Sem que ninguém seja responsabilizado, crise do oxigênio no Amazonas completa 1 ano

Autoridades públicas e empresas privadas são alvos do MP-AM, MPF e da CPI da Covid

REUTERS/Bruno Kelly

Há exatamente um ano, o Amazonas testemunhava a maior crise já vivida no Estado. O ano de 2021 foi marcado pelo caos que se instalou no sistema de saúde pela falta de oxigênio nos hospitais em Manaus nos dias 14 e 15 de janeiro. Mesmo após a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)  investigar, ninguém foi responsabilizado pela crise do oxigênio até esta sexta-feira (14).

O mundo inteiro vivendo a segunda onda pandêmica do coronavírus, contudo, foi em Manaus que a crise se instalou, não somente pelo número de pessoas infectadas, mas, principalmente, devido a omissão das autoridades diante da crise nas unidades de saúde superlotadas por internações por covid, e o pior, não havia oxigênio para suprir a demanda hospitalar.

De acordo com o Ministério Público (MP-AM) e a Defensoria Pública, mais de 60 pessoas morreram em todo o Estado por conta da falta de oxigênio. Mais de 500 pacientes foram transferidos às pressas para hospitais em outros Estados. Ainda assim, muitas vidas foram perdidas e mais de quatro mil pessoas morreram por Covid-19, só em 2021.

Autoridades públicas e empresas privadas são alvos de ações do MP-AM, MPF e da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, instalada no Senado.

Ômicron

Apesar da vacinação contra a covid estar sendo administrada, o Amazonas enfrenta uma nova explosão de casos de Covid-19, causada, sobretudo, pela variante ômicron e as síndromes gripais que se alastram devido o inverno amazônico. Somente nessa terça (11) e quarta-feira (12),  mil novos casos de covid-19 foram registrados.

Considerada  menos grave, ainda assim, a população parece reviver a situação do ano anterior, seja pela falta de testagens nas Unidades Básicas de Saúde. Seja pela falta de profissionais para atender a população nas unidades de saúde. O problema gera aglomeração nos poucos locais disponibilizados para testagens, como é o caso do Centro de Testagem para Covid-19 no Studio 5, que registrou uma intensa movimentação, longas filas de pessoas que procuram por testes de covid. Até mesmo as redes particulares estão super lotadas.

Os sinais
Em dezembro de 2020, já se observava que crescia no Amazonas casos de Covid. Com o consequente aumento de internações e mortes, o governo estadual determinou o fechamento total do comércio em 26 de dezembro.

A medida chegou a causar revolta nos comerciantes e manifestações por toda a capital. Sob pressão, o governo flexibilizou a abertura do comércio no fim do ano, mas a Justiça determinou o retorno das medidas restritivas no começo de janeiro.

Em meio a esse cenário, foi identificada no Amazonas a variante P.1, hoje conhecida como Gama, que se mostrou mais letal e mais transmissível, que colapsou o sistema de saúde, tanto na rede pública quanto privada. O número de internados com Covid só aumentava, e, também, a demanda por oxigênio, que não supriu a necessidade do Estado.

Registro feito em 15 de janeiro de 2021 pela REUTERS/Bruno Kelly

O caos dos dias 14 e 15 de janeiro

Profissionais de saúde e familiares de pacientes saíam de dentro dos hospitais em desespero, relatando que havia acabado o oxigênio dos hospitais. Foram dois dias sem oxigênio, ou quase nada, nos hospitais. Era uma correria em busca do oxigênio para que pacientes não morressem asfixiadas.

A situação foi constatada nos principais hospitais de Manaus, como Hospital 28 de Agosto, Hospital Universitário Getúlio Vargas, Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado, e Serviços de Pronto-Atendimento (SPA) pela cidade.

A urgência por oxigênio era tão grande que pessoas passaram a comprar o insumo por contra própria, e levavam às pressas para os hospitais, na esperança de salvar seus familiares internados.

O consumo médio de oxigênio por dia, que era de 14 mil metros cúbicos, cresceu abruptamente, atingindo uma média 76,5 mil metros cúbicos. Porém, a capacidade de produção das empresas fornecedoras era de 28,2 mil metros cúbicos, na época.

A corrida por oxigênio provocou filas gigantescas na frente nas empresas fornecedoras, porém, faltou o insumo até para vender. As empresas tinham que dar prioridade ao fornecimento aos hospitais.

Como os hospitais estavam lotados, muitos pacientes permaneceram internados em casa, sobrevivendo com cilindros de oxigênio. Nos hospitais particulares, também faltava o insumo. Nos dias seguintes, a crise do oxigênio se estendeu para outros municípios do interior.

Em documentos obtidos pelo Ministério Público, a falta de oxigênio causou a morte de pelo menos 31 pessoas apenas em Manaus nos dias 14 e 15 de janeiro.

Conforme levantamento da Defensoria Pública do Amazonas, cerca de 30 pacientes também perderam a vida por conta da escassez de oxigênio no interior do Amazonas.

Diante do colapso, 542 pacientes foram transferidos em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para hospitais de 16 estados.

A operação iniciou em 15 de janeiro e seguiu até 10 de fevereiro. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM), 444 pacientes retornaram com vida ao Amazonas.

Omissão

Em 11 de janeiro, três dias antes da crise eclodir, a White Martins, empresa responsável pelo fornecimento de oxigênio ao Governo do Amazonas, informou que a demanda estava seis vezes acima do que vinha sendo registrado ao longo da pandemia.

A White Martins destacou que possuía capacidade para produzir um volume de oxigênio três vezes maior do que o contratado pelo governo, mas a demanda já superava a sua capacidade.

O governador  Wilson Lima descrevia a situação como dramática, por conta da demanda crescente do Estado, mas não tomou nenhuma providência de imediato.

Segundo a Procuradoria Geral da República (PGR), um relatório apontou que o Ministério da Saúde foi informado no dia 8 de janeiro sobre a iminente falta de oxigênio pela empresa White Martins.

O então titular da pasta, Eduardo Pazuello, agiu tardiamente para enfrentar o problema. Naquela época, a pasta se dedicava propagar o uso de medicamentos ineficazes no combate à doença, como a hidroxicloroquina.

Durante o período, documentos enviados do Ministério da Saúde a Manaus sugeriam a criação de tendas para indicar remédios sem eficácia comprovada contra a Covid.

A CPI da Covid, instalada no Senado, também mostrou que uma carta foi enviada pela White Martins ao governo do Amazonas no dia 16 de julho de 2020, indicando que o estoque de oxigênio fornecido pela empresa ao Estado não suportaria um colapso na saúde pública, justamente o que aconteceria em janeiro de 2021.

Após seis meses de trabalho, a CPI aprovou o relatório final, que atribuiu nove crimes ao presidente Jair Bolsonaro e pediu 80 indiciamentos por crimes na pandemia.

Até o momento a Justiça ainda não responsabilizou ninguém pelo episódio. Há processos em andamento na Procuradoria-Geral da República, Ministério Público Federal, Ministério Público do Amazonas, Defensoria Pública, entre outros.

Atualmente, a White Martins informa que o consumo atual de oxigênio nas unidades de saúde atendidas pela empresa no Amazonas é de 11,4 mil metros cúbicos diários, o que representa um sexto da demanda na época.

Durante a crise, foram instaladas 41 miniusinas geradoras do gás oxigênio, sendo 11 na capital, e 30 distribuídas em outros 26 municípios do interior, que seguem em funcionamento, segundo a SES-AM.

Somados as produções das miniusinas e das empresas que possuem contrato com o governo, a capacidade de produção de oxigênio medicinal no Amazonas gira em torno de de 60 mil metros cúbicos por dia, conforme a SES.

Nova explosão

Agora o Amazonas está diante de uma nova explosão de casos de Covid-19 causada pela variante ômicron. As medidas de restrição foram reforçadas. Festas e blocos de rua no Carnaval de Manaus já foram suspensas, assim como a Temporada de Cruzeiros. Mas ainda falta muito o que fazer para que, claro que não na mesma proporção, devido a vacina, mas muitas vidas ainda correm risco por conta das síndromes gripais e das variantes.