas, vamos ter a participação das igrejas de forma contínua, vamos abrir as escolas nos finais de semana e ter a droga como pauta principal, vamos reagir a isso. Há uma conjunto de ações que podem ser construídas, porém esse conjunto precisa vir desse debate que é fruto desse pacto, o que nos manda aqui é construir esse pacto e enfrentar isso. Vamos começar a construir ações que não podem se restringir a um seminário uma vez por ano, tem que ser diário, tem que ser contínuo.

Radar – O sr. pinta um quadro assustador…

Chico Preto – Mas é assustador mesmo. O que está acontecendo é reflexo de uma polícia federal que há 15 anos tem o mesmo efetivo no Amazonas. As fronteiras estão aí desguarnecidas, a droga passando, a polícia militar dando combate doméstico a essa questão, mas enxugando gelo, porque você não tem as fronteiras protegidas. E aí, quem é que grita? É o governador que tem que criar nesse assunto também, deixar um pouco de lado a política de interesses menores, não digo ilegítimos, mas menores, e ter a coragem de cobrar do Governo Federal não só a Zona Franca, ela é algo extremamente importantes, mas dizer que os anseios do Estado do Amazonas se resumem só a prorrogação do Pólo, me desculpe!

Radar – Mas, o governador Omar não poderia fazer isso?

chico 3Chico Preto – Espero que esteja fazendo! Espero! A contribuição do Omar para a segurança pública é fato. Omar teve coragem de enfrentar algo que os governos passados não tiveram a ousadia, ou foco para esse enfrentamento. Respondeu a uma grande ansiedade da população. O problema de segurança pública é dinâmico. Ele não encerra com o Ronda no Bairro, você tem respostas com o Ronda no Bairro, mas precisamos dar respostas dentro dessa questão da segurança pública para um capítulo chamado drogas, por que isso se não for trabalhado reflete na segurança pública, na quantidade de jovens que por precisarem da droga cometem crimes, furtos, uma bola de neve, enfrentar isso nos três elos da corrente, a polícia combatendo o tráfico, o estado e sociedade, comunidades terapêuticas, dando enfrentamento na questão do tratamento, mas aquilo que vem antes é que a gente deve conseguir enxergar que é a construção desse pacto. Eu não acredito mais no modelo clássico, vamos criar um bolsa isso, bolsa aquilo, isso é uma resposta formal. O que eu estou defendendo é que sejamos mais profundos, ainda que difícil, ainda que possa parecer utópico, mas a Ponte do Rio Negro, a Ponte de R$ 1 bilhão também foi utópica um dia. Por que a gente pode construir uma ponte de R$ 1 bilhão, que quem sabe poderia ter tido outro preço, e investirmos numa questão como essa ao longo dos anos. É uma demanda da sociedade, ainda que silenciosa porque não é toda família que tem a coragem de assumir que enfrenta isso, a maioria delas enfrenta calada.

Radar – Por que Chico Preto decidiu ser candidato ao governo, numa missão que parece quase impossível, com candidaturas como as de José Melo, Eduardo Braga, diante da possibilidade da candidatura de Rebeca Garcia…

Chico Preto – Por que tem que trazer uma pauta que vai além dessa pauta clássica que eu vejo como anunciada. Uma pauta de vergalhão, cimento, tijolo, de um governo como o de Braga, de grandes obras e de grandes escândalos. Eu acho que o Amazonas precisa mais, precisa humanizar sua pauta de discussão, e aí eu me proponho a discutir pautas como, e tenho sido presença constante, nos debates que envolvem as necessidades de pessoas com deficiência. Você sabia que 20% da nossa população tem deficiência? É um público que parece invisível, mas é um público de 20%! Você sabia que de cada dez famílias, quatro foram atingidas pelas drogas, isso significa 40%! Então, esse público que precisa também de obras, mas que precisa ser alcançado por políticas públicas que tenham a ver com alma, coração, sangue, questões humanas, não só questões que possibilitem a lembrança “ad aeternum” (para todo o sempre) de um governante, isso é de menor importância. E tanto isso é verdade que se eu me movesse só por mandato, eu disputava o cargo de deputado estadual. Mandato é necessário pra quem entende a política como um campo de influência sobre as decisões, e depois de 18 anos adquirindo experiência, fruto de boas experiências e de ruins, afinal o meu mundo não foi um mundo de Alice, foi de frustração de não ver aquilo que você acreditou sendo realizado, de você não ver ainda o Estado respondendo determinadas situações, mas tudo isso serviu para me dar serenidade, convicção, determinação, para entender que exatamente nesse momento é possível, é necessário que alguém paute uma discussão de problemas que até hoje ainda não foram alcançados pelas pautas das últimas disputas eleitorais.

Radar – Já teve um tempo em que Chico Preto tinha algo como se fosse uma placa de neon na testa escrito Eduardo Braga. Era olhar pro senhor, e lembrar de Braga, pensar no governo Braga, por que o distanciamento, o que deu errado?

chico 2Chico Preto – Te agradeço pela pergunta. Realmente, as pessoas olhavam pra mim e viam Eduardo porque, talvez o Chico Preto tenha sido, de todos do ABC (apelido dado ao trio de parlamentares aliados e defensores ferrenhos de Braga – Ari Moutinho, Bosco Saraiva e Chico Preto) o que defendia de forma mais intensa um conjunto de ideias, aquele se expôs mais, aquele que comprou verdadeiramente a briga. Quando um jovem, chamado Eduardo Braga, como diz a música do Cazuza, tinha um sonho de transformar o mundo, mas de repente as ideias não correspondem aos fatos, ainda parafraseando Cazuza. A piscina encheu de ratos, as idéias não corresponde aos fatos…E o que aproxima e distancia os homens são as atitudes, então as atitudes do Braga foram por um caminho que, na minha opinião, distinto daquilo que era o sonho, e que me moveu. Eu não sou culpado por ter acreditado, não posso carregar comigo a culpa de ter acreditado em algo que me movia, como jovem. Como diz o Renato Russo, não foi tempo perdido eu ter vivido isso, vivido essa frustração de ver um conjunto de ideias, um sonho, e quando tivemos oportunidade de realizar ter dado mais espaço aquilo que era conveniente, os acordos , as grandes obras, os grandes escândalos. Foi um governo de grandes escândalos

Radar – Mas, afinal qual foi à ideia que você queria ter visto acontecer e não aconteceu?

Chico Preto – Essa questão das drogas, por exemplo, não é de hoje, isso já me afligia lá atrás. Eu tenho esse problema dentro da minha casa. Esse problema é vivido pela minha família. Falo isso com muita serenidade porque é algo que me move, porque quando você sente na própria pele você age com mais convicção, né? E assim como a minha família, milhares de famílias amazonenses sentem isso. E quem tem a coragem, hoje de responder a isso?

Radar – E nesse afã de fazer mudanças porque não ser vice de Melo, por exemplo. Se ouviu especulações sobre isso. Para seus intentos essa possibilidade não surtiria efeito?

Chico Preto – Ninguém é candidato à vice, sou candidato ao Governo, procurando construir um conjunto de alianças, conversando…

Radar – Mas isso pode ser conversado, possível?

chico 4Chico Preto – Eu sou candidato ao Governo, acho que a minha contribuição para o meu povo é essa, obrigar os candidatos a trazerem uma pauta que fale com o coração, que fale da expectativa silenciosa da população. Não essa pauta que nos impõem, eleição após eleição. O Omar a bem da verdade inaugurou essa pauta quando falou de segurança pública porque segurança pública é algo etéreo, não é obra, segurança pública é remuneração, é concurso, é falar de essência, o Omar inaugurou um pouco disso e eu quero dar ampliação nisso, aliás adoraria ter o Omar como meu candidato ao senado. Eu digo ao Omar que uma chapa Chico Preto pro Governo e Omar pro Senado seria algo extremamente competitivo. Por ser novo, por ter conteúdo, por ter ousadia. Eu e o Omar pensamos de maneira bem parecida. Ainda que eu me veja obrigado a fazer essa bifurcação na nossa caminhada, mas nada impede PMN e PSD lá na frente, uma composição de uma pauta que eu acredito que o Omar está aí executando, mudando um pouco do conceito político, obra,obra,obra… A melhor obra é aquela exatamente de políticas públicas, como o viver melhor, que melhora a vida da pessoa com deficiência, e que não se pauta em vergalhão, cimento, grandes isso, grandes aquilo.

Radar – Mas há uma grita geral, de que Omar caminhará junto com Braga nessa eleição. Por que?

Chico Preto – Não sei. Pode até acontecer, vejo que essa situação é de todo possível. Mas, a origem de formação política do Omar e do Braga são coisas assim bem distintas. O Eduardo tem origem no partido da Ditadura, o partido que não discutia nada, que impunha tudo. O Omar vem de outro lance, vem de discussão, vem de debate, acho que tem uma diferença de essência muito grande, ainda que todos nós sejamos políticos, mas as essências são distintas.

Radar – Muito se fala também que Eduardo já ganhou, que essa eleição tem tudo pra ser de Braga. O que você acha disso?

Chico Preto – Se fosse assim não precisava mais ter eleição. Já ganhou é depois do segundo turno.

Radar – E o senhor dá como certo que haverá segundo turno?

chico 5Chico Preto – Acho que sim! E trabalho com essa perspectiva de enfrentar o segundo turno. Sei que hoje não estaria no segundo turno, tenho que correr atrás. Mas, pode ser que tenha um candidato tão ousado, tão determinado, tão empolgado por esse Amazonas melhor, quanto eu. Mais do que eu, não terá. Vou mostrar isso durante a campanha!