Poeta e escritor Paes Loureiro discute as dimensões do corpo em palestra

O corpo como instrumento que ultrapassa o seu valor biológico, tornando-se expressão humana nos vários campos sociais, como artes, cultura, política e religião, foi o tema da palestra do escritor e poeta paraense João de Jesus Paes Loureiro, nessa quarta-feira (20), no Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos (Icbeu), na avenida Joaquim Nabuco, Centro.

O evento foi realizado pelos programas de Pós-Graduação em Sociologia e de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura da Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com o apoio do Icbeu e da Prefeitura de Manaus, por meio da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult).

Loureiro citou exemplos, ao longo da História, para exemplificar como enxergamos e trabalhamos o corpo humano e como a sua fragmentação na cultura atual se reflete na fragmentação da justiça, ciência, tecnologia e o modo de enxergar a vida pela sociedade contemporânea.

“O corpo é a realidade mais concreta do ser humano, mas não apenas por aquilo que de concreto se vê. É uma complexidade formada por carne, osso, sangue circulando, alma, espírito, intuição, sensibilidade, todas essas coisas que constituem o corpo. O corpo é uma universalidade para as artes, não apenas para a dança, mas está presente na poesia, no teatro, nas celebrações, no amor, no misticismo, etc. É essa universalidade que quero tratar numa dimensão artística”, afirmou o poeta.

Para Loureiro, a expressão do corpo-arte se dá no corpo utilitário (biológico), se fundindo numa expressão semiótica, ressignificando os sentidos do mesmo, e exemplos disso podem ser encontrados na tatuagem, que ele classifica como um desnudamento do ser em busca de tornar invisível o não-ser.

“Lembremos da cantora Amy Winehouse, cujo destino escreveu em sua pele a tragédia de buscar uma felicidade cada vez mais infeliz. O seu corpo gravou a escritura fatal de sua vida, no pânico desesperado de amar sem ser amada. Estava escrito na pele por meio das tatuagens”, exemplificou.

Corpo digital e vida moderna

O poeta discorreu ainda sobre o corpo digital que, por meio de imagens, revela um desdobramento do narcisismo intercorrente com o desencantamento do corpo real. “A imagem digital tem autonomia, e parece um outro corpo se construindo, independente do modelo que é criado. O corpo virtual não tem rugas nem varizes, é idealizado na materialização do imaginário, o corpo-utopia que recusa a semelhança fiel”, explicou.

Já entre os indígenas, segundo o professor, o corpo e a pele são símiles da paisagem, que se integra a ela, mas que não é retratada nem reconhecida academicamente. “Há uma dificuldade de compreender a cultura amazônica porque não há estudo sobre a presença do imaginário e da oralidade, não há instrumental para analisar científica e academicamente isso. Dentro da universidade, a relação sempre é feita com o universal, o que muitos já fizeram, deixando de lado a originalidade que nós temos”, comentou.

O autor explicou ainda porque a fragmentação do homem é correlata à fragmentação da vida moderna. “Na fotografia e no cinema, os closes, que são os detalhes, demonstram a importância do mesmo porque o imaginário recompõe o todo. No entanto, não relacionamos o todo na fragmentação destes valores na sociedade”, afirmou.