PF apura quem se aproveitou do dinheiro público na Copa mais cara da história

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A imprensa inglesa foi cruel quando a Fifa escolheu Brasil, Rússia e Catar como sedes das Copas de 2014, 2018 e 2022. Foi além do simples despeito de o país não voltar a ser a capital mundial do futebol, depois de 1966. Para jornais, revistas, portais, rádios e tevês britânicos, os critérios foram simples. Governos corruptos, autonomia sem questionamento para a Fifa e imprensa fraca internacionalmente.

O tempo passou e, infelizmente, o diagnóstico está correto. E agora amargamente provado no caso do Brasil. A imprensa nacional cansou de denunciar que os estádios para a Copa do Mundo custaram caro demais. As obras faraônicas foram superfaturadas.

Números são vergonhosos

Os primeiros números apresentados para o Brasil à Fifa, em 2007, previam que o país gastaria US$ 1,1 bilhão, cerca de R$ 2,6 bilhões, na época, na construção dos estádios. E que esse dinheiro sairia ‘todo’ da iniciativa privada. Os custos chegaram a R$ 8,9 bilhões. Sendo que a iniciativa privada bancou 8% desse total. O resto, 92%, saíram das contas públicas. Dinheiro que deveria servir para a população. Tudo foi praticamente triplicado.

Estádios tiveram seu custo inicial desprezado. Subiram, de preço sem explicação convincente, sem fiscalização. Foi uma farra para os empreiteiros. O atraso nas obras acabou sendo o escudo para que tudo se tornasse mais caro. O Brasil soube que iria sediar o Mundial em 2007. E as obras efetivamente nos estádios começaram em 2010, 2011. Pressionado pelo tempo, o governo brasileiro deu tudo o que as empreiteiras exigiram.

Os abusos foram denunciados insistentemente. Mas os britânicos estavam dramaticamente corretos. Não houve a menor importância para o planeta. Jornalistas escreveram, provaram os abusos à toa.

A começar pelos elefantes brancos, arenas caríssimas que foram construídas sem a menor necessidade. Estádios modernos e menores poderiam estar em Manaus, Brasília, Natal e Cuiabá. Até mesmo a corrupta cúpula da Fifa ficou escandalizada com o que acontecia por aqui. Sem o menor disfarce.

“Nós aceitaríamos oito arenas. Foi o governo brasileiro que exigiu 12 novos estádios. Por uma questão de ajuste político”, alertou Joseph Blatter. O presidente da Fifa se referia justamente às quatro arenas que seriam subutilizadas.

Mas houve um incrível aumento no preço de todos os estádios. Não custa relembrar.

A previsão para a Arena Amazônia, por exemplo, era de R$ 515 milhões, saiu por R$ 669 milhões. 30% a mais. A Arena da Baixada, R$ 184,5 milhões. Terminou em R$ 326,7 milhões. 70% a mais. Arena de Dunas, R$ 350 milhões, saiu por R$ 400 milhões. 14,3% a mais. Fonte Nova. R$ 591 milhões. Custou R$ 690 milhões. 16,5% a mais.

Arena Pantanal. R$ 454 milhões. Pulou para R$ 650 milhões. Acréscimo de 43%. Arena Pernambuco. R$ 529 milhões. Custo final. R$ 533 milhões. Apenas 0,6% a mais. Beira Rio. Previstos R$ 130 milhões. Custo final R$ 350 milhões. Variação de 169%. Castelão, R$ 623 milhões. Custou menos: R$ 520 milhões. Menos 16%.

Mineirão, R$ 426 milhões. Custo final:R$ 695 milhões. Variação de 63,1%. Maracanã, previstos R$ 600 milhões. Custo final, R$ 1,050 bilhão. Variação de 75% a mais. Itaquerão, R$ 820 milhões. Custo real, R$ 1,2 bilhão. 46% a mais.

E finalmente, o estádio mais caro de todas as Copas do Mundo. O Mané Garrincha, de Brasília. Deveria sair por R$ 745 milhões. Custou nada menos do que R$ 1,4 bilhão. 87,8% a mais do que o previsto. Há quem garanta que o cálculo foi camarada. E somando as obras em torno da arena, o custo saltaria para R$ 1,9 bilhão.

A postura do governo brasileiro diante do superfaturamento foi de estranha cumplicidade. Simplesmente pagou, sem questionamento. E apenas implorou às empreiteiras que as arenas ficassem prontas para a Copa.

Lógico que muita gente se beneficiou com esse dinheiro a mais que o país desperdiçou.

Sete destas arenas foram construídas por empreiteiras que estão mergulhadas em denúncias na operação Lava-Jato. E com seus executivos principais presos, atrás das grades, como bandidos comuns.

A Odebrecht participou de quatro estádios. Dois deles, com exclusividade. A Arena Pernambuco e o Itaquerão. Além de estar presente na Fonte Nova, com a OAS, e no Maracanã com a Andrade Gutierrez. A OAS ficou sozinha com a arena de Natal. A Galvão Engenharia ficou com o Castelão, ao lado de Andrade Mendonça e BWA.

A Mendes Júnior ficou com a Arena Pantanal. A Andrade Gutierrez ficou com o Mané Garrincha, Beira-Rio e a Amazônia.

As denúncias sempre foram desmoralizantes por parte da imprensa. Demorou, mas a Polícia Federal teve liberdade para agir. E um ano depois, as falcatruas se tornaram públicas.

Executivos presos da Andrade Gutierrez aceitaram pagar uma multa de R$ 1 bilhão ao governo. Assumiram pagamento de propina formação de cartel em obras da Petrobrás, na Ferrovia Norte-Sul, em Angra 3. E, quem diria? Nas arenas da Copa do Mundo. Superfaturaram estádios, como jornalistas cansaram de escrever, gritar, antes, durante e logo depois do mundial. As arenas eram caríssimas. Os custos não se explicavam.

O ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB-RJ), e o senador, Edson Lobão (PMDB-MA) são acusados pela Andrade Gutierrez de facilitar a negociação na Copa do Mundo. As delações premiadas deverão atingir outras pessoas ligadas à organização do Mundial.

Com inédita liberdade, a Polícia Federal está trabalhando com profundidade. Investigando pessoas que eram intocáveis durante a Copa do Mundo. A cúpula da CBF e do Comitê Organizador Local, o então ministro do Esporte, Aldo Rebelo, ironizavam os questionamentos sobre o superfaturamento dos estádios. Acreditavam que iria ficar o ‘dito pelo não dito’. Até porque repórteres podem denunciar, mas não têm poder de polícia. E no Brasil, as investigações oficiais não costumavam ser profundas. Principalmente envolvendo o futebol.

Mas o efeito colateral da operação Lava Jato está indo muito além dos políticos tradicionais. Começa a atingir pessoas que acreditavam que a Copa do Mundo seria a fachada perfeita para roubar o país. Assim como há quem acredite que a Olimpíada também servirá para enriquecimento ilícito de muitos executivos.

Várias obras para a competição de 2016 estão atrasadas. O governo, como fez na Copa do Mundo, autorizou que tudo seja apressado. Não há como o Brasil não sediar os jogos no Rio. O superfaturamento é outra vez uma enorme tentação.

E não é que Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Mendes Júnior, envolvidas na operação Lava Jato, participam também das Olimpíadas?

Vale a pena publicar o ranking de faturamento das principais empreiteiras do país. É de 2013. O de 2014, ano da Copa do Mundo, não foi disponível. A fonte é a revista O Empreiteiro.

1 – Norberto Odebrecht (R$ 10,14 bilhões)
2 – Andrade Gutierrez (R$ 5,32 bilhões)
3 – OAS (R$ 5,13 bilhões)
4 – Camargo Corrêa (R$ 4,78 bilhões)
5 – Queiroz Galvão (R$ 4,68 bilhões)
6 – Galvão Engenharia (R$ 3,95 bilhões)
7 – Construcap (R$ 2,65 bilhões)
8 – MRV Engenharia (R$ 2,38 bilhões)
9 – Racional Engenharia (R$ 2,01 bilhões)
10 – A.R.G (R$ 1,88 bilhão)

Das 10 primeiras, sete estão sendo investigadas na operação Lava Jato.

Vale lembrar a inesquecível declaração de Ronaldo.

“Não se faz Copa com hospital.”

Mas com estádios superfaturados, também não.

Que o diga a Polícia Federal.

Os sorrisos de 2014 estão virando lágrimas em 2015…

Cosme Rímoli / R7