Time australiano espera por jogador preso desde novembro na Tailândia

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“Nossos corações estão partidos, Craig Foster. Diga-lhe que estamos esperando, que já o registramos para a temporada de 2019. Ele é o número 5 do time e sua camisa está reservada.”
Essa mensagem foi publicada no Twitter, na última terça-feira (5), pelo Pascoe Vale FC, clube de futebol semiprofissional com sede em Melbourne, na Austrália.

Craig Foster é um ex-jogador de 49 anos que atuava como meia -vestiu a camisa da seleção australiana, da qual foi capitão, de 1996 a 2000. Atualmente é comentarista esportivo, em TV, rádio e jornal.
O Pascoe Vale pedia a ele que desse o recado a Hakeem al-Araibi, barenita de 26 anos com quem se encontraria no dia seguinte.
Hakeem, que atuou pela equipe em 2018, está preso na Tailândia desde 27 de novembro.

Foi o dia em que, acompanhado de sua esposa, desembarcou no país, famoso destino turístico, para uma viagem de lua de mel. No aeroporto, contudo, autoridades tailandesas o detiveram.
Ele espera desde então, recluso em uma prisão da capital Bancoc, o julgamento que decidirá se ele será extraditado para o Bahrein, país com o qual a Tailândia mantém boas relações, ou se poderá retornar à Austrália, onde vive há mais de quatro anos.

Hakeem, que chegou a defender a seleção de seu país, é um refugiado. Deixou o Bahrein em 2014 para não mais voltar. Alegando ser um perseguido político, obteve asilo na Austrália, onde chegou depois de passar, em sua fuga, pelo Qatar e pelo Irã.
Depois de se foragir, o jogador foi condenado à revelia em tribunal de seu país a dez anos de cadeia, com base em depoimento de Emad, seu irmão, que declarou que Hakeem participou junto com ele, em 2012, da depredação, que incluiu o uso de coquetéis molotov, de uma delegacia de polícia na localidade de Khamis, próxima à capital, Manama.

O ato ocorreu durante os protestos da Primavera Árabe, como ficou conhecida a onda de revoltas populares de cunho político e econômico, em vários países da África e do Oriente Médio, contra seus respectivos governos.
Hakeem foi preso dias após o ocorrido e, em sua defesa, afirmou que estava participando de uma partida de futebol, televisionada, no momento do vandalismo (o que serviria como evidência de sua inocência), porém essa prova não foi considerada -a acusação alegou que os horários não batiam.

Libertado sob fiança, a fim de aguardar o julgamento em liberdade, ele declarou ter sido torturado por policiais, que tentaram forçá-lo a confessar o crime.
O Instituto do Bahrein pelos Direitos e pela Democracia relatou que Emad, também condenado a dez anos e que continua preso, acusou o irmão sob tortura.
Desde que Hakeem foi detido na Tailândia, surgiram movimentos pela sua libertação, com uma série de publicações em redes sociais, e pedidos para que a ONU (Organização das Nações Unidas) interfira -a Tailândia não é signatária de convenção da entidade, de 1951, que estabelece direitos aos refugiados.

Jogadores que já estiveram em Copas do Mundo, como o marfinense Didier Drogba, o italiano Giorgio Chiellini (mordido pelo uruguaio Luis Suárez na Copa de 2014) e os ingleses Gary Lineker e Jamie Vardy, aderiram à campanha #SaveHakeem, da organização não governamental Human Rights Watch, focada em direitos humanos.

Na última segunda-feira (4), o jogador foi levado com algemas nos pés a uma corte criminal de Bancoc, a capital tailandesa, para prestar depoimento.
Do lado externo, diante da presença de mídia, fez um apelo: “Por favor, não me mandem de volta para o Bahrein, eles irão me torturar”.

Em entrevista ao jornal britânico Guardian, publicada no mês passado, ele declarou que em seu país “não há direitos humanos nem segurança para pessoas como eu”.
O embaixador da Austrália na Tailândia, Allan McKinnon, contatou o primeiro-ministro Prayut Chan-o-cha para que fosse permitida a volta de Hakeem ao país da Oceania. “Ele é um refugiado, deixem-no retornar à Austrália, para seus amigos e sua família.” Por enquanto não houve resposta.

As autoridades tailandesas estenderam a prisão do atleta por mais dois meses e estabeleceram o prazo de 5 de abril para que ele apresente sua defesa, um indicativo de que Hakeem será mesmo julgado, e não solto antes disso.

Craig Foster, que pôde visitá-lo, tuitou em resposta ao time Pascoe Vale: “Ele está treinando dentro da prisão para estar pronto. Flexões, corridas descalço. O sorriso quando ouviu sobre Chiellini e Drogba, nunca vi nada igual, a paixão de um futebolista nunca morre”.

O texto de Foster afirma também que Hakeem disse ao seu clube que ficará “forte” durante o período em que permanecer detido e que estará “pronto para jogar” quando retornar a Melburne. Só que esse regresso pode não existir.
A expectativa de apoiadores do jogador é de que os apelos e ações por sua liberdade, capitaneadas por Foster -que visitou a Fifa, na Suíça, para cobrar sanções à Tailândia e ao Bahrein por desrespeito aos direitos humanos- tenham êxito muito em breve.