Polícia de Minneapolis, acusada de racismo, enfrenta a ira da cidade após morte de negro

Foto: Stephen Maturen / AFP

No início de sua carreira, o chefe da polícia de Minneapolis, que é negro, processou seu próprio departamento, acusando a liderança de tolerar o racismo. Depois que assumiu o cargo, ele prometeu, como prioridade, restabelecer a relação com os moradores negros da cidade.

Mas o departamento, com longa história de acusações de abuso, se vê novamente sitiado depois de um vídeo mostrar um homem negro sufocando, sob o joelho de um policial branco, por pelo menos 10 minutos. Além disso, outros três oficiais, ao lado, não fazem nada, mesmo com a vítima, George Floy, de 46 anos, dizendo repetidas vezes que não consegue respirar.

– Quero que esses policiais sejam acusados de assassinato, porque foi exatamente isso que eles cometeram, assassinato contra meu irmão – disse à NBC Bridgett Floyd, irmã de George Floyd, que havia se mudado para Minneapolis havia cerca de cinco anos, vindo de Houston, sua cidade natal, por achar Minnesota um lugar acolhedor. – Tenho fé e acredito que a justiça será feita.

Medaria Arradondo, o chefe da polícia local, rapidamente demitiu todos os quatro homens e já na terça-feira pediu uma investigação do FBI, o que pode implicar que esses agentes tenham cometido um crime federal, já que o vídeo mostrou que o relato oficial da polícia sobre a prisão de Floyd tinha pouca semelhança com o que realmente ocorreu.

O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, questionou nesta quarta-feira “por que o homem que matou Floyd não está na prisão”, dizendo: “Se você ou eu tivéssemos feito isso, estaríamos atrás das grades.

E o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se referiu ao caso como “um evento muito, muito triste” e disse que “veria” se a polícia deveria ser processada. Em um tuíte ele classificou o episódio como “triste e trágico”.

Um novo vídeo pode descartar as alegações da polícia de que o homem, suspeito de tentar passar uma nota falsa de 20 dólares, resistiu à prisão. Em imagens feitas pelas câmeras de um restaurante localizado em frente ao local da prisão, ele aparece com algemas nas costas sem oferecer resistência à polícia.

– Não podemos ter dois sistemas legais, um para negros e outro para brancos – disse o advogado da família Benjamin Crump à NBC.

Protestos e vandalismo

Mas reprimir a raiva da comunidade tem sido um desafio. Centenas de manifestantes invadiram as ruas de Minneapolis pela segunda madrugada seguida, nesta quinta-feira, com policiais usando gás lacrimogêneo e disparando balas de borracha contra a multidão.

Imagens de televisão e nas redes sociais mostram ao menos uma empresa, uma loja de autopeças, em chamas, e pessoas carregando mercadorias de uma loja que havia sido vandalizada. Com o avanço da noite, outros locais foram incendiados. E o caos continuou na manhã desta quinta-feira. O Star Tribune postou um vídeo mostrando moradores jogando água em suas própria casas para impedir que pegassem fogo.

A polícia precisou formar uma barricada humana para evitar que os manifestantes pulassem a cerca ao redor da delegacia onde os agentes acusados de matar Floyd trabalhavam.

Um porta-voz da polícia disse aos repórteres que os protestos de quarta-feira não foram tão pacíficos e que uma pessoa foi morta a tiros, embora não esteja claro se a morte está diretamente relacionada aos protestos. Um suspeito foi detido.

– Esta noite foi uma noite diferente de protestos em relação à anterior – disse o porta-voz John Elder.

Em outros pontos da cidade, como o local onde aconteceu a detenção de Floyd, manifestantes se reuniram pacificamente para exigir “justiça”. Alguns manifestantes se reuniram na casa do policial que deteve Floyd e na casa do promotor local, segundo o The Star Tribune.

Os protestos também aconteceram em outras cidades dos Estados Unidos, como Memphis e Los Angeles, onde policiais enfrentaram manifestantes que haviam bloqueado a 101 Freeway no centro da cidade.

A morte de Floyd e a morte recente de Ahmaud Arbery, na Geórgia, também levaram a comparações com assassinatos anteriores envolvendo a polícia e negros, incluindo os de Eric Garner e Michael Brown.

O chefe Arradondo tem se esforçado para mudar as práticas do seu departamento. Queixas de uso excessivo da força contra policiais de Minneapolis se tornaram comuns, especialmente por negros. Um dos policiais envolvidos na morte de Floyd, um veterano de 19 anos na polícia local, identificado como Derek Chauvin, de 44 anos, teve várias queixas apresentadas contra ele, três das quais levaram a repreensões por sua linguagem e tom.

Chauvin atirou em um homem que estava tentando pegar a arma de um oficial em 2008, segundo a The Pioneer Press. Ele também esteve presente em outros dois tiroteios, um deles fatal, mas não ficou claro se ele disparou sua arma nesses casos, de acordo com a Communities United Against Police Brutality (Comunidades Unidas contra a Brutalidade da Polícia), uma organização local que defende a reforma do departamento.

Os negros representam cerca de 20% da população de Minneapolis, mas são mais sujeitos a serem enquadrados e presos, e a sofrerem tratamento com o uso de força do que os residentes brancos, segundo dados do Departamento de Polícia. E os negros representaram mais de 60% das vítimas nos tiroteios da polícia de Minneapolis entre o final de 2009 e maio de 2019.

A tensão entre a comunidade e a força de mais de 800 oficiais acontece em uma metrópole predominantemente branca e progressista, onde o prefeito branco discute abertamente o racismo sistêmico, o chefe de polícia é um negro que adota uma abordagem orientada para a comunidade e os moradores elegeram dois transexuais negros para um Conselho da Cidade que tomou medidas agressivas para conter a segregação racial.

No entanto, existe um profundo abismo entre a força policial da cidade, que também é predominantemente branca, e a comunidade, que parece aumentar a cada assassinato.

Houve o caso de Justine Ruszczyk, uma mulher branca que foi morta a tiros por um policial negro em 2017, e cuja família recebeu US $ 20 milhões em um acordo com a cidade três dias depois que o policial foi condenado por assassinato.

E a história de Thurman Blevins, um homem negro que implorou a dois policiais brancos que se aproximavam dele: “Por favor, não atirem em mim. Deixe-me em paz ”, em um encontro fatal registrado por câmeras, que levou a protestos em toda a cidade.

– A verdade é que não temos uma boa história – disse Jamar B. Nelson, de 41 anos, ativista comunitário de longa data. – A maior reclamação é que a comunidade sente que o Departamento de Polícia é racista, intolerante e indiferente à comunidade negra.

Apenas 1% das queixas contra policiais que foram julgadas desde 2012 resultaram em ações disciplinares, segundo registros da cidade.

O caso de George Floyd fez com que muitas personalidades do mundo da política, da mídia e do esporte voltassem a denunciar a violência injustificada da polícia contra os negros.

– É um lembrete trágico de que este não é um incidente isolado, é parte de um ciclo de injustiça sistemática que ainda persiste em nosso país – disse o ex-vice-presidente e candidato democrata à Presidência Joe Biden, que comparou o episódio à morte de Eric Garner, também negro, em Nova York, em 2014, após ser sufocado por policiais brancos que o detiveram sob a suspeita de vender cigarros contrabandeados.

O caso de Garner contribuiu para a ascensão do movimento de protesto “Black lives Matter” (“Vidas negras importam”).