Quem é o coronel que decidiu fazer política e levar uma multidão às ruas em plena pandemia

Recebi entre boquiaberta e descrente, a notícia de que pelas redes sociais um tenente coronel da Polícia Militar, Ubirajara Rosses, estava convocando para uma manifestação de protesto contra o governo de Wilson Lima – que ele queira dar “Fora Wilson” tá tudo bem, mas precisa ser agora coronel? De tão absurda a situação, diante de um quadro em que dezenas de amazonenses estão morrendo todos os dias, porque os hospitais não estão suportando mais a demanda, esperei pra ver se isso ia acontecer mesmo. Fiquei incrédula, afinal se trata de um oficial da PM, uma instituição que tem como lema “Servir e Proteger”.

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Pois num é que era verdade mesmo! Em meio a uma pandemia de coronavirus, paralelo a uma epidemia de gente revoltada e com raiva com a falta de trabalho, de dinheiro, de saúde pública e até de comida na mesa, o coronel decidiu canalizar todos esses sentimentos menores para apenas o ódio ao governo, expondo centenas de pessoas a morte. Desculpe-me a briosa polícia militar pelo trocadilho, mas a quem isso serve? Quem isso protege? A foto do coronel bradando críticas ao governo, rodeado de gente em volta, entre eles mototaxistas, que têm contato com dezenas de pessoas por dia, alguns sequer com uma máscara no rosto, é o retrato fiel do escárnio com os mortos amontoados dentro de câmeras frigoríficas ou com os profissionais de saúde que estão morrendo pra salvar vidas.

Quem é o salvador da Pátria?

Tomei conhecimento da existência do tenente coronel Ubirajara Rosses do Nascimento Junior quando me enviaram um vídeo dele se dizendo perseguido por Wilson Lima que determinou a abertura de inquérito policial militar por causa de críticas que faz o coronel contra “os desmandos” do Governo. “Podem te certeza que eu não vou me calar. Eu fui forjado pra lutar”, diz o oficial da PM no vídeo, tendo no rosto uma expressão solene parecida com aquela feita por Clark Kent, o personagem de ficção que se transforma no super-homem.

A primeira impressão sobre o coronel é de simpatia, afinal é da minha natureza me solidarizar com os perseguidos e ter aversão a perseguidores. Além disso tenho fascinação pelos heróis, seres que seriam muito necessários em tempos como esse, pra nos salvar de tanta covardia e maldade humana tão nefastas quanto a pandemia de coronavirus.

Mas, lá aparece no pensamento a figura da minha saudosa mãezinha, semianalfabeta, mas sábia que, para ensinar seus doze filhos a estar preparados para uma vida dura e um mundo que ela dizia ser cruel, falando o seguinte: “Ninguém aparece pra te salvar não! Esse negócio de herói é bestagem! Aprende que só você pode te salvar!”.

Isso me fez ter um pé atrás com salvadores da Pátria! Por isso lá fui eu procurar saber quem é, em quem e no que acredita o mais novo herói militar das redes sociais. Mas, inicialmente, mesmo sem ter muita informação sobre ele, já tenho questionamentos a fazer sobre a postura do oficial PM Rosses: quando a pessoa decide entrar para uma corporação militar não sabe que há regras rígidas de comportamento e disciplina a serem seguidas? E se comete a quebra de disciplina, não sabe que vai ser punido? Então do que está reclamando?

Li matérias de jornalistas nacionais sobre policiais que se posicionaram contra Bolsonaro e estão passando por processos de expulsão. Por que sendo com Bolsonaro está certo e sendo contra outro governo está errado?

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Mas aí, encontro nas redes sociais as respostas para quase todas as minhas dúvidas. O tenente coronel PM Rosses é ex-presidente do PSL, partido que também já foi do presidente Messias Bolsonaro, o mesmo Bolsonaro que tem desrespeitado as autoridades médicas mundiais e tem boicotado o trabalho de seu próprio Ministério da Saúde, praticando e incentivando publicamente o desrespeito ao isolamento social, mesmo com o crescente número de mortos no país.

O oficial PM aparece em várias fotos com Bolsonaro, o mesmo Bolsonaro que entrou em rota de colisão com o governador do Estado, Wilson Lima quando este decidiu discordar dos métodos pra tratar da “gripezinha” pregada pelo presidente e endurecer as regras de isolamento social pra tentar o que os especialistas chamam de “achatar a curva do número de infectados pelo vírus” – deve ser coincidência o coronel ser bolsonarista, né mesmo gente?

 

E o nosso salvador da Pátria – ou seria melhor dizer salvador do Amazonas? – deixa bem claro comungar do mesmo posicionamento do seu líder político quanto ao isolamento social. Ele esculacha o governo em suas postagens, por colocar a polícia na rua pra fazer cumprir o isolamento social. “A polícia deveria estar nas ruas pra combater as facções”, reclama o coronel. E o nosso herói está onde mesmo? Nem combatendo as facções e nem garantindo o isolamento social. Está no serviço administrativo.

As únicas respostas que não consegui, nem nas redes sociais e em nenhum outro lugar são: quem será o dono do prédio que parece ser de material gráfico e da prensa que está num vídeo do coronel, imprimindo sem parar sei lá quantos adesivos “Fora Wilson Lima”? E quem está bancando esses custos nada baratos?

Será que dava, nesse momento, pra fazer o que tem heróis anônimos fazendo e gastar esse dinheiro em cestas básicas pra salvar famílias da fome e mantê-las em casa? Isso é o que fazem os salvadores da pátria, salvam primeiro os filhos da pátria!