Uma cena quase inacreditável!

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Eu quero ver quem diz (e prova) que imaginava um dia ver nossa miúda bancada de parlamentares federais, fazendo festa, bem no meio do plenário do Senado, diante de sorrisos amarelos e jeito um tanto constrangido de outros parlamentares das maiores e poderosas bancadas do Congresso Nacional. Quem já testemunhou fatos ocorridos em épocas passadas onde estava em discussão a prorrogação dos incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus (ZFM), e não sofre de memória curta, deve lembrar muito bem como éramos tratados. Que me desculpem a comparação escrachada, mas não há como negar que nessas questões de política econômica sempre fomos tratados como a mosca do cocô do cavalo do bandido que morreu na última cena do filme, em preto e branco. Ou seja, os interesses dos grandes centros industriais, políticos e eleitorais do País sempre estiveram acima dos nossos interesses. Muitas vezes fomos tratados como se nem fizéssemos parte do mapa do Brasil, ou como mero anexo de outro Brasil, definido anos atrás por um jornalista paulista, como um país onde São Paulo era o “trem”, e outros Estados eram apenas vagões que viviam a reboque daquela unidade da Federação – deu até vontade de encher esse bossal de sopapo.

Mesmo a contragosto, o que nos restava era “engolir” essa realidade e ponto final. Por isso foi tão importante ver a cena, ao final da votação da PEC da ZFM no Senado Federal, com  nossos parlamentares aos berros (deu pra ouvir por quem estava acompanhando a votação pela TV), e aos pulos, sem o menor pudor de ser feliz diante da aprovação de mais 50 anos de uma política fiscal diferenciada para o Amazonas. E ninguém me venha com esse discurso cheio de frases como “uma questão de justiça prorrogar a ZFM”, e repleto de felicitações por parte da bancada paulista e, na sua maioria tucana, porque ninguém aqui é leso e desmemoriado. No Radar, somos de um tempo em que vimos os tucanos não estarem nem aí para o fato de que nasceu no Amazonas o líder do então presidente Fernando Henrique Cardoso, também do PSDB, na Câmara Federal, Artur Virgílio Neto, hoje prefeito de Manaus. O amazonense Artur Neto, com total justiça, chegou a ser ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República. Mas, isso não os fez recuar nenhum centímetro na malfadada ideia de nos impor uma Medida Provisória (n° 1.602), em 1997, que reduzia os índices de isenção da ZFM gradativamente, transformando em Lei uma “sentença de morte” lenta até 2013, ou seja, só sobreviveríamos até o ano passado. Mantivemos-nos vivos por uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em favor do Amazonas, que determinou a inconstitucionalidade da Medida Provisória, após ADIN impetrada pelo então governador Amazonino Mendes.

Os elogios e palmas de ontem, naturais no jogo da hipocrisia política, não nos convence diante de uma PEC que estava na Câmara desde 2011 e que só foi votada, depois de muito eles empurrarem com barriga, após muita articulação do próprio Governo Federal, que dessa vez respeitou o fato do seu líder ser um dos nossos, o senador amazonense Eduardo Braga, e lhe deu carta branca para negociar. E só foi aprovada depois que o Governo Federal abriu mão de bilhões em impostos que poderiam ser arrecadados no setor de tecnologia – o valor da renúncia fiscal em 2012 com os bens de informática foi de R$ 7 bilhões. Assim qualquer um vota a favor, não é mesmo? Quando conseguiram o que queriam votaram a nosso favor, e agora vêm com esse lero-lero de que aprovaram porque têm compromisso com um “modelo que preserva o meio-ambiente”, “com a manutenção dos empregos da nossa gente” e mais um monte de lambanças. Pois, digo a vocês, Dilma Roussef subiu muito no meu conceito (não votei nela na última eleição), e Braga também (também não votei nele), por terem me feito sentir algo que deve ter sido parecido com o que o povo da Costa Rica sentiu ao ganhar de três campeãs mundiais cheias de empáfia e arrogância, ou semelhante a termos vencido nas semifinais da Copa do Mundo. Dessa vez, eles tiveram que nos engolir e aplaudir nossa alegria, mesmo com a maior falsidade. (Any Margareth)