Tribunal do Júri condena os assassinos da líder comunitária Dora Priante

Num julgamento do Tribunal do Juri que começou na manha dessa sexta-feira (24) e foi acabar por volta das 6h30 deste sábado (25), com quase 20 horas de duração, os acusados do assassinato da líder da Comunidade Portelinha (Iranduba/ AM), Maria das Dores dos Santos Salvador Priante, conhecida como Dora Priante, foram condenados por homicídio qualificado. O juri, formado por seis mulheres e um homem, decidiu pela pena de reclusão de 20 anos para Adso Dias da Silva, chamado de “Pinguelão”, considerado o mentor intelectual do crime e 19 anos de prisão para Ronaldo de Paula da Silva, apelidado de “Novo”, que pelos autos do processo cooperou com a trama. (ver sentença no final da matéria)

“O Tribunal do Júri representa a sociedade, esta é a decisão da sociedade. Então, não é o juiz togado que condena ou absolve, cabe ao juiz o cálculo da pena conforme determina o Código Penal. Neste caso, a condenação, para reprimir este tipo crime”, afirmou a juíza de direito Vanessa Leite Mota.

No dia 12 de agosto de 2015, Dora foi sequestrada de sua casa na Comunidade, e no dia seguinte, 13 de agosto, o corpo da vítima foi encontrado no km 52 (ramal do gasoduto), com indícios de tortura e 15 tiros de perfurações por arma de fogo, constatado no Exame de Morte Violenta.O processo arrolando os demais acusados de envolvimento no crime foi desmembrado e ainda está em tramitação na Justiça.

“É uma sentença exemplar para um crime tão cruel e covarde. As investigações mostram que não se tratava de um crime simples, mas sim, tramado por uma organização. A condenação não ameniza a dor que sentimos pela falta dela, mas nos ajuda a seguir acreditando. A justiça foi feita”, disse o viúvo, Jerson Priante.

Pelas investigações a morte foi motivada por conflitos de terra entre a líder comunitária e Adso Dias da Silva, que vendia o mesmo terreno para diversas pessoas e depois ameaçava quem o denunciava, prática combatida pela vítima. Já Ronaldo de Paula da Silva morava com ela há cerca de três anos, foi quem sinalizou para os sequestradores o momento em que Dora Priante estaria em sua residência sozinha.

A promotora de justiça, Aurely Pereira de Freitas, ressaltou durante o pronunciamento do Ministério Público do Estado, que as características deste homicídio, com requintes de crueldade, confirmam que se tratava de uma mensagem: “Não fique no meu caminho. Não me prejudique”. “Ninguém é morta assim se não tiver incomodado muito. Ninguém! Então a condenação dos réus foi proporcional a gravidade do crime”, expôs.

A líder comunitária chegou a denunciar as ameaças de morte e a venda ilegal feita por Adso por meio de vários Boletins de Ocorrência registrados na delegacia de Iranbuba, e até mesmo na tribuna da Assembleia Legislativa, em cessão de tempo do deputado estadual José Ricardo (PT).

Desde a manhã da sexta-feira (24), comunitários, familiares, amigos e representantes de vários movimentos sociais como Fórum Permanente de Mulheres, Conselho Estadual de Direitos das Mulheres, Movimento Mulheres Solidárias da Amazônia (Musa), Pastorais da Terra e Operária lotaram a galeria e o plenário da Câmara Municipal de Manacapuru, onde ocorreu o julgamento. A Comissão de Direitos Humanos, Cidadania e Legislação Participativa da Assembleia Legislativa também acompanhou todo a sessão.

Especial para o Radar: jornalista Meg Rocha

SENTENÇA JULGAMENTO