Ratos e urubus larguem nossa bandeira

 

Foto: reprodução

Confesso que esse título não é algo autoral e nem inédito, mas descobri isso faz pouco tempo após pesquisar se já existia essa frase em algum lugar. Como muitas vezes acontece comigo quando vejo uma imagem que me causa sentimentos bons ou ruins, quase que imediatamente me vem uma palavra ou uma frase à mente, muitas vezes nem sei de onde tirei. Esta tem sido uma dessas situações.

Antes de contar qual é a imagem que me faz pensar nessa frase “ratos e urubus larguem nossa bandeira”, tenho que dar crédito a quem teve a ideia original. Essa frase, um pouquinho diferente, é de alguém que considero um dos maiores artistas que esse país e quem sabe o mundo já teve, capaz de levar para o asfalto a ópera do cotidiano, transformar o lixo em luxo e mostrar que muito luxo pode ser lixo nas mãos de gente nefasta, que só pensa no lucro, em acumular riqueza e não no ser humano.

“Ratos e urubus larguem a minha fantasia” foi o enredo de 1989 da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, criado pelo espetacular e visionário carnavalesco Joãosinho Trinta.

Troquei instantaneamente a expressão “fantasia” por “bandeira”, mas não foi proposital. Quando vejo a bandeira do Brasil aqui e acolá, em carros, ou sendo carregada por alguém ou principalmente nas manifestações dos bolsonaristas, a reação é imediata, lá vem a frase: “ratos e urubus larguem a nossa bandeira”, a representação maior da Nação Brasileira, que jamais pode estar vinculada a quem seres racistas, homofóbicos, negacionistas, intolerantes, que desprezam a ciência, que defendem cortes na educação, que acham que o trabalhador tem que perder direitos pra ter emprego, que defendem a destruição do meio ambiente apenas para que alguns poucos acumulem cada vez mais riqueza.

Seres frios, calculistas e irracionais. Gente que se acha melhor do que os outros, a quem os mais pobres, os negros e mestiços, nasceram pra servir. Gente egoísta que não quer e não quis saber se ia matar seus semelhantes na época da pandemia, o que importou é que eles permaneceram vivos. Gente que eu nem sei se poderia ser chamada de gente – se houver exceções no meio deles, então me desculpe, mas se não quiser desculpar, então….

E os sentimentos negativos, como raiva e vontade de xingar ficam piores quando vejo a nossa bandeira sendo ostentada por certos políticos que eu, como repórter que sou, conheço muito bem. Gente que vive falando em Deus e família, mas só quer enriquecer o seu clã e usa o nome de Deus apenas pra enganar os incautos e tirar vantagem.

Gente que me faz lembrar o samba enredo da Beija-Flor: “se ficar o rato pega, se cair urubu come”.

Vejo a bandeira e lá vem a dita frase a cabeça e logo depois me bate uma tristeza danada pelos sentimentos negativos que hoje o símbolo da minha Pátria me traz. E, euzinha, que até tinha blusa com a imagem da bandeira brasileira, nem pensar em usar e ser confundida com essa gente e com seres que idolatram um homenzinho ambicioso, sem noção e incompetente. Nem camisa do Brasil em jogo da seleção brasileira uso mais.

E aí lembro de Jãosinho Trinta de novo, com um enredo de mais de trinta anos atrás, mas que nunca foi tão atual, falando da “agonia” de ver esses “bichos” agarrados à sua fantasia – no meu caso bandeira – e repito o que estava escrito no carro alegórico censurado apenas porque fazia uma analogia entre o sofrimento de um mendigo e o flagelo de Cristo: “Mesmo proibido, olhai por nós” e livrai Senhor minha bandeira dos ratos e urubus.