Professores do interior do AM denunciam ameaças de demissão por parte da Seduc por se recusarem a voltar às salas de aula

Os professores do interior do Amazonas, assim como os da capital, são contrários ao retorno das aulas presenciais antes da aplicação das duas doses da vacina contra a Covid-19. No município de Urucará (distante 260 km de Manaus) e Itacoatiara (a 270 km da capital), os profissionais da Educação denunciam que estão sendo ameaçados de demissão, caso não aceitem retornar para as salas de aula. Os professores temem contrair a Covid-19 antes de receberem a segunda dose da vacina, que somente será aplicada em agosto.

O anúncio do Governo do Amazonas em retornar às aulas presenciais de forma híbrida para essa terça-feira (19), pegou os professores e alunos de surpresa, considerando que a pandemia ainda não acabou e a maioria dos profissionais ainda não receberam sequer a primeira dose da vacina. Para justificar a volta às aulas, o Governo havia considerado o baixo número de casos no interior e a promessa de obedecer aos protocolos sanitários estabelecidos pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM).

De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pela FVS-AM, o município de Urucará que tem em torno de 16 mil habitantes registrou cinco novos casos de Covid-19 nas últimas 24h, evidenciando que a pandemia não acabou no município. Além disso, a professora do município, em denúncia ao Radar, relatou ainda que alguns professores não tomaram nem a primeira dose pois estão com Covid.

Ameaça de demissão

Em entrevista ao Radar, um dos profissionais de Educação do município, contou que um servidor da Secretaria Estadual de Educação (Seduc) esteve no município para fazer reuniões com o corpo pedagógico, e que chegou a ameaçar de demissão os professores que não aceitarem ministrar aulas de forma presencial.  “Ele disse que o professor que não tiver comorbidade e se recusar às aulas pode ser exonerado”.

Por tanto, os profissionais estão se sentindo obrigados a trabalharem de forma presencialmente, mesmo sem ter tomado a segunda dose da vacina. A fonte do Radar relatou ainda, que já recebeu a primeira dose da vacina, mas que outros colegas de profissão, não puderam ser vacinados porque testaram positivo para Covid-19.

Ela conta também que a escola não tem segurança sanitária para um retorno das aulas presenciais, “A nossa pia deveria ser colocada na entrada da escola, para que todos pudessem lavar as mãos ao chegar, mas a pia foi instalada dentro da escola bem perto de um bebedouro”, disse.

Alunos podem ficar sem auxílio dos professores

De acordo com o denunciante, nesta manhã (20), foi realizada uma reunião com os pais dos alunos, onde os servidores da Seduc distribuíram um termo para que os responsáveis autorizassem os alunos a retornarem às aulas. Caso os pais não autorizem os alunos a assistirem as aulas presenciais, os estudantes não iriam receber assistência dos professores de nenhuma forma.

Itacoatiara 

Em Itacoatiara os profissionais da Educação relataram que após se recusarem a voltar às aulas presencias, foram bloqueados em grupos de frequências e salas virtuais. Em nota, o Sindicato dos Professores e Pedagogos das Escolas Públicas de Manaus (Asprom Sindical) repudiou a ação truculenta por parte do Governo.

“O governo ameaça de realizar o desconto das faltas e de cancelar o contrato dos professores (as) não efetivos e dos que trabalham em regime de carga dobrada, demonstrando total falta de respeito a estes profissionais que tanto se dedicam à Educação e, que mesmo em tempo de pandemia, continuaram se empenhando para na realização das aulas remotas”.

Parintins

No município de Parintins (distante 369 km de Manaus), os pais e responsáveis de alunos também não concordam com o retorno das aulas presenciais, por lá a situação epidemiológica e ainda mais perigosa, o último boletim apontou uma morte nas últimas 24h e confirmou mais 13 casos de Covid-19.

Em uma carta direcionada ao secretário de Educação, Luís Fabian, os responsáveis pelos alunos se dizem contra ao retorno das atividades escolares semipresenciais “ Ainda não foi garantida a vacinação de 70% da população, a única forma de garantir com segurança, a imunidade coletiva, falta de testagem dos alunos que compareceram ao ensino presencial, a falta de transparência sobre a real situação da infraestrutura das escolas, para garantir a população que todas, sem exceção estarão de acordo com os protocolos de segurança”, diz trecho da carta.

O Radar entrou em contato com a Seduc para questionar o que aconteceria caso os professores se negassem a ministrar as aulas presenciais e se procede a denúncia de que os alunos ficarão sem assistência caso os estudantes não retornem às aulas, mas até o momento não obteve resposta.

Confira a carta na íntegra