Vacina num tem não, mas cloroquina tem de montão pros caboclos do Amazonas

Foto: Semcom

A cena no lançamento do chamado “Plano Estratégico de Enfrentamento à Covid-19 no Amazonas”, com direito a palco para as autoridades, plateia e imprensa – menos o Radar por motivos óbvios – foi semelhante à de um quartel com militares de menor patente, de cabo a soldado raso, todos de cabeça baixa e ar resignado, aceitando tudo que o general falava em tom de ordem – só faltaram bater continência.

O ministro da Saúde do governo de Messias Bolsonaro, o general Eduardo Pazuello, mandou e desmandou, disse em recado direto e reto ao prefeito de Manaus David Almeida, que seu pessoal iria pessoalmente nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) para ver se estava sendo feito o que ele chama de “tratamento precoce”, que nada mais é do que mandar os pacientes tomarem cloroquina, remédio que não tem nenhuma comprovação científica de sua eficácia e que já foi até banido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) no tratamento da Covid-19.

O general ministro da Saúde não falou, por exemplo, sobre a construção de um hospital de campanha que seus colegas de farda, os bravos homens do Exército Brasileiro, conseguem montar em menos de uma semana, já que os hospitais do Amazonas estão superlotados. O general também não falou sobre médicos, infectologistas, enfermeiros, intensivistas, quantos virão, quando chegarão e quanto tempo ficarão para cuidar dos cidadãos brasileiros que vivem no Amazonas.

O general passou ao largo das soluções para a falta de oxigênio nos hospitais que está matando muita gente nas últimas 48 horas no Amazonas. O máximo que fez e ainda com o maior estardalhaço na imprensa nacional, foi enviar por aviões da FAB 200 cilindros de oxigênio que mal dão para suprir a necessidade deum hospital do interior do Estado.

E, quanto a vacinação contra a Covid-19, que avança em outros países, mas empacou faz tempo no Brasil, mesmo com a marca desoladora de mais de 200 mil mortos no País, o ministro general ou vice-versa, deixou claro que não vai levar em consideração os seguidos recordes no número de casos de Covid-19 e de mortes no Amazonas, nem as condições geográficas de um Estado com tamanho de país, onde as cidades são distantes e a locomoção é complicada. Não haverá qualquer prioridade para o Estado na vacinação. Em tom um tanto quanto debochado, muito inapropriado para os dias de profunda tristeza pelos quais passam o povo do Amazonas, o general saiu com essa: “A vacina vai começar no dia D, na hora H, no Brasil” – só faltava ele ter terminado a frase com: “enquanto isso vocês se f….”

E enquanto não chega o dia D, nem a hora H, do capitão Messias Bolsonaro e nem do general Pazuello, o que restou apenas para o povo do Amazonas é ser entupido pelo coquetel de cloroquina, a mesma cloroquina que nem o sequelado do presidente Donad Trump quis para a população do seu país. “Não mata ninguém”, disse o ministro, determinando que os médicos do Amazonas têm que fazer os pacientes tomarem a cloroquina, mesmo sem ter sido feito diagnóstico através de exames, basta apenas sintomas de Covid-19, não por acaso muito semelhantes a outras síndromes respiratórias, e tasca cloroquina no caboclo.

Quem sabe assim Messias Bolsonaro e seu general ministro da Saúde consigam se livrar de milhões de comprimidos de cloroquina que o presidente determinou ao brioso Exército Brasileiro fabricar e que viraram alvo de investigação pelo Ministério Público Federal e Tribunal de Contas da União, por causa de indícios de superfaturamento, já que a compra de insumos para fabricação da cloroquina, adquiridos da Índia, teria custado seis vezes mais do que o valor pago pelo Ministério da Saúde no ano anterior, em 2019.