Um vírus que mata e homens que exercem seus podres poderes

Na solidão do isolamento domiciliar me peguei várias vezes cantarolando essa música pela casa, “Podres Poderes” de Caetano Veloso. Ela começou, quase que inconscientemente, a batucar aqui dentro da minha cabeça, desde que vi certas atitudes de homens públicos durante esse período de pandemia de coronavírus.

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes, morrer e matar de fome de raiva e de sede. São tantas vezes gestos naturais” diz a música que foi lançada em 1984, ou seja, 36 anos atrás, mas parece tão atual quando me deparo com homens exercendo seus podres poderes de tratar gente como coisas que podem ser descartadas. “Vai morrer gente!”, diz o presidente Messias Bolsonaro sobre as consequências da pandemia de coronavírus, com uma naturalidade doentia que mas parece uma manifestação de contentamento.

Ele e seus ministros falam das mortes que estão sendo causadas pela Covid-19 como se fossem meras estatísticas e não dão muita importância, afinal, dizem eles, morreu mais gente durante outras gripes como a espanhola, por exemplo. Pra eles, os mortos não passam de números, sem rostos, sem família, sem sentimentos, sem nada.

Mas importante que o número de mortos, são os números econômicos, tipo crescimento do PIB, baixa taxa de juros, conter os índices inflacionários coisas do tipo que dão voto e fazem ganhar eleição. Pode faltar vaga em cemitério, mas não pode faltar dinheiro nas contas do governo. Então tem que botar a peãozada pra trabalhar. Não importa que alguns morram. É uma perda necessária! Um sacrifício em nome da Pátria!

“Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América Católica, que sempre precisará de ridículos tiranos”, diz a canção, me fazendo lembrar do ridículo homenzinho com ares de ditador que ao invés de estar preocupado em livrar os brasileiros da morte pelo coronavírus ou pela fome, prefere dar ataques de raiva e de recalque contra o próprio ministro da Saúde que ele, como num golpe de sorte, escolheu.

E eu, como na canção, “quero aproximar meu cantar vagabundo daqueles que velam pela alegria do mundo”, porque apesar dessa gente, esse tempo vai passar e a gente vai ser feliz, custe o que custar.