Stefani e Pigossi levam o bronze nas Olimpíadas e conquistam 1ª medalha brasileira no tênis

Yara Nardi : Reuters

Virou clichê dizer em Olimpíadas que um atleta “fez história”. Mas seria uma injustiça com a dupla Luisa Stefani e Laura Pigossi não escrever que elas, sim, fizeram a delas nas Olimpíadas de Tóquio ao conquistar a primeira medalha olímpica do tênis brasileiro.

Stefani, 23, e Pigossi, 26, levaram o bronze neste sábado (31) ao baterem as russas Veronika Kudermetova e Elena Vesnina, vice-campeãs de Wimbledon, por 2 sets a 1, com uma virada espetacular, após perder o primeiro set, vencer o segundo e reverter o tie-break, no qual chegaram a estar perdendo por 5 a 1. Elas venceram por 11 a 9 com quatro match points defendidos.

Disputar os Jogos era algo improvável até semanas atrás para a dupla. Ganhar a inédita medalha para o Brasil, então, provavelmente nem passava pela cabeça delas, que não atuavam como parceiras de quadra até desembarcar no Japão de última hora. Ao fim da partida, a dupla se jogou no chão para celebrar a medalha.

Sentimento é de paz, de conquista, é um sonho conseguir uma medalha olímpica. A medalha vai ficar para sempre. Ainda estou tentando entender todas as emoções “, disse Pigossi na entrevista coletiva após a partida.

Foi uma partida de alto nível e difícil para as brasileiras na arena Ariake de tênis em Tóquio, com arquibancadas vazias por causa da pandemia da Covid-19. Debaixo de um sol de 32º, elas foram apoiadas durante a final por membros da delegação brasileira.

As adversárias venceram o primeiro set por 6 a 4. Ali, as brasileiras já mostraram poder de reação, depois de levar 3 a 0 em menos de 10 minutos. Devolveram o segundo set pela mesma parcial do primeiro e foram para o decisivo tie-break.

As russas abriram 5 a 1, indicando que levariam a medalha. As brasileiras novamente reagiram, encostaram em 7 a 5. As adversárias chegaram ao nono ponto, em momento dramático do jogo. Stefani e Pigossi seguraram os quatro match points, viraram e garantiram a primeira medalha brasileira no esporte.

Questionadas pela Folha, as duas comentaram o que passou pela cabeça delas quando o tie-break estava 9 a 5. “No 9 a 5, a gente não pensou nada, só em fazer o que a gente ama e como ia resolver os problemas dentro da quadra”, disse Pigossi.

“A gente acreditou até o final. Tie-break é jogar o jogo, quando estava 0 a 0, 9 a 5, a gente sabia que podia jogar, confiar uma na outra, principalmente nos pontos importantes”, disse Stefani.

A cerimônia de entrega de medalha ocorre neste domingo, após a disputa pela medalha de ouro. A dupla da República Tcheca Barbora Krejcikova e Katerina Siniakova enfrenta as suíças Belinda Benci e Viktorika Golubic, que bateram as brasileiras na semifinal.

O feito em Tóquio é o ápice do tênis brasileiro em Olimpíadas. Stefani e Pigossi já haviam atingido a marca de Fernando Meligeni de Atlanta-96 ao passar para as semifinais olímpicas com a vitória de 2 a 1 sobre as norte-americanas Bethanie Mattek-Sands e Jessica Pegula, com parciais de 1/6, 6/3 e, no tie-break, 10/6.

Antes, bateram as tchecas Karolina Pliskova e Marketa Vondrousova por 2 a 1 e, na estreia, ganharam das canadenses Gabriela Dabrowski e Sharon Fishman por 2 sets a 0.

As brasileiras saíram frustradas da semifinal com um início arrasador, mas que terminou em derrota por 2 sets a 0 para as suíças Belinda Bencic e Viktorika Golubic.

O lugar no pódio em Tóquio-2020 é o capítulo final de um enredo inusitado que levou Stefani e Pigossi para a Ariake arena na cidade japonesa.

Faltando quase uma semana para o começo dos Jogos, mais exatamente no dia 16 de julho, elas foram avisadas de que poderiam participar da competição.

Pela regra, a chave olímpica reúne 31 duplas definidas com base nas primeiras colocações no ranking, além de outra representante do país-sede.​

Stefani e Pigossi são, respectivamente, primeira e segunda mais bem colocadas no ranking de duplas do Brasil, mas não atuam juntas no circuito internacional, embora sejam amigas de infância.

Coube a Eduardo Frick, gerente da Confederação Brasileira de Tênis (CBT), avisá-las de que participariam das Olimpíadas depois de ser comunicado pela Federação Internacional de Tênis de que havia uma vaga para a dupla brasileira.

“Eu acordei eu estava relaxando. O Frick me liga, eu digo ‘e ai Frick, tudo bem?’ E ele diz: ‘você viu minha mensagem?’ ‘Não’ (resposta dela a ele). Começo a ver o celular, 500 ligações. Vocês entraram em Tóquio (ele disse)”, contou Stefani, após a disputa do bronze.

“Aí fiquei muito louca, liguei para a Laura (Pigossi), a gente pulou, foi de sono para acordar, não entendi nada”, disse a medalhista de bronze.

Stefani mora nos Estados Unidos, e Pigossi, em Barcelona.

No circuito, Stefani fazia dupla com a norte-americana Hayley Carter, que se lesionou recentemente. Ambas conquistaram o Aberto de Lexington, no Kentucky (EUA), e o WTA de Tashkent (Uzbequistão), em 2019.

Na atual temporada, Laura Pigossi conquistou os dois principais torneios de sua carreira até o momento, o ITF W25 de Pune, na Índia, e o W15 de Villena, na Espanha. Disposta a melhorar seu jogo, ela decidiu se mudar para Barcelona em 2016.

Stefani começou a treinar aos 10 anos, em uma academia no bairro de Perdizes, em São Paulo, por iniciativa da mãe. Em 2011, os pais decidiram trocar a capital paulista pela Flórida, nos EUA. Ela deu sequência ao tênis no ensino médio e, a partir do segundo semestre de 2015, na universidade. Nesse período, atingiu a 10ª posição do ranking juvenil.

Após a conquista da medalha, elas disseram que pensam em continuar atuando como uma dupla em torneios. “Com certeza a gente vai jogar outras vezes juntas, para me ajudar a subir no ranking. Uma mão lava a outra”, afirmou Pigossi, rindo para a parceira.