Ricci fala sobre estreia do ‘VAR’ no Brasil: ‘Falta experiência’

Sandro Meira Ricci, árbitro brasileiro na Copa do Mundo da Rússia, revelou que quem atua no País recebeu o mesmo treinamento dado pela Fifa e, por isso, está preparado para usar o árbitro de assistente de vídeo (VAR, na sigla em inglês) que estreia nesta quarta-feira na Copa do Brasil.

Por outro lado, ele mostra preocupação com o número de câmeras, a precisão da linha de impedimento e a inexperiência de alguns árbitros em jogos oficiais. Em entrevista exclusiva ao Estado, o árbitro de 43 anos recém-aposentado e cotado para ser o substituto de Arnaldo Cézar Coelho na Rede Globo, revela que ficou decepcionado por não ter apitado a final da Copa. “Fizemos um trabalho para merecer a indicação à final. Ficou a decepção porque queria encerrar a carreira com esse título.”

Qual sua expectativa para a estreia do VAR nesta quarta?

Os treinamentos do VAR no Brasil são muito parecidos aos que recebemos na Fifa. Torço para que os resultados sejam também parecidos. A diferença de estrutura pode interferir um pouco, principalmente no que diz respeito ao número de câmeras disponíveis e à precisão da linha de impedimento, que na Fifa é tridimensional. A questão da falta de experiência em jogos oficiais também pode pesar um pouco. Na Copa, a maioria dos árbitros de vídeo tinha bastante experiência porque eles vinham utilizando essa ferramenta em suas competições nacionais.

O que achou do VAR na Copa?

A avaliação é muito boa. Nos 64 jogos, o árbitro de vídeo corrigiu 17 decisões equivocadas do árbitro de campo. É uma quantidade elevada de intervenções, mas o índice de acerto da arbitragem nas decisões capitais superou os 99%, o que é praticamente a perfeição.

O que pode melhorar?

É preciso experimentar mais vezes o VAR em jogos reais, pois a realidade do jogo apresenta um cenário de pressão bem diferente do treinamento. O protocolo está bem claro para todos, mas a linha de intervenção, ou seja, o conceito de erro claro ainda carece de critérios mais objetivos para que as intervenções sejam mais uniformes. Defendo que as equipes deveriam ter direito a pedir pelo menos um desafio à arbitragem para torná-las protagonistas também nesse projeto de VAR, que é excelente.

Quais as diferenças entre atuar na sala de vídeo e no campo?

Trabalhei na função de VAR e na de árbitro em várias competições da Fifa e admito que a pressão na cabine do VAR, com no máximo dez pessoas, é bem superior à pressão no campo de jogo, com mais de 50 mil. O árbitro de campo tem a seu favor a necessidade de tomar uma decisão imediata com apenas um ângulo de visão. Por isso, seus erros são, muitas vezes, compreensíveis. Já o VAR não pode errar, pois ele tem tempo para poder ver a jogada por vários ângulos.

Qual a sua maior dificuldade na Copa do Mundo?

Certamente o jogo de mata-mata, entre Rússia e Croácia, foi o mais marcante e emocionante por envolver a seleção da casa e ter sido decidido na disputa de pênaltis. Particularmente, a minha maior dificuldade foi lidar com a não designação para a final.

Você tinha expectativa de apitar a final da Copa?

Tinha. Acredito que fizemos um trabalho para merecer a indicação à final. Outros também o fizeram e ao final a Fifa tinha que escolher um e optou pelo argentino. Para mim, ficou a decepção. Queria encerrar a carreira com esse título.

O que vai fazer agora?

Infelizmente não existe, formalmente, aposentadoria para árbitro, pois não recebemos nenhum benefício quando encerramos a carreira. Decidi pendurar o apito porque acredito que meu ciclo de árbitro de campo se encerrou. O processo de preparação para um Mundial dura três anos e exige muita dedicação. Deixei de lado muita coisa para participar de duas Copas. Agora quero me dedicar mais à minha carreira de servidor público e, quem sabe, a algo relacionado ao futebol, mas sem abdicar da convivência com minha futura esposa, filhas, pais e amigos.

Fonte: Estadão Conteúdo.