Tráfico de drogas imita milícia e aumenta lucro com extorsões no Rio

Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo

João tinha um prédio na Rocinha, mas decidiu vender o imóvel e deixar a favela depois de passar quase cinco anos sendo alvo de extorsões. Os criminosos primeiro queriam receber parte dos aluguéis que ele arrecadava e, depois, passaram a ameaçá-lo de olho no dinheiro gerado pela venda do local.

Este é apenas um exemplo de uma situação que tem ficado mais comum no Rio de Janeiro: moradores de certas comunidades obrigados a desembolsar quantias para traficantes de drogas -que nos últimos anos expandiram seus lucros taxando comércios e serviços nas regiões que controlam.

Segundo investigações da Dcod (Delegacia de Combate às Drogas), o mercado de entorpecentes desacelerou e já não dá o mesmo retorno, além de envolver riscos maiores. Enquanto isso, os criminosos aprenderam com as milícias que a extorsão é um forte meio de sustentar os negócios.

“A cidade está rendida”, diz Zeca Borges, coordenador do Disque Denúncia, central de telefonemas anônimos. “Temos percebido nas denúncias que o tráfico não está dando tanto lucro e está com novos produtos e em busca de novos territórios”, afirma.
Maior favela do Brasil, a Rocinha virou um dos principais exemplos desse tipo de atividade. A cobrança de mototáxis e vans já é uma realidade antiga, mas desde a guerra entre traficantes que começou em 2017 e a tomada do poder por Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, a exploração se intensificou e se diversificou.

Depois que ele foi preso e condenado a 32 anos de prisão, deixou como seus representantes na comunidade John Wallace da Silva Viana, o Johnny Bravo, e Leandro Pereira da Rocha, o Bambu. De acordo com ligações ao Disque Denúncia, hoje em dia é a dupla que controla transporte, internet, TV e gás na favela.

As vans que circulam na Rocinha, por exemplo, são obrigadas a pagar ao tráfico entre R$ 520 e R$ 560 por semana, normalmente às quintas-feiras, e mais cerca de R$ 25 por dia. Criou-se ainda uma linha pirata que vai até o metrô de Botafogo, na zona sul carioca, durante a noite.
Já os mototaxistas precisam desembolsar R$ 105 semanalmente, segundo a Dcod. Além da cobrança, agora também é comum a facção criminosa comprar novos veículos e “contratar” motoristas e motociclistas próprios para oferecer o serviço.
O fornecimento de TV e internet fica a cargo de empresas clandestinas associadas ao bando, que cobram em torno de R$ 120 para a instalação e mais R$ 80 mensais. Para garantir o monopólio, cortam fios de operadoras formais, prática também usual entre milícias.
A exclusividade da venda do gás também aumenta o preço repassado ao morador. O botijão sai por cerca de R$ 120 na favela, em média 20% mais caro do que no mercado regularizado.
Para os comerciantes e camelôs, as taxas variam de acordo com o tamanho dos negócios. A soma de todas essas extorsões rende cerca de metade dos 2,5 milhões arrecadados semanalmente pelo tráfico, de acordo com investigação da Polícia Civil divulgada pelo jornal Extra.
Segundo os policiais, esse tipo de exploração também ocorre com mais força em favelas como Nova Holanda e Parque União (no Complexo da Maré), Vila Cruzeiro (Complexo da Penha), Morro do Dendê (Ilha do Governador) e Salgueiro (São Gonçalo).
Neste último, há informações de que traficantes de comunidades menores pagam taxas para o bando local para ficarem escondidos ali.
Na região da Cidade Alta, por exemplo, na zona norte do Rio, as extorsões já ultrapassam os limites da favela. Para poder explorar áreas maiores, os traficantes forçam a expansão territorial por meio de barricadas, feitas com trilhos de trem e pedaços de madeira.
“Não ouvíamos falar de barricadas ali três anos atrás. O tráfico que dominava Cidade Alta desceu, não domina mais só lá, mas também Brás de Pina, Cordovil, Cinco Bocas [bairros considerados formais]. E aí começam a cobrar proteção, gás, TV”, diz Zeca Borges, do Disque Denúncia.
Uma das denúncias anônimas, feita na última quinta-feira (2), afirma que, “na avenida citada, […] diariamente são vistos quatro traficantes, fortemente armados, fazendo a cobrança de um pedágio aos motoristas que passam”.
Um outro relato de julho cita uma guarita e uma cancela que teriam sido instaladas por um ex-policial, que estaria cobrando R$ 50 mensais como uma suposta taxa de segurança. Nessa região, segundo as denúncias, a facção Terceiro Comando Puro se aliou a uma milícia.