PMs sem mandado prendem homem em casa sob suspeita de atirar ovos em bolsonaristas (ver vídeo)

Frame de vídeo mostra momento em que PMs sem mandato entram em apartamento e prendem morador sob suspeita de atirar ovos contra manifestantes bolsonaristas em Belo Horizonte - Reprodução/TV Folha

Frame de vídeo mostra momento em que PMs sem mandato entram em apartamento e prendem morador sob suspeita de atirar ovos contra manifestantes bolsonaristas em Belo Horizonte – Reprodução/TV Folha

Um morador de um prédio da região central de Belo Horizonte foi preso pela Polícia Militar de Minas Gerais dentro de casa e sem mandado judicial por suspeita de atirar ovos contra manifestantes bolsonaristas no último sábado (1º).

Um vídeo mostra o momento da prisão, que ocorre com a presença do deputado estadual Bernardo Bartolomeo Moreira (Novo-MG), conhecido como Bartô, apoiador do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O vídeo mostra que, na ação, pelo menos três policiais militares se posicionam dentro do apartamento.

Enquanto aguardava para prestar depoimento, chegou a ficar algemado a um banco.

Filipe, que mora no 11º andar de um prédio na avenida Afonso Pena, diz que os policiais chegaram à sua porta juntamente com o deputado sem nem mesmo terem tocado o interfone.

“Bateram na porta. Eu disse que não abriria. Vi pelo olho mágico que eles foram para outro apartamento. Decidi abrir a porta e chamá-los para entrar, mas avisei para o deputado ficar do lado de fora.”

Os policiais entraram e um deles, identificado como tenente Oliveira, começou a fazer perguntas a Filipe, conforme relata o analista. “Mostrei a casa toda para ele. Então, o policial me disse que o crime estava materializado e que eu seria levado. Que tinha testemunha.”

A partir desse momento, a namorada de Filipe, a estudante de odontologia Andreza Francis, 33, passa a filmar a ação policial. As imagens mostram o tenente pedindo de forma ríspida que Filipe entregasse o celular à namorada.

O analista falava ao telefone com uma amiga advogada, que queria saber o motivo da prisão. Filipe, a pedido da advogada, pergunta ao tenente o motivo pelo qual seria levado. O policial não responde e apenas repete “passa o telefone para ela”.

Um outro PM, identificado como sargento Vieira, aparece no vídeo. Ao ser algemado, o analista diz “tá machucando”. “Ponha as mãos para trás ou vai machucar”, diz um dos policiais. “Obedece a minha ordem”, afirma o tenente Oliveira.

Ao saírem, é possível ver Bartô à porta, juntamente com outros policiais. O parlamentar inicia discussão com a namorada de Filipe. Bartô diz que ouviu relatos de que ovos estavam sendo atirados da janela. Andreza responde: “Tem câmera. Não tem problema”. E afirma que pegará as imagens.

Uma outra moradora aparece e diz que “da outra vez” sabia que alguém do 11º andar também havia lançado ovos contra manifestantes pró-Bolsonaro. A mulher, porém, não afirma se tratar de Filipe ou Andreza.

Filipe relata que acompanhou a manifestação de sua janela, e que, em determinado momento, viu um grupo de pessoas apontando para cima. “Gritei fora Bolsonaro.” Logo em seguida, apareceram à sua porta o deputado e os policiais.

O analista disse ainda que, na abordagem dentro de sua casa, o tenente Oliveira afirmou ser advogado e ter pós-graduação. Filipe disse que o PM chegou a falar por telefone com sua amiga advogada, e que o tenente perguntou: “Você quer me ensinar a fazer o meu trabalho?”.

Segundo Filipe, o tenente Oliveira afirmou também que havia chegado uma ordem da central determinando sua prisão. No depoimento, o analista de segurança negou que alguém tenha lançado ovos contra a manifestação a partir de seu apartamento.

Folha acionou a Polícia Civil para questionar as condições nas quais Filipe aguardou para prestar depoimento no Centro de Flagrantes.

A resposta foi que a reportagem deveria procurar a Polícia Militar. A Folha também tentou ter acesso ao boletim de ocorrência que a PM fez na abordagem de Filipe dentro de sua residência. A corporação, no entanto, pediu que um email fosse enviado ao setor de comunicação, o que foi feito.

Em resposta, por meio de nota, a PM afirmou que “quanto ao fato consultado, a Polícia Militar de Minas Gerais, por intermédio do Comando de Policiamento da Capital, esclarece que foi instaurado um procedimento administrativo para verificar as circunstâncias que ensejaram a prisão em questão”.

Também em nota, o deputado Bartô afirmou que “durante a caminhada pacífica em comemoração ao Dia do Trabalho os manifestantes foram surpreendidos com atos de agressão. Ovos, sacos de água, fezes e outros objetos foram atirados de um prédio na avenida Afonso Pena, no centro de Belo Horizonte”.

O parlamentar disse ainda que a PM foi acionada para garantir a integridade física dos manifestantes e que “apenas acompanhou o trabalho dos policiais militares e as testemunhas com intuito de orientar e dar tranquilidade na ação”.