Quando foi que morreu o super-herói que existia em você?

Herois

Nos últimos dias tenho me perguntado, quase que diariamente, o que aconteceu durante o curso da vida de certas pessoas para que elas tenham se transformado. Ainda lembro de um tempo, nas épocas da faculdade, ou dentro das redações de jornal, nas conversas lá no Bar do Armando, ou nos encontros em movimentos sociais, em que me quedava de profunda admiração por essas pessoas  – eu e mais uma turma de meninos de meninas que mal tinham acabado de sair da adolescência – ouvindo-as em silêncio, boquiaberta com o brilhantismo dessa gente, com o a intelectualidade, o profundo conhecimento da vida e a coragem de enfrentar quem estava no Poder. Aos nossos olhos, esses homens e mulheres beiravam a divindade. A gente olhava pra eles e via se materializar os super-heróis da nossa infância, com seus superpoderes a serviço do bem, da Justiça. E tínhamos fé no futuro por causa da certeza de que eles ainda estariam no Poder, ocupariam cargos públicos onde teriam instrumentos para defender os mais fracos, os oprimidos, os injustiçados.

E, como num final feliz de desenho animado ou de histórias em quadrinhos, eles venceram, ocuparam cadeiras na “sala de Justiça”, fazem parte da “Liga do Bem”, aquela que no enredo dessas histórias sempre vence o mal. São as “divindades”, “os semideuses” do Tribunal de Justiça do Estado, do Ministério Público, da Defensoria do Estado, do Tribunal de Contas, que com suas togas e capas enchem nossos olhos de imagens heroicas. Mas, de repente, como se nossos super-heróis tivessem entrado numa máquina de desmaterialização, a imagem tem se desfeito, dia após dia, com o silêncio obsequioso com os poderosos, com o impedimento constante de julgar e punir os maus, com um pavor impassível diante da “autoridade”.  E as “salas de Justiça” onde nossos super-heróis iriam fazer seus planos para salvar o planeta se transformaram em mero lugar pra tomar cafezinho, relaxar nas cadeiras acolchoadas, e contar sobre a compra de um novo “batmóvel” que custou mais do que um pobre mortal ganhará em toda a sua pobre vida, ou da aventura de férias por terras belas e exóticas. E dá vontade de perguntar a esses homens quando foi que “mataram” o super-herói que existia neles e será que não dava pra voltar, por um momento que seja, como numa “máquina do tempo”, para dias passados onde eles eram aqueles em que depositávamos a nossa confiança e admiração. Ou será que vamos ter que ver a morte das nossas crenças, onde super-heróis morrem de medo de bandidinhos medíocres, e se limitam a escrever uma história onde não passam de anti-heróis com uma mera vida mortal e sem sentido. (Any Margareth)