Sem apresentar provas, Bolsonaro diz em cúpula da ONU que ONGs comandam crimes ambientais no Brasil e no exterior

Foto: Globo

Em discurso gravado e apresentado nesta quarta-feira (30) na cúpula sobre biodiversidade da Organização das Nações Unidas (ONU) o presidente Jair Bolsonaro afirmou, sem mostrar provas, que organizações, em parceria com “algumas ONGs”, comandam “crimes ambientais” no Brasil e também no exterior.

Bolsonaro foi um dos chefes de Estado que enviaram discurso gravado à ONU, para a cúpula que ocorreu dentro dos eventos da assembleia-geral que, neste ano, foi realizada de forma virtual devido à pandemia do novo coronavírus.

Na semana passada, em discurso na Assembleia das Nações Unidas (ONU), o Bolsonaro já havia dito que que o Brasil é “vítima” de uma campanha “brutal” de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal.

“Na Amazônia, lançamos a ‘Operação Verde Brasil 2’, que logrou reverter, até agora, a tendência de aumento da área desmatada observada nos anos anteriores. Vamos dar continuidade a essa operação para intensificar ainda mais o combate a esses problemas que favorecem as organizações que, associadas a algumas ONGs, comandam os crimes ambientais no Brasil e no exterior”, disse Bolsonaro.

Bolsonaro não apresentou provas nem citou nomes de ONGs que estariam por trás de crimes ambientais.

Essa não é a primeira vez que o presidente acusa ONGs de estarem por trás de crimes ambientais. Em agosto do ano passado, ele declarou que as organizações poderiam estar por trás de queimadas na região amazônica para “chamar atenção” contra o governo do Brasil.

À época, questionado se havia embasamento para as alegações, Bolsonaro disse que não havia registros escritos sobre as suspeitas.

Amazônia

O presidente voltou a afirmar que o Brasil é soberano na porção do seu território coberto pela floresta Amazônica e rechaçou o que considera “cobiça internacional” sobre a área.

O governo Bolsonaro tem sido alvo de críticas, dentro e fora do país, devido à sua política ambiental e aos dados que apontam aumento do desmatamento na Amazônia. As queimadas, que vem consumindo o Pantanal, também contribuíram para o aumento das pressões internacionais sobre o governo brasileiro.

Em resposta, o presidente e seus auxiliares têm afirmado que as críticas fazem parte de um movimento internacional para desestabilizar o governo e partem, também, de países que têm interesse comercial em prejudicar o agronegócio brasileiro.

“Rechaço, de forma veemente, a cobiça internacional sobre a nossa Amazônia. E vamos defendê-la de ações e narrativas que agridam a interesses nacionais”, afirmou.

“Não podemos aceitar, portanto, que informações falsas e irresponsáveis sirvam de pretexto para a imposição de regras internacionais injustas, que desconsiderem as importantes conquistas ambientais que alcançamos em benefício do Brasil e do mundo”, acrescentou.

Mais cedo nesta terça, em suas redes sociais, Bolsonaro respondeu a uma declaração do candidato do partido Democrata à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, sobre os desmatamentos na Amazônia.

No debate desta terça-feira (29), Biden defendeu formar um fundo de R$ 20 bilhões para ajudar o Brasil a preservar a floresta e, caso o desmatamento não fosse detido, o país teria “consequências econômicas significativas”.

Bolsonaro respondeu chamando a declaração de Biden de “desastrosa e gratuita”. O presidente disse ainda que a soberania do Brasil é “inegociável”.

“O que alguns ainda não entenderam é que o Brasil mudou. Hoje, seu presidente, diferentemente da esquerda, não mais aceita subornos, criminosas demarcações ou infundadas ameaças. Nossa soberania é inegociável”, disse Bolsonaro.

O presidente afirmou que uma parceria com os EUA é “bem-vinda”. Mas, segundo ele, a declaração de Biden “sinaliza claramente abrir mão de uma convivência cordial e profícua”.

Pantanal e agronegócio

O presidente defendeu ações na bioeconomia, para casar preservação e desenvolvimento ambiental e citou no discurso a situação no Pantala, castigado por semanas de queimadas. Segundo Bolsonaro, o governo adotou medidas para combater de “maneira coordenada” os focos de incêndios.

“No Pantanal, fortalecemos a integração entre as agências governamentais, com o apoio das Forças Armadas, para atuar de maneira coordenada e, assim, combater os focos de incêndio no entorno dessa região. Isso mostra que mantemos firme nosso empenho em buscar o desenvolvimento sustentável do País, com esteio em uma agricultura baseada na biotecnologia, de comprovada eficiência, e também na preservação do nosso patrimônio ambiental”, declarou.

A exemplo de outras falas sobre preservação ambiental, Bolsonaro destacou a produção de alimentos no Brasil. Segundo ele, o agronegócio aumenta a capacidade de produção e reduz o impacto ambiental.

“Nas últimas décadas, o setor agropecuário brasileiro obteve aumentos expressivos de produtividade e comprovou sua capacidade de ampliar sua produção e alimentar o mundo, ao mesmo tempo em que reduz seu já irrisório impacto sobre o meio ambiente”.

Política ambiental

Bolsonaro defendeu a política ambiental do governo federal. Disse que governo federal vem adotando políticas de proteção ao meio ambiente de forma consciente. O governo Bolsonaro é criticado por investidores, ambientalistas e governos de outros países pela gestão que faz da questão ambiental.

“Temos a obrigação de preservar nossos biomas e, ao mesmo tempo, precisamos enfrentar adversidades sociais complexas, como o desemprego e a pobreza, além de buscar garantir a segurança alimentar do nosso povo”, disse o presidente.

“Em 2020, avançamos nessa direção e, mesmo enfrentando uma situação difícil e atípica devido ao coronavírus, reforçamos ações de vigilância sobre nossos biomas e fortalecemos nossos meios para combater a degradação dos ecossistemas, a sabotagem externa e a biopirataria”, complementou Bolsonaro.

Na última terça-feira (29), a Justiça Federal do Rio de Janeiro supendeu decisões do Conama que retirou proteção de áreas de manguezais e de restingas. Na decisão, a juíza disse que derrubadas de resoluções são “evidente risco de danos irrecuperáveis ao meio ambiente”.

Em 18 de setembro, depois de receber relatório sobre desmatamento, a França voltou a se manifestar contra o acordo comercial entre o Mercosul e União Europeia. Segundo o relatório, o custo ambiental do acordo superaria os benefícios econômicos.

Em julho, executivos de 38 grandes empresas brasileiras e estrangeiras enviaram uma carta ao vice-presidente Hamilton Mourão, que preside o Conselho da Amazônia, cobrando ações concretas de combate ao desmatamento no país.

Intitulado de “Comunicado do Setor Empresarial Brasileiro”, o documento também foi assinado por quatro entidades setoriais do agronegócio, do mercado financeiro e da indústria.