Variante Ômicron desfalca equipes de hospitais, e afastamentos já afetam serviços de saúde no país

Levantamento mostra que cidade de São Paulo tem uma das altas mais expressivas, com cerca de 270 profissionais impedidos de trabalhar; em Fortaleza, número aumentou mais de 400% em um mês

Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo

Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo

A recente explosão no número de casos de Covid-19 começa a preocupar um grupo fundamental no combate à pandemia — os profissionais de saúde. Embora faltem dados oficiais, levantamento feito pelo GLOBO com instituições de saúde do setor público e privado mostra o início do crescimento de afastamentos do trabalho por síndrome gripal, em especial Covid-19, a partir do fim de dezembro.

A cidade de São Paulo tem uma das altas mais expressivas. O número de profissionais de saúde da rede pública afastados após terem contraído Covid-19 quase triplicou em menos de um mês. Segundo dados da prefeitura, em 9 de dezembro do ano passado, o município estava desfalcado em 90 profissionais por conta da doença. Quatro semanas depois, no dia 6 de janeiro de 2022, já eram 269 registros, um crescimento de 198,8%. Na rede estadual são mais 1.754 longe do trabalho pelo mesmo motivo.

“O problema que vem à tona hoje é a redução do quadro de funcionários porque eles precisam ficar afastados. A preocupação é não ter profissionais e os médicos remanescentes caminharem para uma exaustão. Isso já está acontecendo. Colegas relatam dificuldade para compor suas equipes”, diz o médico César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB).

Ainda na capital paulista, o Hospital Santa Catarina tem 54 colaboradores afastados por síndrome gripal e Covid-19. Esse montante representa 2,35% do quadro de funcionários. O Hcor está com 4% de sua força de trabalho em casa. No Hospital Israelita Albert Einstein, 2,8% do total de funcionários da organização foram diagnosticados com Covid-19 nos primeiros oito dias do ano.

Equipes reduzidas

Para os especialistas, embora grande parte dos contágios pela variante Ômicron serem de pouca gravidade, o resultado prático é um cenário de equipes desfalcadas e um potencial agravamento da crise de atendimento nas redes de saúde.

|”Os últimos dias têm sido de grande preocupação porque o relato de todos os hospitais é de um aumento na procura pelos pronto atendimentos por pessoas com casos leves, que não precisariam estar no hospital. Essa demanda é contraproducente porque ajuda a aumentar o contágio e também diminui o número de profissionais disponíveis. Nós temos hospitais com 10% do quadro de profissionais afastados por Covid”, diz Antônio Britto, diretor-executivo da Associação Nacional de Hospitais Privados (ANAHP).

No município do Rio, cerca de 5,5 mil profissionais de saúde precisaram ser afastados por conta de Covid-19 ou influenza, desde dezembro. A baixa corresponde a cerca de 20% da força de trabalho da secretaria.

Em Belo Horizonte, onde há longas horas de espera em Unidades Básicas de Saúde e aumento da ocupação dos leitos de enfermaria e UTI, 487 trabalhadores pediram dispensa por doenças respiratórias no mês de dezembro. O número representa 4% do total dos quadros, segundo dados da secretaria municipal de Saúde.

Assim como na população em geral, o contágio provocado pela variante Ômicron, de alta transmissibilidade, caminha a passos largos nos serviços de saúde. Em Fortaleza, 506 profissionais estão com suspeita de Covid. Entre novembro e dezembro, foram 21 ocorrências. Entre dezembro e janeiro, o número saltou para 109 — ou seja, 419%.

Quarentena menor

A situação ganhou outros contornos com as novas regras para quarentena divulgadas pelo Ministério da Saúde na segunda-feira. A recomendação prevê a isolamento reduzido a cinco dias para pessoas assintomáticas, desde que haja teste negativo para a Covid. Na ausência de testagem, o prazo sobe para uma semana. Quem tiver sintomas deve cumprir o prazo anterior, de dez dias.

Recentemente, a França tomou uma decisão mais radical: permitir que profissionais de saúde infectados com o coronavírus com poucos ou nenhum sintoma continuem tratando os pacientes em vez de se isolarem. A medida tem caráter extraordinário, justamente destinada a diminuir o encolhimento de pessoal em hospitais durante explosão de casos da nova cepa.

Para o médico César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), a possibilidade de permitir que médicos infectados atendam ou reduzir o tempo de afastamento por cinco dias sem a necessidade de apresentar teste negativo para o retorno vai depender do cenário.

“Em situações extremas, isso seria uma possibilidade a ser discutida, mas não é o caso no momento. Embora eu já tenha relatos de que algumas equipes estão bastante desfalcadas, tomando o cenário geral, ainda não há colapso”,  afirma Fernandes.

A Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde) seguiu o exemplo francês e solicitou aos ministérios do Trabalho e Emprego e da Saúde, na última sexta-feira, que profissionais contaminados com Covid-19 não sejam afastados do trabalho caso estejam assintomáticos e tenham tomado a dose de reforço da vacina contra a Covid-19. Para os que apresentarem sintomas, a regra muda: o atestado deverá ser de cinco dias.

Nos Estados Unidos também houve redução do tempo de afastamento de profissionais de saúde, mas de forma menos drástica. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) permitiram que os assintomáticos retornem ao trabalho após sete dias, desde que apresentem teste negativo. O período pode ser reduzido ainda mais se houver escassez de pessoal. Além disso, aqueles que receberam as doses recomendadas da vacina não precisam ficar em quarentena após exposições de alto risco.

Sobrecarga

Para o diretor da ANAHP, o Brasil não enfrentará problemas como os da França.

“O esforço que estamos fazendo no sentido de tentar mobilizar a população a evitar a demanda desnecessária nos hospitais é exatamente para impedir que tenhamos problemas assim. Mas para que isso definitivamente não ocorra, é muito importante que a população tente etapas preliminares antes de ir aos hospitais”, defende Britto.