Um Brasil que não enxerga o Brasil

O texto deste na Mira do Radar era outro. Eu iria escrever sobre o corte de recursos em programas sociais feito pelo presidente Messias Bolsonaro para o ano de 2020, o que pode causar um aumento ainda maior das desigualdades no País.

Mas aí fico sabendo, através do social mídia do Radar, que grande parte dos comentários feitos no vídeo Sinais do Radar da sexta-feira passada, 20 de dezembro, cujo tema da Boladona foi “Natal, sem peru e sem churrasco” refutava que houvesse pobre no Brasil sem dinheiro para comprar peru e nem carne pra churrasco por causa do preço desses produtos.

“Sai daí sua doida tu tá é na Venezuela boladona tu sai pra falar mal do nosso Brasil que está ficando de pé graças ao nosso presidente””, diz o internauta Fabiano da Silva Alves – vale destacar que a falta de pontuação e os erros de conjugação dos verbos não são de nossa responsabilidade. Outro internauta, Klilton de Jesus, diz: Fui no Amazonas nesse final de semana que as coisas são caras né! Não dava nem pra andar tudo lotado – realmente é muito técnico medir a pobreza ou a riqueza pela quantidade de gente num shopping.

Mas eles apenas reproduzem o discurso de um presidente que já afirmou não existir fome no Brasil. “Passar fome no Brasil é uma grande mentira”, disse Messias Bolsonaro em um café da manhã com jornalistas. O presidente refuta dados dos pesquisadores do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) que apontam que a extrema pobreza atingiu um recorde de 13,5 milhões de brasileiros. De 2014 pra cá 4,5 milhões caíram para a extrema pobreza, passando a viver em condições miseráveis, levantou o IBGE.

O Brasil do presidente Messias Bolsonaro não enxerga o Brasil. Os meninos que estão nos sinais e as adolescentes que se prostituem por trocados são invisíveis ou são vistas com normalidade numa estrutura social comandada pelos “escolhidos por Deus”. Essa visão de normalidade para com a miséria fica clara quando Bolsonaro chega a defender o trabalho infantil que, segundo ele, “não prejudica em nada” as crianças.

Ao contrário do presidente Messias, um homem tão racional e equilibrado, devo estar realmente doida vendo pobreza pelas periferias de Manaus e nas cidades do interior do Estado, ao invés de observá-la nos shoppings de Manaus. Assim como devo estar abilolada mesmo por não tomar a Venezuela como meu parâmetro de pobreza e me incomodar que os miseráveis no Brasil atingiram número superior à população de países como Portugal, Bélgica, Cuba e Bolívia (dados da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE).

Realmente não é normal da minha parte achar errado o governo do Messias cortar recursos de programas sociais como Minha Casa, Minha Vida, Luz para Todos e até a Farmácia Popular, única maneira de certas pessoas conseguirem remédio mais barato.

Afinal, pra quê esses programas existem já que não existe pobreza no Brasil?