Tuberculose, assim como Covid, é transmitida pela respiração, concluem cientistas

Ao contrário do que se pensava, tosse, sintoma clássico da doença, espalha quantidade menor de bactérias

Homem espera para ser testado em exame que detecta tuberculose, em clínica móvel perto da Cidade do Cabo – Mike Hutchings – 26.mar.2021/Reuters

Uma equipe de pesquisadores da África do Sul derrubou séculos de dogmas médicos ao constatar que a respiração pode contribuir mais do que a tosse, o sintoma mais conhecido da doença, para a difusão da tuberculose.

Até 90% das bactérias de tuberculose liberadas por uma pessoa infectada podem ser carregadas em pequenas gotículas, conhecidas como aerossóis, expelidas quando uma pessoa exala profundamente, calcularam os pesquisadores. As constatações foram apresentadas na terça-feira (19) durante uma conferência científica realizada online.

O relatório ecoa uma constatação importante que surgiu na pandemia de Covid-19. O coronavírus, igualmente, se espalha por meio de aerossóis que se movem pelo ar –especialmente em espaços fechados–, uma rota de transmissão que era seriamente subestimada no momento em que a pandemia começou a se desenvolver.

A tuberculose é causada por uma bactéria chamada Mycobacterium tuberculosis, que usualmente ataca os pulmões. Trata-se de uma das doenças infecciosas mais mortíferas do planeta, logo abaixo da Covid-19, e custou mais de 1,5 milhão de vidas no ano passado –a primeira alta no número de fatalidades causadas por ela em uma década, de acordo com um relatório publicado na semana passada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Enquanto a pandemia da Covid causava dificuldades às cadeias de suprimento e ao acesso a serviços de saúde em todo o planeta, 5,8 milhões de pessoas foram diagnosticadas como portadoras de tuberculose em 2020.

No entanto, a OMS estima que o número total de infectados tenha sido de cerca de 10 milhões de pessoas. Muitas outras podem estar transmitindo a doença a terceiros sem que saibam estar contaminadas.

“Nosso modelo sugeriria que, na verdade, a geração de aerossóis e a geração de tuberculose podem acontecer independentemente dos sintomas”, disse Ryan Dinkele, estudante de pós-graduação na Universidade da Cidade do Cabo que apresentou o trabalho.

A constatação ajuda a explicar por que espaços fechados e superlotados, como presídios, se tornam polos de contágio de tuberculose, da mesma forma que acontece com a Covid. E a pesquisa indica que alguns dos métodos usados para limitar a transmissão do coronavírus –máscaras, manter as portas e janelas abertas, e passar o maior tempo possível ao ar livre– são importantes para conter a tuberculose.

“Aqueles de nós que trabalham com a tuberculose observaram a Covid e pensaram que, uau, ela não passa de uma versão acelerada da tuberculose”, disse o médico Robert Horsburgh, epidemiologista da Universidade de Boston, que não participou da pesquisa.

Antes, os pesquisadores acreditavam que a transmissão da tuberculose acontecia quando uma pessoa infectada tossia, lançando gotículas que continham a bactéria na direção de terceiros. A impressão era de que algumas bactérias fossem liberadas na respiração dos portadores, mas em quantidade muito menor do que a liberada na tosse.

A nova descoberta não altera essa percepção: uma tossida pode expelir mais bactérias do que uma exalação. Mas uma pessoa infectada exala 22 mil vezes por dia, e tossiria um máximo de 500 vezes, o que significa que a tosse pode responder por apenas 7% do total de bactérias expelidas por um paciente infectado, disse Dinkele.

Em um ônibus lotado, na escola ou no trabalho, nos quais as pessoas ficam sentadas por horas em espaços confinados, “simplesmente respirar pode contribuir mais aerossóis infecciosos do que a tosse contribuiria”, disse Dinkele.

No chamado movimento respiratório normal, a inalação abre pequenas bolsas de ar no pulmão, e a exalação carrega as bactérias para fora dos pulmões em forma de aerossóis. Por causa de seu tamanho menor, os aerossóis liberados pelo movimento respiratório normal podem se manter flutuando no ar por mais tempo e percorrer distâncias maiores do que as gotículas emitidas na tosse.

Como no caso da Covid, alguns pacientes de tuberculose transmitem a doença a muitas pessoas –e podem difundir grande número de bactérias–, enquanto outros infectam poucas das pessoas que os cercam.

Mas mesmo que 90% das bactérias expelidas por uma pessoa infectada sejam carregadas por aerossóis, isso não significa que essa rota de transmissão responderia automaticamente por 90% dos casos novos da doença, ponderou a médica Silvia Chiang, que estuda a doença na Universidade Brown.

Ainda assim, dizem especialistas, a constatação aponta que os médicos não devem esperar que pacientes de tuberculose cheguem a uma clínica apresentando só perda de peso e tosse severa, os sintomas mais associados à doença.

“Precisamos avaliar toda a população, como aconteceria se estivéssemos em busca de uma grande presença de Covid”, disse Horsburgh.

A descoberta veio em grande parte de uma tecnologia desenvolvida por Robin Wood, professor emérito de medicina na Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul. O aparato é capaz de recolher aerossóis de pessoas infectadas e identificar as bactérias carregadas por eles.

O diagnóstico e tratamento da tuberculose mudou muito pouco nas últimas décadas.

“Já era hora de começarmos a usar tecnologia moderna, atualizada, para lidar com uma doença antiga”, disse Wood.

Com algumas alterações, o sistema também poderia ser usado para estudar outras doenças, incluindo a Covid, ele acrescentou.

A tuberculose existe há milênios, e sua causa é conhecida há quase 150 anos.

“E, ainda assim, continuamos a descobrir coisas novas sobre uma parte tão fundamental de sua biologia”, disse Dinkele. “É uma lição de humildade perceber que precisamos ser tão cuidadosos ao lidar com uma abordagem dogmática em um determinado campo”.