Rios da Amazônia sob ameaça por falta de gestão, recursos e programas de educação ambiental

Num diagnóstico, feito no relatório técnico preliminar do Projeto Rios Limpos, um estudo sobre a gestão de resíduos sólidos em Manaus (AM), Iquitos (peru) e Leticia  (Colômbia), os rios da Amazônia, que formam a maior bacia de água doce do mundo, estão ameaçados pela “carência de gestão, fiscalização, recursos e programas de educação ambiental”. Esse diagnóstico foi apresentado essa semana durante o Fórum Internacional Rios Limpos, realizado pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (SDSN Amazônia).

O evento virtual, que teve apoio da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) e da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ), que é a Agência Alemã de Cooperação, reuniu representantes de governos, empresas, universidades e organizações não governamentais dos três países para debater os desafios e soluções para a conservação dos rios amazônicos.

Segundo o relatório que deu base às discussões do fórum, as estratégias para reverter o atual cenário passam pelo fortalecimento de agentes locais, como comissões municipais de meio ambiente e comitês de gestão de resíduos sólidos; cooperação técnica-política entre os países da Bacia Amazônica, envolvendo governos, empresas e associações de catadores; e a educação ambiental, com programas nas escolas e campanhas de conscientização da população.

“Há uma caminhada nessas propostas que traçamos aqui. Primeiro, você fortalece o nível local, reforça a municipalidade, prepara as cidades para atuar bem no seu nível. Depois, você começa a cooperar ou fortalece essa cooperação e, concomitante a isso, educa ambientalmente os cidadãos”, explicou o consultor técnico do Projeto Rios Limpos, Rafael Ribeiro.

Somente em Manaus, em 2019, foram coletadas mais de 11 mil toneladas de resíduos sólidos em igarapés, gerando um custo de aproximadamente R$ 16 milhões aos cofres públicos, segundo apontou o subsecretário da Semulsp, Eisenhower Campos. “Precisamos buscar parcerias, tecnologia e eficiência para a prestação desse serviço, e isso só pode ser feito se a gente tiver o apoio da iniciativa privada, dos órgãos de fomento à proteção do meio ambiente. Precisamos dividir responsabilidades entre os fabricantes, consumidores e a sociedade civil. Precisamos buscar apoio e cooperação técnica entre os municípios, estados e até mesmo os países, como estamos fazendo agora”, disse.

Outros mecanismos propostos para a redução dos resíduos sólidos – especialmente das garrafas PET – nas três cidades envolvidas, foram o fortalecimento da coleta seletiva e o investimento em uma indústria alternativa para dar nova destinação a estes materiais. “A questão principal é desviar o caminho do PET, como de todos os outros resíduos, dos rios. Criar uma cadeia que o leve a outra utilidade, inclusive gerando renda”, afirmou o professor da UFAM, Marcos Castro.

 

Associações recicladoras

O segundo painel do fórum, mediado pela analista de Educação Ambiental da FAS, Kelly Souza, reuniu representantes de associações recicladoras. A presidente da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Nova Recicla de Manaus, Suelen Cardoso, destacou a relevância do serviço ambiental prestado pelos catadores e defendeu a necessidade de se desenvolver ações práticas que gerem visibilidade e melhores condições de trabalho. “Fazer um trabalho coletivo para desenvolver essas políticas públicas e melhorar a qualidade de vida do ser humano, dos catadores”, disse.

Para a diretora executiva da ONG peruana Ciudad Saludable, Paloma Roldan, é importante destacar que a reciclagem ajuda a melhorar não somente a qualidade de vida da família do catador, mas também a qualidade de vida e qualidade ambiental da comunidade onde ele está inserido. “E, nesse sentido, ter a perspectiva de uma sinergia regional amazônica é trabalhar com planos de desenvolvimento combinados e mostrar às autoridades locais seu valor como dinamizadores, e entender à nível das empresas que a logística reversa tem um valor muito maior se incorporar às organizações de recicladores realmente como atores de todo o processo. E, por último, como uma sinergia extremamente importante, precisamos afirmar que a voz amazônica é uma voz da mulher amazônica recicladora”, pontuou.

 

Negócios sociais

O evento também teve espaço para o diálogo com negócios sociais, para entender como eles podem contribuir para resolver a destinação dos resíduos sólidos. O painel trouxe experiências como a da líder comunitária Maria Cristina Pereira, presidente do Projeto de Restauração Ecológica e Urbanização Sustentável (Reusa).

Após uma difícil separação do seu casamento, Dona Cristina, como é chamada, só conseguiu comprar uma casa à beira do igarapé e entrou em depressão quando se viu rodeada pelo lixo e mau cheiro. Foi então que decidiu mudar a realidade do lugar onde vivia, impulsionando uma verdadeira transformação socioambiental na região do rip-rap do Igarapé do Gigante, no bairro da Redenção, zona centro-oeste da capital amazonense.

“Comecei a dar aula de crochê na comunidade para as mulheres recém-separadas”, contou, ressaltando que depois de participar da Virada Sustentável Manaus, festival de sustentabilidade correalizado pela FAS, o projeto ganhou propósitos maiores. “Já não era só ensinar, era trabalhar para restaurar o rip-rap que estava perdido”, disse.

Para ela, o desenvolvimento de projetos que promovam o envolvimento da comunidade na conservação dos recursos hídricos é essencial para se alcançar as metas propostas no fórum. “As parcerias também. Porque só uma pessoa, como vocês sabem, não dá”, completou.

Engajar a sociedade na resolução do problema também é a missão do Grupo Ambiental Tierra Amazónica (Gatia), do Peru. A organização, que surgiu em 2011, atua com objetivo de gerar consciência socioambiental em pessoas que enfrentam a contaminação por resíduos sólidos e a escassa cultura ambiental na região de Loreto, inspirando que elas se tornem agentes da mudança que desejam ver em sua cidade.

Uma das estratégias adotadas é mostrar que o lixo pode ser uma oportunidade de negócio. “Com higiene e criatividade, podemos diminuir a contaminação por resíduos sólidos ao utilizar essa matéria-prima em alguns produtos que possam ser comercializados. Assim também, podemos demonstrar que ao envolver a população de uma comunidade, podemos fazer dessa comunidade que estava contaminada, através de capacitações, uma comunidade turística; uma comunidade em que são os moradores aqueles que a cuidam”, explicou a CEO do Gatia, Ivonne Bocanegra.

Na opinião do coordenador de Novos Negócios da EuReciclo e Cofundador do Plástico Precioso Rio, Bernardo do Amaral, também é necessário gerar renda compartilhada e autonomia financeira para os indivíduos envolvidos nesse processo. Ele citou o exemplo da EuReciclo, organização que certifica a logística reversa de embalagens pós-consumo, gerando incentivos para elevar as taxas de reciclagem no país. “Hoje, dos mais de 60 operadores de triagem que a gente tem na nossa cadeia, onde fazemos o lastro das nossas operações – que são nossos parceiros-chaves – representamos de 15 a 30% de acréscimo na receita dessas cooperativas só com o nosso sistema de compensação ambiental. Isso é muito significativo e transformador para esses operadores, para esses guerreiros da reciclagem”, ressaltou.

 

Cooperação Sul-Sul

Encerrando a programação, o último painel convidou representantes governamentais dos três países para uma troca de experiências, na perspectiva de impulsionar as tratativas para a criação de um acordo de cooperação internacional que promova o manejo sustentável e a redução dos resíduos sólidos flutuantes na Amazônia.

Um dos pontos de destaque da conversa foi a capacitação de agentes locais para a gestão, coleta e destinação dos resíduos sólidos, com exemplos exitosos em Manaus e no distrito Belén, no Peru. Além disso, foram discutidos o papel da educação e conscientização ambiental, e a necessidade de uma gestão compartilhada dos recursos hídricos na região.

“Cada vez mais, o papel dessas agendas de recursos hídricos, no caso do Amazonas, deve exceder as fronteiras. Vale lembrar que o Amazonas acaba sendo o fim da linha da maioria das atividades produtivas dos rios internacionais que cortam a Bacia Amazônica. Então, implementar esses processos de gestão compartilhada são os caminhos mais rápidos e seguros para garantirmos a sustentabilidade desses recursos que estão sendo tão afetados hoje em dia”, disse o secretário de Estado do Meio Ambiente do Amazonas, Eduardo Taveira.

A importância de desenvolver uma colaboração internacional também foi destacada pelo secretário de Agricultura, Medio Ambiente y Productividad del Departamento del Amazonas, John Valencia. “Devemos começar a articular esforços, não somente binacionais, mas talvez trinacionais, que nos permitam fazer um manejo adequado de resíduos não à nível local, e sim à nível regional, como uma região amazônica”, afirmou.

Com informações da assessoria de impresa da FAS