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Que Jesus Cristo é esse, deputado?

Foto: Reprodução

Confesso que num primeiro momento nem acreditei no que estava vendo mas depois entendi que se tivesse redes sociais – nesse caso sou antissocial – teria visto milhares de comportamentos iguais aos do deputado estadual João Luiz que “repudiou” e achou ofensivo o enredo da escola de samba Estação Primeira de Mangueira onde é feita uma analogia entre a perseguição, a prisão, o flagelo e a morte de Jesus Cristo e o martírio infligido a certos segmentos sociais no Brasil, como por exemplo, jovens negros, pobres e favelados. O enredo da escola de samba do Rio de Janeiro era “A Verdade Vos Fará Livre”, mas sempre me confundo e até soa melhor aos meus ouvidos e ao meu coração chamar de “Jesus da Gente”, uma expressão que está no samba enredo.

E o deputado evangélico não ficou sozinho em seu discurso feito da tribuna da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam) contra o enredo da Mangueira. Em coro, vários deputados estaduais levantaram a voz contra o desfile de Carnaval da campeã do ano passado. Quase ao mesmo tempo fiquei pensando cá com meus botões: será que vi o desfile de escola de samba errado? O que será que tanto ofendeu os deputados no enredo? Onde foi que eles não entenderam que era apenas uma metáfora (figura de linguagem que produz sentidos figurados por meio de comparações), algo parecido com as parábolas (narrativas dotadas de um conteúdo alegórico e de simples entendimento) que Cristo usava em suas pregações e sermões para transmitir ensinamentos?

E na Bíblia, em Gênesis, não está escrito que fomos criados a imagem e semelhança de Deus. Então por que jovens pobres perseguidos e martirizados não podem ser a imagem e semelhança de Jesus Cristo? E se Deus é onipresente, como diz a Bíblia, ele não pode analogamente estar na favela por qual motivo pastor? Não existe lugar nenhum onde Deus não pode entrar para ver o que está acontecendo. Deus vê tudo, até mesmo os segredos mais escondidos de nossos corações (Provérbios 15:3).

O Cristo no qual creio jamais se importaria em ser retratado como alguém do povo, como os pobres que são massacrados pelos mais poderosos, infelizmente, nesse país. O Cristo que sigo, se estivesse aqui, andaria com um séquito de enjeitados pela sociedade, como os leprosos e mulheres adúlteras de sua época, ou garotos favelados e índios, nos tempos atuais. E quem sabe, por causa de acolher, amar e perdoar os marginalizados pela sociedade, até acabaria sendo perseguido novamente, alvo de Fake News por parte de gente que se sente “o povo escolhido de Deus”, ricos, lindos e bem nascidos. Quem sabe esculachado pelos que se dizem “cidadãos de bem”.

O Cristo no qual deposito toda a minha fé censuraria novamente, como fez no seu tempo, os chamados “doutores da Lei”, essa gente que se acha acima do bem e do mal. Cristo se ofenderia e ia distribuir umas boas chibatadas nessa gente que faz campanha eleitoral dentro da Casa do Senhor, que mistura fé com vendas de amuletos, que enriquece às custas do sacrifício dos mais pobres, que usa o povo como massa de manobra….Jesus estaria revoltado com a hipocrisia dessa gente. “Ai de vós, mestres da Lei e fariseus hipócritas!, disse Jesus (Mateus 23).

Não com o fato dele ser retratado como o “Jesus da Gente” da Mangueira e quem sabe nesse momento estaria, assim como eu, não conseguindo parar de cantar o refrão do samba:

“Mangueira
Samba teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também”.