Tragédia no Petrópolis: a inocência da Amazonas Energia e a culpa das crianças

Esse é mais um daqueles textos em que a primeira frase que me vem a cabeça é uma das máximas de minha saudosa e sábia mãe cabocla: “Depois que conheci os humanos, aprendi a gostar dos bichos”. Estou dizendo isso meu povo porque esse é um dos casos em que fico enojada com o comportamento das pessoas diante da tragédia em que, de um lado, esta o povo e de outro está uma empresa, com todo o poder do dinheiro e da influência.

Estou falando sobre o que aconteceu no bairro Petrópolis, na zona sul de Manaus, quando um cabo da rede de distribuição de energia elétrica se soltou e caiu sob um chamado “pula-pula” onde três crianças brincavam, duas meninas, uma de 2 anos e a irmã de 6 anos, e um primo, de 4 anos. As crianças ficaram feridas, o menino teve 70% do corpo queimado.

As crianças só não morreram pela ação imediata de adultos para tirá-las do brinquedo. Várias pessoas da família estão com queimaduras e um vizinho, o auxiliar de serviços gerais, Eder da Silva, de 38 anos, morreu eletrocutado.

Sei que nesse momento em que estão lendo o texto vocês devem estar se perguntando: Mas, o que tem isso a ver com a ojeriza de Any pelo comportamento das pessoas? Eu respondo! Só faltou a Amazonas Energia culpar as crianças pela tragédia e, de certa forma, descaradamente fez isso.

A explicação dada pela Amazonas Energia, para um fio da rede de distribuição de energia elétrica de repente cair sobre crianças, mais um daqueles fios podres que se espalham pela cidade, sem troca e sem manutenção, foi esta: “Nas primeiras avaliações, equipes técnicas avaliaram a situação da rede elétrica na área do acidente – eles chamam incompetência e descaso com a vida de cidadãos de ‘acidente’ – e foi constatada a presença de muitos objetos estranhos à rede, elementos cortantes como linha de cerol e papagaios de papel entrelaçados em boa parte dos cabos de média e baixa tensão, tendo sido a causa do acidente”.

Ou seja, a culpa é das crianças que soltam papagaios e não da empresa que não faz manutenção e manda retirar os “objetos estranhos” que estão presos nos fios. Bom lembrar que, ao contrário de outras cidades brasileiras que já têm parte de sua rede elétrica subterrânea, Manaus ainda tem um sistema de distribuição de energia com esses fios pendurados sobre as nossas cabeças.

A empresa não tem culpa nenhuma por não trocar seus equipamentos sucateados, querer ter sempre mais lucro, cobrar um valor absurdo de cidadãos pobres por um fornecimento de energia de péssima qualidade e ainda manter uma rede de distribuição sem investimentos, velha e carcomida.

E diante dessa situação revoltante não vou eximir de culpa certos colegas de profissão que sequer questionaram a total responsabilidade – ou seria melhor dizer irresponsabilidade? – da Amazonas Energia sobre o que seus donos chamam de “acidente” e eu chamo de tragédia. Se bem que muitas vezes a culpa não é do repórter que só pode escrever o que o dono do veículo de comunicação manda e o patrão tem relações comerciais com a empresa.

E cadê os políticos que posam de defensores dos direitos dos consumidores? Comeram abiu é? E cadê os representantes do povo que não falaram nada e sequer orientaram que essas pessoas deveriam processar essa empresa pela tragédia? Pois eu falo! Esse tipo de gente sem coração tem que ser punido no bolso, que é o “órgão” do corpo deles que mais dói.

E lá volto a lembrar o quanto amo meu fiel amigo, meu cachorro, que protesta latindo diante de qualquer sofrimento que possa me atingir, enquanto muitas pessoas são injustas e omissas, ou até as duas coisas juntas, diante diante das tragédias humanas. Viva os bichos!