‘Vivi dias sombrios, lutava até para calçar os sapatos’, revela Andy Murray

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O tenista ex-número 1 do mundo não era o mesmo. O simples ato de colocar meias e um par de sapatos se transformou em uma luta árdua e sofrível para ele. O saque, outrora potente e preciso, deu lugar a um fraco movimento de pronação impactado pela perna que resistia em flexionar, perdendo a aceleração no golpe. Andy Murray cogitava encerrar sua carreira.

“Vivi dias sombrios quando o meu quadril estava no pior momento”, disse o tenista, considerado o maior atleta da história do esporte britânico, em entrevista exclusiva ao Estadão, referindo-se à lesão que quase o forçou a antecipar a aposentadoria.

O histórico de outros gigantes da modalidade com a mesma lesão não oferecia muita esperança para Murray. Gustavo Kuerten, o Guga, e o sueco Magnus Norman, ambos também com passagens pelo posto mais alto do ranking mundial, viram suas carreiras degringolarem depois de cirurgias e tratamentos mal sucedidos da lesão no quadril.

Em janeiro de 2019, o três vezes campeão de Grand Slam (dois títulos em Wimbledon e outro no US Open), que fez parte por vários anos do chamado Big 4 do tênis mundial ao lado de Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic, anunciou a aposentadoria ainda naquele ano, alguns meses após retornar da primeira cirurgia no quadril. “Eu estava pronto para me aposentar. A dor no meu quadril era tanta que lutava para calçar meus próprios sapatos”, contou Murray.

No mês seguinte, o tenista decidiu fazer uma segunda cirurgia, que mudaria o rumo de sua carreira. A recuperação seria ainda mais intensa do que a primeira. Porém, ao longo dos meses, Murray passou a se sentir mais apto em relação aos seus movimentos. Aos poucos, de um singelo caminhar mais seguro de si até o fato de não sentir mais nenhum incômodo nos treinos, o atleta britânico desistiu de pendurar as raquetes.

A superação sempre fez parte da vida dele. Quando tinha 8 anos, ele e seu irmão Jamie escaparam de um tiroteio na escola em que estudavam, a Dunblane Elementary School. Na ocasião, 16 crianças e um professor foram mortos. Murray nunca falou sobre isso, mas em sua biografia ele conta que se escondeu debaixo da mesa do diretor com seu irmão.

Então, após sete meses parado, duas cirurgias e tantos choros de frustração nas quadras – o que para um tenista de alta performance é como se fosse voltar a jogar pela primeira vez -, Murray, enfim, retornava ao esporte que tanto ama. E em apenas dois meses, para a surpresa de muitos, e até dele mesmo, seria campeão novamente, no ATP da Antuérpia, sobre Stan Wawrinka. Um feito enorme, não do mesmo nível que um Grand Slam, como ele mesmo admitiu para a reportagem, mas emocionalmente equiparável para o britânico.

Nesta temporada, Murray, que foi condecorado com a maior honraria possível a um cidadão britânico, que é o título de Sir, dado pela Rainha Elizabeth II, em 2016, disse ao Estadão que está sem dores no quadril e se sente, hoje, como se estivesse com 20 anos. No Aberto da Austrália, foi uma das baixas do torneio por ter testado positivo para covid-19. Mas o balde de água fria no primeiro Grand Slam do ano não tirou o foco do ex-número 1, que afirma que a Olimpíada de Tóquio é a sua grande meta para o ano, onde ele defenderá a medalha de ouro.

O Aberto da Austrália é um dos seus campeonatos favoritos. Quando você soube do teste positivo para covid e que não poderia jogar em Melbourne, o quão decepcionante foi isso?

Sim, eu fiquei obviamente muito desapontado. Como você disse, é um dos meus torneios favoritos e uma ótima forma de começar o ano. Treinei tanto para chegar à Austrália. Então, foi realmente um baque não ter conseguido estar lá este ano.

Quais eram suas expectativas para o Aberto da Austrália e para o começo da temporada?

Eu estava me sentindo bem e ansioso para voltar às quadras. Fiquei satisfeito com a forma como joguei contra Daniel Evans e Cameron Norrie em dezembro e estava indo bem, então esperava poder melhorar ainda mais meu jogo na Austrália.

E depois de alguns anos difíceis que você passou na sua carreira, quais são suas metas e objetivos para até o fim desta temporada?

Espero poder jogar muito mais do que no ano passado, presumindo que os torneios possam continuar (devido à pandemia). E eu realmente gostaria da oportunidade de defender minha medalha de ouro olímpica em Tóquio. Então espero que os Jogos também possam acontecer. Esse é o grande foco para mim este ano.

Você tem um documentário na Amazon, relatando a sua jornada para vencer a lesão no quadril. Como está a sua condição física neste momento e como está o seu quadril especificamente?

Estou sentindo meu quadril bem melhor agora. Em 2019, estava pronto para me aposentar. Meu quadril estava doendo tanto que me lutava para calçar os próprios sapatos. Mas minha última operação correu muito bem e, enquanto estava de folga, percebi como jogar tênis ainda era importante para mim. Espero que eu ainda tenha alguns bons anos à frente das quadras.

Você ainda sente dor nos treinos e nas partidas?

Não, meu quadril está absolutamente bom agora. Sou capaz de me mover com muito mais liberdade durante o treinamento e as partidas, e não sinto dor quando saio da quadra.

Por diversas vezes, na pior fase da sua carreira, há dois anos, você dizia que vivia com uma dor insuportável. Como é viver com a dor?

Vivi dias sombrios quando meu quadril estava em seu pior momento. Tinha longos períodos em que não conseguia jogar ou mesmo treinar, e para mim isso era muito difícil. Tênis é tudo o que conheço e é o que eu amo, então não ser capaz de pegar uma raquete foi extremamente difícil. Também achei muito difícil seguir, ao pé da letra, todos os conselhos que me deram para voltar a jogar tênis, mas por muito tempo não vi nenhuma melhora e isso foi muito difícil de lidar. Eu sentia que não merecia aquilo.

Ainda sobre o impacto da sua lesão, quem acompanha o circuito de tênis sabe que o Del Potro teve uma grave lesão no punho e isso acabou mudando alguns movimentos do jogo dele, como o backhand em que ele passou a usar muito mais o slice do que a batida chapada. Para você, a lesão no quadril fez isso com o seu jogo de alguma forma?

Antes das cirurgias, era difícil estender a perna corretamente. Minha perna direita sempre se dobrava quando eu ia endireitá-la e isso afetava meu saque. Então, eu tinha de mudar a forma como levantava a bola no saque e, desse jeito, não conseguia me transpor tão bem para acertar a bola com força. Felizmente, agora minha perna se estende corretamente. Então, novamente, sou capaz de servir muito melhor e com tanto empenho quanto aos 20 anos, o que é ótimo porque é uma parte muito importante da estratégia de jogo.

A lesão no quadril encurtou a carreira do maior jogador do Brasil, o também ex-número 1 Gustavo Kuerten. Você já anunciou aposentadoria, cancelou e voltou com título e vitórias. Mas há um lado seu que quer parar de novo, devido ao cansaço das viagens, o medo de sentir dor de novo, expectativas não atendidas na quadra ou o simples fato de jogar e continuar tentando é maior do que toda essa dificuldade?

Não (quero parar) no momento. Ainda não estou pronto para me aposentar.

O dia que você ganhou o título na Antuérpia, depois de todo o descrédito e de meses parado por causa da cirurgia, você considera como o maior feito e conquista da sua carreira, até mesmo maior do que os seus Grand Slams?

Sim, foi uma das maiores vitórias que tive, com certeza. Acho que ninguém esperava que eu voltasse a vencer torneios tão logo após a cirurgia. Não houve nenhum outro jogador de simples que teve um quadril praticamente substituído e voltou para jogar com sucesso. Não chega a ser maior do que meus Grand Slams, mas certamente algo que eu realmente gostei e estou muito orgulhoso.

Sobre o seu lado empreendedor, por que você decidiu investir na rede de hotéis Cromlix? Seria já um movimento pensando na sua aposentadoria?

Comprei o Cromlix em 2013. O hotel teve muita história para minha família (foi onde me casei) e também é um negócio importante para as pessoas na região de Dunblane, na Escócia. Oferece muitos empregos, então quando foi fechado, eu decidi comprá-lo. Nós o transformamos em um hotel de luxo, com seu próprio lago privado, restaurante Chez Roux, excelentes instalações para negócios e uma quadra de tênis, é claro, e é um ótimo lugar para ficar quando eu voltar para a Escócia. Espero dedicar mais tempo aos meus interesses comerciais quando me aposentar e este será um dos projetos em que estarei trabalhando.

Você é conhecido por abordar as injustiças de gênero no mundo do tênis. Qual é a sua opinião sobre as mulheres recebendo menos nos torneios do que os homens?

Acredito que as mulheres deveriam ganhar igual aos homens no tênis. Quando você vê o quão duro as mulheres treinam e os sacrifícios que elas fazem, fica bem claro, para mim pelo menos, que elas devem ser tratadas com igualdade. Acho que as coisas estão mudando e há alguns passos positivos sendo dados por torneios e federações. Então espero que o futuro seja muito melhor para as mulheres no esporte.

O que você diria para o Andy de dez anos atrás? Você teria feito algo diferente na sua carreira?

Acho que o principal que eu diria é: ‘aproveite o momento’. Minha primeira vitória em Wimbledon é como um apagão para mim porque eu estava tão emocionado que realmente não me lembro muito daquele dia. Tenho sorte de poder viver jogando tênis, visitando alguns lugares incríveis e conhecendo pessoas realmente interessantes, mas a carreira de um jogador de tênis é curta, então devo me lembrar de aproveitar cada minuto ao longo do caminho.