Sob gestão de Araújo, Itamaraty recusou reunião proposta pela China para discutir combate à Covid, mostram documentos

Ministro das Relações Exteriores Ernesto Araujo durante coletiva sobre o acordo Mercosul-União Europeia. Brasilia, 02-07-2019. Foto: Sérgio Lima/PODER 360

Documentos de posse da CPI da Covid e obtidos pela TV Globo mostram que, durante a gestão de Ernesto Araújo, o Ministério das Relações Exteriores se recusou a participar de uma reunião proposta pela China em 2020 para discutir ações de combate à Covid.

A informação consta de ofícios enviados pela embaixada do Brasil na China ao Itamaraty entre 8 e 24 de julho de 2020. Segundo esses ofícios, participaram do encontro China, México, Argentina, Barbados, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, República Dominicana, Equador, Panamá, Peru, Trindad e Tobago e Uruguai.

Integrantes e ex-integrantes do governo brasileiro costumam atacar a China. O próprio presidente Jair Bolsonaro já insinuou que a economia do país poderia se beneficiar da pandemia.

Segundo o Itamaraty, a China é desde 2009 o maior parceiro comercial do Brasil. O atual chanceler brasileiro, Carlos França, substituto de Araújo, tem reiterado que o país é um “parceiro-chave” na luta contra a Covid.

A Sinovac, farmacêutica que desenvolveu a Coronavac, já recomendou ao Brasil ter relação mais “fluida” com a China (veja detalhes no vídeo abaixo).

Sinovac recomenda que Brasil busque relação mais positiva com governo chinês

Os documentos da embaixada

Em 8 de julho do ano passado, o embaixador do Brasil na China, Paulo Estivallet, informou ao Itamaraty ter sido contatado pelo diretor-geral do Departamento de Assuntos Latino-Americanos e Caribenhos da chancelaria chinesa, Zhao Bentang, para que fosse feita uma videoconferência entre ministros das Relações Exteriores da China e de países da América Latina.

Ainda no ofício, Estivallet afirma que, segundo Zhao, o objetivo seria discutir medidas de combate à Covid e “cooperação entre as partes em um contexto pós-pandemia”.

Ao Itamaraty, Estivallet acrescenta ter dito a Zhao Bentang que a eventual participação de algum representante do governo venezuelano de Nicolás Maduro “inviabilizaria a participação do Brasil” no encontro. E, segundo o embaixador brasileiro, o diplomata chinês respondeu que entendia a posição do Brasil.

Na avaliação do embaixador, o encontro poderia ser “previsível e pouco substantivo”. Mesmo assim, Estivallet escreveu a Ernesto Araújo:

“Considero recomendável a participação do Brasil, caso compatível com a agenda de Vossa Excelência. Ademais de refletir a importância de entendimentos pragmáticos sobre uma das principais, se não a principal, questão da agenda internacional, nossa participação também poderia dar sinalização útil para o encaminhamento favorável de questões práticas de relacionamento bilateral, inclusive no campo comercial.”

Um dia depois, em 9 de julho, Estivallet informou a lista dos países convidados: Argentina, Barbados, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, México, Peru e Trinidad e Tobago.

Contudo, cinco dias depois, o embaixador em Pequim confirmou que o Brasil não participaria: “A embaixada transmitiu à chancelaria chinesa a decisão brasileira de não participar da videoconferência entre a China e países da América Latina e Caribe, prevista para o dia 23 de julho.”

Os documentos mostram ainda que, em 24 de julho, um dia após o encontro, Estivallet relatou ao Itamaraty como havia sido a reunião, baseado em informação de uma agência de notícias chinesa.