Quem vai salvar nossos filhos?

Essa pergunta ficou na minha cabeça, martelando, durante todo o final de semana e foi feita por uma amiga (não vou publicar o nome por questões de segurança) que mora no interior do Estado ao comentar o crime que aconteceu na comunidade de Tapira, no município de Beruri, a 173 quilômetros de Manaus, onde uma família inteira foi morta a golpes de faca e marreta, inclusive três crianças, de 2,4 e 11 anos.

Sem que maiores detalhes do crime sequer tivessem sido publicados em algum veículo de comunicação, minha amiga já antevia: “pode ter certeza que tem tráfico de drogas por trás disso”. E ainda acrescentou: “o interior do Amazonas está tomado pelas drogas”. São crianças cada vez mais novas viciadas em drogas que ficam nas mãos dos traficantes e “por uma porção da droga eles matam e morrem”. Ela me contou que já chegou a ver crianças de dez e onze anos viciadas em cocaína.

E depois da conversa com essa amiga, essa minha cabeça pensante não me deixou sossegar o final de semana inteiro pensando na pergunta que ela me fez e nos detalhes da conversa que tornam cada vez mais difícil ter uma resposta sobre quem vai salvar nossos filhos.

Pelos olhos da amiga que me falava ao telefone pude ver cidades sem polícia e sem a presença do judiciário, onde o traficante torna-se aquele que acha quem roubou a casa de um morador e que sentencia o estuprador e o assassino a morte.

Na falta do poder público, o traficante torna-se o “benfeitor” que até ajuda na quermesse da igreja e na reforma da escola – enquanto isso o dinheiro do Fundeb some das contas de certas prefeituras. E é pra eles que mulheres como eu, que criaram os filhos sozinhas, recorrem na hora do desespero da falta de comida na mesa, por exemplo. Mas seus filhos passam a ser presas fáceis na mão dos “benfeitores”, passam a ser futuros soldados do tráfico.

E tu vai reclamar pra quem, já que o dinheiro deles (traficantes) também vão para campanhas políticas? No interior, eles ajudam a eleger vereadores, prefeitos e até conselheiros tutelares.

E hoje pela manhã, quando minha cabeça já tinha aquietado um pouco, lá vem o desfecho do crime em Beruri e foto dos três acusados de trucidarem uma família, chamados de “homens” por determinados colegas jornalistas, mas o que vejo na foto são três jovens que ainda carregam traços dos meninos, um deles tem 18 anos. E lá voltou a pergunta a batucar na minha cabeça!

Aí a única alternativa é, como sempre, usar a “válvula de escape” que mantém minha sanidade mental diante de tanta tristeza: escrever. E, quem sabe alguém, inclusive os veículos de comunicação que ganham milhares de acessos com matérias policiais, possam me ajudar a responder à pergunta que não quer calar: “quem vai salvar os nossos filhos?”