PMs são suspeitos de forjar prisão de inocente para aparecerem na TV

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Policial militar de SP concede entrevista para falar da prisão de suspeito de assassinato de jovem (em destaque) na zona leste de São Paulo, em março deste ano – Reprodução

De óculos escuros e fuzil pendurado ao peito, o capitão da PM explica à repórter de TV, em nova “entrevista exclusiva”, detalhes da prisão de um homem suspeito de ter estuprado e matado uma moça de 24 anos.

O principal indício era o reconhecimento por parte de outra vítima de estupro que, dias antes, teria sido violentada pelo mesmo homem, mas escapando com vida.

“O testemunho dela foi de suma importância para chegarmos à conclusão de que ele, realmente, pode ser o autor do estupro e do homicídio da Amanda. Nós precisamos coletar alguns indícios, algumas provas, para realmente ligá-lo ao crime, tendo em vista que ele não confessou ontem no DHPP o cometimento do homicídio e estupro da Amanda”, disse o capitão André Silva Rosa, referindo-se a Francisca Amanda Costa Silva, 24, morta em 29 de março, em São Mateus (zona leste de São Paulo).

As suspeitas ganharam força em maio deste ano, quando equipes do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) conseguiram chegar ao verdadeiro suspeito do assassinato de Francisca Amanda e, principalmente, quando a vítima que acusava Santos de estupro voltou atrás de seu reconhecimento e explicou os motivos de ter mentido.

Ela disse ter sido pressionada por policiais militares para acusá-lo porque, segundo os PMs, Santos seria o autor do estupro e morte de Amanda e, assim, tinha de ser “punido”, tinha que “pagar”, “porque era o certo”.

Para dar credibilidade à falsa versão, os PMs teriam orientado a moça até sobre o que deveria falar para convencer o delegado.

“Os policiais disseram para a declarante mencionar a tatuagem no reconhecimento, informando que o indivíduo tinha uma tatuagem do Corinthians, dizendo, ainda, que a declarante deveria também reconhecer um boné de cor preta com a inscrição ‘Argentina’ como sendo o boné utilizando pelo autor do crime do qual foi vítima”, diz trecho de documento da Justiça paulista que determina a soltura de Santos e a abertura de investigação por parte da Corregedoria da Polícia Militar.

Esses detalhes narrados pela vítima, em especial o da tatuagem no antebraço, além do reconhecimento, influenciaram os policiais civis a pedirem a prisão temporária de Santos em 31 de março deste ano. Ele foi solto, a pedido da própria polícia, em 18 de maio.

O novelo da história começou a ser desenrolado com a prisão em flagrante, em 25 de abril deste ano, do também morador de rua Fernando Domingos dos Santos Dantas, 30, sob a acusação de ter estuprado uma mulher de 36 anos na Cidade Líder, também na zona leste da capital.

A vítima contou aos policiais que, durante o crime, Dantas dizia frases do tipo “diz que você quer ser minha mulher”, “que quer morar comigo”.

Quando os policiais do DHPP tiveram acesso a essas informações, lembraram de que a vítima que acusava Santos tinha dado versão muito parecida, com frases similares, ao registrar o boletim de ocorrência, em 1º de março.

Ao ser chamada mais uma vez ao DHPP para falar sobre o assunto, essa vítima confessou ter mentido sobre Santos e contou sobre a pressão feita pelos policiais militares. Ela também reconheceu ser Fernando Dantas o autor do seu estupro.

Dantas, por sua vez, confessou aos policiais civis ter estuprado e matado Francisca Amanda, mas, negou ser o autor do ataque à vítima de 1º de março. Para policiais ouvidos pela Folha, não há dúvidas de que Dantas seja o autor dos três crimes.

Policiais civis e militares ouvidos pela reportagem afirmam não saber qual é o grau de envolvimento do capitão Silva Rosa no episódio —se teve participação direta na suposta fraude ou se apenas aproveitou a oportunidade para “ganhar mídia”, já que tem interesses políticos. Silva Rosa está afastado da corporação para concorrer a uma vaga a vereador na capital.

Para a família de Clayton Santos, o capitão foi o responsável pela prisão e articulou a propagação da notícia. Ele teria, inclusive, repassado uma foto de Santos a uma equipe da TV Record, imagem que foi veiculada (sem qualquer distorção) como sendo do possível autor da morte de Francisca Amanda.

A falsa acusação de estupro e a divulgação da foto de Santos pela TV quase provocaram a morte de Santos, segundo a família e polícia. Tão logo chegou à casa da irmã, após ser solto, em maio, ele foi levado por um grupo de criminosos para ser submetido ao tribunal do crime.

“Levaram ele para o barraco, e iriam matá-lo. Eu liguei para advogada, e contei que pegaram ele na rua, dizendo que para estuprador não tinha lei. Aí, ela foi lá, mostrou o alvará e a filmagem [do SBT], mostrando que era inocente. Ele iria morrer. O nome dele estava na lista para morrer.”

A advogada Bethânia Belarmino confirma. “A Polícia Militar foi irresponsável nesse caso e quase decretou a morte de um inocente. Eu entrei em contato com a Record inúmeras vezes, todas sem sucesso. Eles têm por obrigação dar uma nota falando da inocência do Clayton, com a mesma ênfase com que o condenaram sem provas”, afirmou ele

A família conta ainda que Santos teve passagens por furto e roubo, crimes praticados para sustentar o vício em drogas, mas não são do perfil dele crimes sexuais.

No último dia 25 de junho, o capitão Silva Rosa divulgou em suas redes sociais a nova prisão de Clayton Santos sob a suspeita de roubo. Ele e mais duas pessoas teriam atacado um casal de idosos, com uso de faca.

Na postagem, o PM criticou a decisão da Justiça que determinou a soltura dele no crime envolvendo a morte de Francisca Amanda. “Se tivesse na cadeia, hoje a família do casal de idosos não estaria chorando!”, publicou.

A equipe que prendeu Santos pertence à mesma área em que foi realizada a prisão de estupro.

Procurado pela Folha, o capitão Rosa disse não ter conhecimento sobre a instauração de IPM (inquérito policial militar). Mas diz que, se for intimado, vai dar todas as informações e está a disposição para dar todos os esclarecimentos que lhe forem possíveis.

“A ocorrência não é minha, mas de subordinados ao meu comando. Por este motivo fui o porta-voz no dia dos fatos no DHPP”, diz ele. “Desconheço pressão contra a vítima e ainda não fui informado sobre o IPM instaurado. Quanto ao teor da publicação nas minhas redes sociais, esclareço que o espaço permite a emissão de opinião pessoal”, finalizou.

À Folha, a TV Record informou ter divulgado informações oficiais. “A reportagem divulgou informações fornecidas pela polícia para vários veículos de comunicação sobre a prisão de um suspeito”, diz nota.

A Secretaria da Segurança Pública informou que, após receber a documentação do Poder Judiciário sobre o caso, a Polícia Militar imediatamente instaurou um IPM para apurar todas as circunstâncias relativas aos fatos.

“Comprovada qualquer irregularidade, os policiais envolvidos serão responsabilizados nos termos da lei”, finaliza a nota, que não informa quais são os policiais investigados no IPM.