Rússia proíbe Boris Johnson de entrar no país e volta a atacar Kiev e Lviv

Moscou diz que Reino Unido age para isolar país e agravar crise que se desenrola no Leste Europeu

O premiê do Reino Unido, Boris Johnson, caminha ao lado do presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, nas ruas de Kiev, em meio a visita surpresa – 9.abr.22/Governo da Ucrânia via AFP

Em retaliação ao que descreveu como uma campanha desenfreada para isolar a Rússia, o governo de Vladimir Putin proibiu o premiê do Reino Unido, BorisJohnson, e outras autoridades britânicas de entrarem no país, anunciou a chancelaria russa neste sábado (16).

“Autoridades britânicas estão agravando deliberadamente a situação em torno da Ucrânia, entregando armas letais ao regime de Kiev e coordenando esforços similares em nome da Otan [aliança militar ocidental]”, disse o Ministério das Relações Exteriores russo em nota.

A chanceler britânica, Liz Truss, o secretário de Defesa Ben Wallace, a ex-primeira-ministra Theresa May e a primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, estão entre os proibidos de entrar em território russo.

Boris, que desde o início da invasão russa tem criticado publicamente as ações de Putin, pedido investigações sobre crimes de guerra e atuado diplomaticamente para estabelecer sanções econômicas, chegou a fazer uma visita surpresa a Kiev na semana passada, quando se reuniu com o presidente Volodimir Zelenski para, nas palavras do governo britânico, demonstrar solidariedade ao povo ucraniano.

O 52º dia de guerra no Leste Europeu também é marcado pelo retorno dos ataques à capital Kiev, promessa que Moscou havia feito ao longo da semana, argumentando se tratar de uma resposta a supostas incursões ucranianas contra alvos russos.

O Ministério da Defesa russo afirmou ter bombardeado uma fábrica militar da capital, no distrito de Darnitski, onde são fabricados tanques de guerra. Repórteres da agência de notícias AFP no local confirmaram o episódio, relatando a presença de militares e equipes de emergência.

Ainda em Kiev, o prefeito Vitali Klitschko afirmou, a uma emissora local, que ao menos uma pessoa morreu e várias ficaram feridas em ataques com mísseis realizados na manhã desde sábado. “Kiev foi e continua a ser um alvo dos agressores”, disse ele. Já na cidade de Kharkiv, sob bombardeios constantes ao longo da última semana, o governo regional afirmou que uma pessoa morreu e pelo menos 18 ficaram feridas depois de um míssil russo atingir áreas residenciais de um dos distritos centrais da região.

A informação, no entanto, não pôde ser confirmada de maneira independente.

No dia anterior, a região próxima à capital ucraniana já havia sido atingida, tendo como alvo um centro de fabricação e reparo de mísseis antinavios, o que muitos analistas viram como uma retaliação ao dano causado ao navio de guerra Moskva, a mais importante embarcação militar russa no mar Negro.

O episódio foi mais na guerra de narrativas que marca o conflito: enquanto a Ucrânia diz ter acertado o cruzador com um míssil, a Rússia diz que o Moskva foi vítima de um incêndio provocado pela explosão acidental de munição transportada ali. Seja como for, o caso representa um golpe moral ao país de Putin.

Militares ucranianos também afirmaram neste sábado que aviões de guerra russos que decolaram da Belarus, ditadura liderada por Alexandr Lukachenko e aliada de Moscou, dispararam mísseis na região de Lviv, perto da fronteira com a Polônia e um dos principais destinos de refugiados que tentam emigrar.

Os russos também alegam terem atingido um local de reparos de veículos militares em Mikolaiv. E intensificam-se os ataques na porção leste, em especial na região de Lugansk. O governo regional disse que as cidades de Severodonetsk, Lisichansk e Kreminna foram atingidas, deixando uma pessoa morta e três feridas. Um gasoduto de Severodonetsk também teria sido cortado, e a cidade está sem água e gás. ​

A vice-primeira-ministra ucraniana, Irina Vereschuk, informou que nove corredores humanitários foram acordados com Moscou para este sábado. Cinco deles seriam na porção leste do país, na região de Lugansk, onde está uma das autodenominadas repúblicas separatistas pró-Rússia de mesmo nome.​

De acordo com Volodimir Zelenski, a Ucrânia perdeu, até aqui, de 2.500 a 3.000 soldados na guerra. Ele também afirma que cerca de 10 mil agentes estão feridos, alguns com gravidade, e que não há contagem oficial de vítimas civis. Os comentários foram feitos na noite de sexta à rede americana CNN.

O número mais recente das Nações Unidas aponta ao menos 1.982 civis mortos, incluindo 162 crianças, e 2.651 feridos. Mas os números, reconhece a própria organização, são subnotificados devido à dificuldade para acessar áreas sitiadas, como a portuária Mariupol.

Ainda segundo a ONU, mais de 4,8 milhões de cidadãos ucranianos deixaram seu país desde o início do conflito. A maior parte deles —pelo menos 2,7 milhões— entrou na Polônia. A eles se juntam 215 mil pessoas de outras nacionalidades que viviam na Ucrânia e também fugiram após o início da guerra, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).